
CONTE ME SEUS SONHOS

SIDNEy SHELDON

Obras do autor publicadas pela Record

  As areias do tempo
  Um capricho dos deuses
Os doze mandamentos (infanto juvenil)
  Escrito nas estrelas
  Um estranho no espelho
  A herdeira
  A ira dos anjos
  Juizo Final
  Lembranas da meia noite
  Manh, tarde e noite
  Nada dura para sempre
  A outra face
  O outro lado da meia noite
  O plano perfeito
  O reverso da medalha
  Se houver amanh

Livros Juvenis em Co edio com a Editora tica

  Corrida pela herana
  O ditador
  O estrangulador
Ofantasma da meia noite
  A perseguio

SIDNEy SHELDON

CONTE ME SEUS SONHOS

  Traduo de
Ricardo Silveira

EDITORA RECORD
  RIO DE JANEIRO  SO PAULO

Conte-me seus sonhos: - Sinopse

Ashley, Toni e Alette tm duas coisas em comum: so bonitas e suspeitas
de cometer uma srie de assassinatos brutais. A polcia efetua a priso,
que leva a um dos julgamentos mais inusitados j vistos, com a defesa
baseando-se em provas mdicas bizarras. .. .. .. .. .. .. .. ..


Esta  uma obra de fico baseada em casos reais.

        Livro um

        Captulo um

Ela estava sendo seguida. J havia lido sobre esse tipo de gente, pessoas que perseguem os outros furtivamente, mas pertenciam a um mundo diferente e violento.
No fazia idia de quem poderia ser, de quem poderia querer fazer lhe mal. Tentava desesperadamente evitar o pnico; entretanto, suas ltimas noites vinham sendo 
preenchidas com pesadelos, e todas as manhas ela despertava com uma sensao de ameaa iminente. Talvez tudo isso seja fruto da minha imaginao, pensou Ashley 
Paterson. Ando trabalhando demais. Preciso tirar um as frias. 
Ela se voltou para o espelho do quarto, a fim de observar a si prpria. Viu a imagem de uma mulher de vinte e tantos anos, esbelta, bem vestida, de traos aristocrticos 
e olhos castanhos, inteligentes e ansiosos, provida de uma discreta elegncia e atractivos surtis. Os cabelos escuros escorriam lhe suavemente sobre os ombros. 
Odeio a minha aparncia, pensou Ashley. Sou muito magra. Preciso comear a comer mais. Foi at a cozinha e ps se a preparar a refeio matinal, esforando se para 
esquecer aqueles pesadelos apavorantes que estava tendo e concentrando se no preparo de uma omelete bem fofa. Ligou a cafeteira e colocou uma fatia de po na torradeira. 
Dez minutos depois, a refeio estava pronta. Ashley ps os pratos sobre a mesa e sentou se. Pegou um garfo, olhou para a comida durante alguns instantes e balanou 
a cabea, em desespero. O medo roubara lhe o apetite. 
Isso no pode continuar assim, pensou, nervosa. Seja quem for, no vou deixar que faa isso comigo. No vou mesmo. 
Ashley olhou rapidamente para o relgio. Era hora de sair para o trabalho. Olhou ao redor do apartamento familiar, como se estivesse buscando algum tipo de reafirmao. 
Situado no terceiro andar de um prdio na vila Via Caminho, o apartamento era decorado com bom gosto, tinha uma sala intima e outra de estar, com lavabo, quarto 
de dormir, banheiro e cozinha. Ela morava em Cupertino, Califrnia, fazia trs anos. At h duas semanas atrs, Ashley o considerara to confortvel quanto um ninho, 
um refgio. Agora, ele se transformara numa fortaleza, um lugar onde ningum poderia entrar para prejudic la. Ela foi at  porta da frente e examinou a fechadura. 
Vou mandar botar uma tranca, pensou. Amanh. Apagou todas as luzes, verificou se a porta estava bem trancada ao sair e pegou o elevador at a garagem do subsolo. 

No havia ningum l. Seu carro estava a sete metros do elevador. Ela examinou bem as redondezas e correu at ele, entrou e trancou as portas, com o corao palpitando. 
Rumou para o centro da cidade, sob um cu com a cor da malcia, escuro e agourento. O servio meteorolgico tinha previsto chuva. Mas no vai chover, pensou Ashley, 
vai fazer sol. Fao um trato com voc, Deus. Se no chover quer dizer que est tudo bem, que tenho imaginado coisas.

Dez minutos depois, Ashley Paterson guiava pelo centro de Cupertino. Ainda se maravilhava com o milagre em que se transformara este outrora adormecido cantinho 
do vale de Santa Clara. Localizado oitenta quilmetros ao sul de So Francisco, era onde a revoluo do computador tivera incio e foi adequadamente apelidado de 
Vale do Silcio. 
 
Ashley trabalhava na Corporao Global de Computao Grfica, uma empresa nova, de sucesso e crescimento rpido, com duzentos funcionrios. Quando dobrou na Silverado 
Street, teve a incmoda sensao de que ele vinha logo atrs, de que a estava seguindo. Mas quem? E por qu? Olhou pelo espelho retrovisor. Tudo parecia normal. 
Todos os seus instintos lhe diziam o contrrio. 
Logo  sua frente, encontrava se a edificao espraiada e moderna onde se localizava a Global de Computao Grfica. Ashley entrou no estacionamento, mostrou o 
carto de identificao ao guarda e parou em sua vaga. Sentiu se segura ali. Quando ela saiu do carro, comeou a chover

s nove horas da manh, a Global j pululava de actividade. Havia oitenta cubculos modulares, ocupados por peritos em informtica, todos jovens e activamente empenhados 
em criar sites na Internet e logotipos para novas empresas, fazer artes finais para editoras e gravadoras e preparar ilustraes para revistas. O conjunto de escritrios 
ficava num andar corrido, onde se viam vrias divisrias: administrao, vendas, marketing e suporte tcnico. O ambiente era informal. Os funcionrios andavam de 
jeans, camisetas sem mangas ou agasalhos de ginstica. 
Quando Ashley se encaminhava para sua mesa, seu supervisor, Shane Miller, a abordou. 
  Bom dia, Ashley!
 Shane Miller tinha trinta e poucos anos, era um homem forte e srio, de personalidade agradvel. No incio, tentou persuadi la a ir para a cama com ele, mas finalmente 
desistiu, e os dois se tornaram bons amigos. 
Ele lhe entregou o ltimo exemplar da revista Time. 
   Viu isso?
Ashley olhou para a capa, que trazia a figura de um homem de aparncia distinta, com cerca de cinquenta anos e cabelos grisalhos. A manchete dizia: "Dr. Steven 
Paterson, Pai da Microcirurgia Cardaca". 
  Vi, sim. 
  Como voc se sente tendo um pai famoso?
Ashley sorriu. 
  Maravilhosamente bem. 
  Ele  um grande homem. 
  Vou dizer isso a ele. Ns vamos almoar juntos hoje. 
  Que bom! A propsito...   Shane Miller lhe mostrou a fotografia de uma estrela do cinema que seria usada como a cliente de um anncio.   Tem um probleminha aqui. 
Desiree engordou uns cinco quilos, e d para perceber. Veja s que olheiras! E, mesmo com a maquilhagem, a pele dela est cheia de manchas. Ser que voc consegue 
dar um jeito?
Ashley analisou a fotografia. 
  Posso melhorar os olhos aplicando um difusor. Tambm tentar afinar o rosto com o blur, mas... no! Provavelmente acabaria ficando com um aspecto meio estranho. 
  Ela voltou a estudar a fotografia.   Vai ficar bom se eu usar uma ferramenta tipo pairbrush ou clone em algumas reas. 
  Obrigado! Est tudo certo para sbado  noite?
  Est. 
Shane Miller apontou para a fotografia com um gesto da cabea. 
  Isso a no tem pressa. Eles querem para o ms passado. 
Ashley sorriu. 
 
  E qual  a novidade?
Ela ps mos  obra. Ashley era uma especialista em propaganda e design grfico, na criao de Lay out com texto e imagens. 
Meia hora mais tarde, enquanto trabalhava na fotografia, Ashley sentiu que algum a estava observando. Levantou o rosto e viu. Era Dennis Tibble. 
  Bom dia, doura!
A voz dele lhe dava nos nervos. Tibble era o gnio da informtica na empresa. Conhecido no trabalho como "O Consertador", sempre que um computador travava, mandavam 
cham lo. Estava com pouco mais de trinta anos, era magro, calvo e tinha uma atitude desagradvel, arrogante. Em suma, era um indivduo de personalidade obsessiva, 
que todos diziam ter uma fixao por Ashley. 
  Precisa de uma ajudinha?
  No, obrigada! 
  Ei, que tal sairmos para jantar no sbado?
  Obrigada! J tenho compromisso. 
  Vai sair com o chefe de novo?
Ashley se virou e olhou para ele, zangada. 
  Escuta aqui, isso no  da sua... 
  Seja como for, eu no fao idia do que voc viu nele! O cara  um almofadinha, um quadrado. Voc pode se divertir muito mais comigo.   Ele deu uma piscadela. 
  Voc sabe o que eu quero dizer, no sabe?
Ashley estava tentando se controlar
  Eu tenho mais o que fazer, Dennis. 
Tibble se inclinou para perto dela e sussurrou:
  Tem uma coisa que voc vai aprender a meu respeito, doura. Eu no desisto. Nunca. 
Ela ficou olhando, enquanto ele se afastava, e imaginou: Seria ele?
s 12 e 30, Ashley colocou seu computador em standby e foi para o Margherita Di Roma, encontrar se com o pai para almoar.

Ela estava sentada a uma mesa no canto do restaurante lotado, observando o pai vir em sua direco. Teve de admitir que ele era um homem atraente. As pessoas voltavam 
se para admir lo, enquanto ele se encaminhava para a mesa de Ashley. "Como voc se sente tendo um pai famoso?"
Anos antes, o Dr. Steven Paterson fora o pioneiro das cirurgias Cardacas minimamente invasivas. Era sempre convidado a dar palestras nos principais hospitais do 
mundo inteiro. Ashley tinha doze anos quando a me morreu, de modo que ficou sem ningum, alm do pai. 
  Desculpe o atraso, Ashley!   Ele se inclinou sobre ela e deu lhe um beijo na bochecha. 
  Tudo bem. Acabei de chegar
Ele se sentou. 
  Voc viu a Time?
  Vi. Shane me mostrou. 
Ele franziu o cenho. 
  Shane? Seu chefe?
  Ele no  meu chefe. Ele ... ele  um dos supervisores. 
  Nunca  bom misturar negcios com prazer, Ashley, voc est saindo com ele fora do ambiente de trabalho, no est? Isso  um erro. 
 
  Pai, ns somos s bons...
Um garom se aproximou da mesa. 
  Gostariam de ver o menu?
O Dr. Steven Paterson se virou para ele e rosnou:
  No d para ver que estamos no meio de uma conversa? V embora; e s volte quando for chamado. 
  Des... desculpe!   O garom deu meia volta e afastou se ligeiro. 
Ashley encolheu se de constrangimento. Tinha se esquecido de quo feroz era o temperamento do pai. Ele uma vez, durante uma cirurgia, chegou a dar um soco num residente 
que cometeu um erro de julgamento. Ashley lembrava se das discusses que o pai e a me travavam aos berros quando ela era pequena. Eles a deixavam aterrorizada 
com aquilo. Sempre brigavam pela mesma coisa; entretanto, por mais que se esforasse, ela no conseguia se lembrar sobre o que discutiam. Bloqueara o facto na memria. 

O pai continuou, como se no tivesse havido qualquer interrupo. 
  Onde estvamos? Ah, sim! Sair com Shane Miller  um erro, um grande erro. 
E suas palavras trouxeram  tona outra terrvel lembrana.

Ela chegou a ouvir a voz do pai dizendo:
  Sair com Jim Cleary  um erro. um grande erro... 
Ashley mal tinha completado 18 anos e estava morando em Bedford, Pensilvnia, onde nasceu. Jim Cleary era o rapaz mais disputado da Escola Secundria da Regio 
Administrativa de Bedford. Jogava no time de futebol americano, era bonito, engraado e tinha um sorriso arrasador. Ashley tinha a impresso de que todas as meninas 
do colgio queriam dormir com ele. E a maioria provavelmente dormiu, pensou na poca, com desgosto. 
Quando Jim Cleary comeou a convid la para sair, ela estava determinada a no ir parar na cama com ele. Tinha certeza de que s estava interessado em sexo; no 
entanto, passado algum tempo, mudou de idia. Gostava de estar com ele, que parecia apreciar genuinamente sua companhia. 
Naquele inverno, a turma de formandos do segundo grau foi passar um fim de semana esquiando nas montanhas. Jim Cleary adorava esquiar.
  Vai ser muito legal   garantiu ele. 
  Eu no vou. 
Ele olhou espantado para ela. 
  Por qu?
  Detesto o frio. Mesmo de luvas, meus dedos ficam enregelados. 
  Mas vai ser legal a gente poder... 
  Eu no vou. 
E ele ficou em Bedford, para passar o fim de semana com ela. 
Os dois compartilhavam os mesmos interesses, tinham as mesmas idias e sempre se divertiam muito juntos. 
Quando Jim Cleary lhe perguntou:
  Algum quis saber hoje de manh se voc  minha namorada. O que devo responder?
Ashley sorriu e disse:
  Responda que sim. 
O Dr. Paterson estava preocupado. 
 
  Voc anda saindo demais com esse tal de Cleary
  Pai, ele  um sujeito decente, e eu o amo. 
  Como  que voc pode amar esse sujeito? Ele no passa de um jogador de futebol americano. Eu no vou deixar voc se casar com um jogadorzinho qualquer. Ele no 
serve para voc, Ashley.
Ele havia dito a mesma coisa sobre todos os rapazes com quem ela saiu. 
O pai continuou fazendo comentrios desabonadores sobre Jim Cleary, mas a exploso se deu na noite da formatura. O rapaz a levaria ao baile. Quando chegou para 
apanh la, ela estava aos prantos. 
  Mas o que  isso? O que aconteceu?
  Meu pai... meu pai me disse que vai me levar para Londres. Ele me matriculou numa... faculdade de l. 
Jim Cleary olhou para ela, atnito. 
  Ele est fazendo isso por causa de ns dois, no ?
Ashley assentiu apenas com um gesto da cabea, contrariadssima. 
  Quando voc vai partir?
  Amanh. 
  No! Ashley, pelo amor de Deus, no deixe que ele faa isso connosco. Sabe, eu quero me casar com voc. O meu tio me ofereceu um emprego muito bom em Chicago, 
na agncia de publicidade dele. Vamos fugir. A gente se encontra na estao ferroviria. Tem um comboio que sai para Chicago s sete da manh. Voc topa?
Ela olhou para ele por um longo momento e disse baixinho:
  Topo. 
Repensando o assunto mais tarde, Ashley no conseguia se lembrar de como tinha visto o baile de formatura. Ela e Jim haviam passado a noite inteira discutindo animadamente 
os seus planos. 
  Por que no vamos de avio para Chicago?   perguntou Ashley
  Porque teramos de informar os nossos nomes  companhia area. Se formos de comboio, ningum vai ficar sabendo para onde fomos.
Quando eles estavam saindo da festa, Jim Cleary perguntou baixinho:
  Voc toparia dar uma parada l na minha casa antes? Meus pais foram passar o fim de semana fora. 
Ashley titubeou, dividida. 
  Jim... a gente j esperou tanto tempo! Uns dias a mais no vo fazer diferena. 
  Voc tem razo.   Ele abriu um amplo sorriso.   Acho que vou ser o nico homem neste continente a se casar com uma virgem. 
Quando Jim Cleary levou Ashley para casa, depois da festa, o Dr. Paterson estava esperando, enfurecido. 
  Vocs fazem alguma idia da hora?
  Sr. Paterson, desculpe!  que a festa... 
  No me venha com essas suas desculpas esfarrapadas, Cleary. A quem voc acha que est enganando?
  Eu no estou... 
  De agora em diante, mantenha as mos longe da minha filha, entendeu bem?
  Pai... 
  Voc, fique fora disto.   Ele agora estava gritando.   Cleary, eu quero que voc suma daqui e no me aparea mais. 
  Mas, Sr. Paterson, sua filha e eu... 
 
  Jim... 
  Suba j para o seu quarto. 
  Sr. Paterson... 
  Se eu vir voc por aqui outra vez, vou quebrar todos os ossos do seu corpo. 
Ashley jamais o vira to furioso. A noite acabou com todos aos berros. Depois de encerrado o assunto, Jim foi embora, e Ashley desatou a chorar.
No vou deixar papai fazer isso comigo, pensou Ashley, determinada. Ele est tentando arruinar a minha vida. Ela ficou sentada na cama por um longo tempo. O meu 
futuro  com Jim. Eu quero ficar com ele. Isto aqui no  mais o meu lar. Levantou se, ento, e comeou a arrumar uma maleta de viagem. Trinta minutos depois, saiu 
pela porta dos fundos e partiu em direco  casa de Jim Cleary, a dez quarteires de distncia. Vou passar a noite com ele e ns dois vamos pegar o comboio para 
Chicago de manh. Mas,  medida que foi se aproximando, pensou: No! Dessa forma est errado. Eu no quero estragar tudo. Vou encontr lo na estao. 
Ela deu meia volta e tomou o rumo de casa novamente. 
Ashley passou o resto da noite acordada, pensando em sua vida com Jim, na maravilha que seria. s 5 e 30, pegou sua maleta e passou silenciosamente diante da porta 
do quarto do pai. Esgueirou se para fora de casa e tomou um autocarro para a estao ferroviria. Ao chegar  estao, no encontrou Jim. Ela estava adiantada. 
O comboio s sairia dentro de mais uma hora. Ashley foi esperar sentada num banco, ansiosa. Pensou no pai acordando e notando que ela havia partido. Ficaria furioso. 
Mas no posso deixar que ele controle a minha vida. um dia ele vai chegar a conhecer Jim mais de perto e vai ver a sorte que eu tenho. 
6 e 30... 6 e 40... 6 e 45... 6 e 50... Nem sinal de Jim! Ashley estava comeando a entrar em pnico. O que teria acontecido? Resolveu telefonar para ele. Ningum 
atendeu. 6 e 55... Ele vai chegar a qualquer momento. Ela ouviu o apito do comboio  distncia e olhou para o relgio. 6 e 59. O comboio estava entrando na estao. 
Ela se levantou e olhou ao redor freneticamente. Alguma coisa terrvel aconteceu a ele. Sofreu um acidente. Est no hospital. Alguns minutos depois, Ashley estava 
plantada na plataforma, vendo o comboio partir para Chicago, levando com ele todos os seus sonhos. Esperou mais meia hora e tentou ligar de novo. Quando novamente 
ningum atendeu ao seu telefonema, ela voltou para casa, vagarosamente, desolada. 
Ao meio dia, Ashley e seu pai pegaram um avio para Londres... 

Ela frequentou uma faculdade em Londres durante dois anos e, quando decidiu que queria trabalhar com computadores, candidatou se  prestigiada bolsa de estudos 
para mulheres MEI Wang, no Curso de Engenharia da Universidade da Califrnia, em Santa Cruz. Seu pedido foi aceite e, trs anos depois, fora recrutada pela Corporao 
Global de Computao Grfica. 
No incio, Ashley escreveu meia dzia de cartas para Jim Cleary, mas rasgou as todas. Os actos e o silncio dele haviam lhe dito com toda a clareza como ele se 
sentia em relao a ela. 
A voz do pai arremessou a de volta ao presente. 
 
  Voc est a um milho de quilmetros de distncia daqui. Em que est pensando?
Ashley analisou o pai do outro lado da mesa. 
  Em nada. 
O Dr. Paterson chamou o garom com um gesto e exibiu um sorriso simptico. 
  Agora ns queremos ver o menu   disse. 
 
S no caminho de volta para o trabalho Ashley se lembrou de que no havia parabenizado o pai por ter sado na capa da Time. 
Quando chegou  sua mesa, Dennis Tibble estava  sua espera. 
  Fiquei sabendo que voc almoou com seu pai. 
Que sujeitinho enxerido! Ele acha que  da sua conta saber de tudo que acontece por aqui. 
  Almocei, sim. 
  No deve ter sido muito divertido.   Ele baixou a voz.   Por que voc nunca almoa comigo?
  Dennis... eu j lhe disse. No estou interessada. 
Ele sorriu. 
  Mas vai ficar. Aguarde. 
Havia algo estranho nele, algo assustador. Ashley tornou a se perguntar se no poderia ser ele quem... Ela balanou a cabea. No. Precisava esquecer essa coisa, 
tinha de seguir em frente. 

A caminho de casa, Ashley estacionou o carro em frente  Editora Apple Tree. Antes de entrar, olhou para a imagem reflectida no espelho da vitrine da loja, para 
ver se havia algum atrs dela que pudesse reconhecer. Ningum. Entrou na loja. 
Um rapaz veio atend la. 
  Deseja alguma coisa?
  Eu gostaria... Vocs tm algum livro sobre manacos que perseguem pessoas?
Ele olhava para ela com estranheza. 
  Manacos?
Ashley sentiu se uma idiota. 
  isso mesmo. E tambm quero um livro sobre... ahn... jardinagem e... e animais da frica   disse ela, rapidamente. 
  Manacos e jardinagem e animais da Africa?
  Isso   falou ela com firmeza. 
Quem sabe? Talvez um dia eu venha a ter um jardim e afazer uma viagem para frica!
Quando Ashley voltou para o carro, comeou a chover outra vez. 
Enquanto ela guiava, a chuva batia contra o pra brisa, fragmentando o espao e transformando as ruas  sua frente em imagens pontilhastes surreais. Ashley accionou 
os limpadores. Eles comearam a deslizar sobre o vidro, dizendo em voz sibilante: Ele vai pegar voc... vai pegar voc... vai pegar voc... Mais que depressa, ela 
os desligou. No, pensou. Eles esto dizendo: Que nada! que nada! que nada!
Ela tornou a ligar os limpadores de pra brisa. Ele vai pegar voc... vai pegar voc... vai pegar voc... 
Ashley estacionou o carro na garagem e apertou o boto para chamar o elevador. Dois minutos depois, estava chegando ao seu apartamento. Parou diante da entrada 
social, enfiou a chave na fechadura, abriu a porta e congelou. 
Todas as luzes do apartamento estavam acesas.
 

        Captulo Dois

"O macaco perseguiu a lontra
Em volta do p de amora. 
O macaco achou divertido. 
Mas a lontra   pluft!   foi embora. "

Toni Prescott sabia exatamente por que gostava de cantar essa musiquinha boba. Sua me sempre a odiou. "Pare de cantar essa msica idiota. Est me ouvindo? Voc 
nem tem a voz para cantar! " "Est bem, mame." E Toni cantava repetidas vezes, na surdina. Isso tinha sido h muito tempo atrs, mas a lembrana de desafiar a 
me ainda lhe trazia uma certa alegria. 
Toni Prescott detestava trabalhar na Global. Aos vinte e dois anos de idade, era brincalhona, cheia de vivacidade e ousadia. Era uma pessoa muito expansiva. Seu 
rosto com ar travesso tinha um aspecto zombeteiro; seus olhos castanhos, um ar matreiro; toda a sua figura, um jeito sedutor de ser. Tinha nascido em Londres e 
falava com um delicioso sotaque britnico. Era atltica e adorava praticar desporto. especialmente os de inverno: esqui, tren e patinao no gelo. 
Durante o perodo em que frequentou a faculdade, em Londres, Toni se vestia de forma conservadora durante o dia, mas  noite usava minissaias e adereos estilo 
disco e se dava a um comportamento permissivo. Passou inmeras noitadas, grandes e pequenas, no Electric Ballroom, na Camden High Street, e no Subterania e no Leopard 
Lounge, enturmada como badalado pessoal de West End. Como tinha uma bela voz, voluptuosa e sensual, dava canjas em algumas boates tocando ao piano e cantando, e 
o pblico aplaudia. Foi a poca em que se sentiu mais viva. 
A rotina nesses lugares seguia sempre o mesmo padro:
  Sabe que voc canta muito bem, Toni?
  Valeu. 
  Posso lhe pagar um drinque?
Ela sorria. 
  Eu adoraria tomar um Pimm's. 
  Com prazer!
E tudo terminava sempre da mesma forma. O candidato acabaria chegando bem pertinho e sussurrando ao seu ouvido:
  Por que a gente no vai para o meu apartamento e fica numa boa?
  Sem essa!   E Toni ia embora. Ficava deitada em sua cama  noite, pensando na estupidez dos homens e em como era espantosamente fcil control los. Os pobres 
coitados nem sabiam, mas queriam ser controlados. Precisavam ser controlados. 
E ento veio a mudana de Londres para Cupertino. No incio, foi um desastre. Toni detestava a cidade e odiava trabalhar na Global. Era uma chatice ficar ouvindo 
falar sobre dispositivos de encaixe e definio de imagem, fotogravuras. Ela morria de saudades da agitada vida nocturna de Londres. Havia alguns points na rea 
de Cupertino, e Toni os frequentava: San Jos Live, P J. Mulligan's ou Hollywood Junction. Usava minissaias apertadas e tops com sapatos abertos de salto dez ou 
solado alto de cortia. 
 
Caprichava na maquilhagem, aplicando clios postios, delineador grosso e escuro nos olhos, alm de sombra colorida e batom brilhante. Era como se estivesse tentando 
ocultar sua beleza. 
Havia fins de semana em que pegava o carro e ia at So Francisco, onde a agitao era maior! Buscava os restaurantes e boates com msica ao vivo. Estava sempre 
no Harry Denton's, no One Market e no Califrnia Caf, e durante a noite, enquanto os msicos davam um intervalo, ela ia para o piano, tocar e cantar. Os fregueses 
adoravam. Quando Toni pedia a conta do jantar, os donos diziam:
  No; fica por conta da casa. Voc  maravilhosa! Volte sempre, por favor. Voc ouviu isso, mame? "Voc  maravilhosa! Volte sempre, por favor "

Numa noite de sbado, Toni estava jantando no Salo Francs do Cliff Hotel. Os msicos haviam concludo a primeira parte da apresentao e deixado o palco. O maitre 
olhou para ela e acenou lhe convidativamente com um leve gesto de cabea. Toni se levantou e atravessou a sala, em direco ao piano. 
Sentou se e comeou a tocar e cantar uma antiga cano de Cole Porter. Quando terminou, todos aplaudiram eufricos. Ela cantou mais duas msicas e voltou para a 
mesa. 
Um homem calvo, de meia idade, foi falar com ela. 
  Com licena! Posso me sentar com voc um instantinho s?
Toni j ia dizendo que no, quando ele acrescentou:
  Meu nome  Norman Zimmerman. Estou produzindo uma turn de O rei e eu. Gostaria de conversar com voc sobre isso. 
Toni tinha acabado de ler um artigo brilhante a seu respeito. 
Ele era um gnio do teatro. 
O homem se sentou. 
  Voc  extremamente talentosa, mocinha! Est desperdiando o seu tempo em lugares como este. Deveria estar na Broadway. 
  Broadway. Voc ouviu, mame?
  Eu gostaria de fazer um teste com voc para... 
  Desculpe, mas no posso. 
Ele olhou surpreso para ela. 
  Uma coisa dessas poderia abrir muitas portas para voc. Srio. Eu acho que voc no sabe direito o talento que tem. 
  Eu tenho um emprego. 
  Fazendo o qu, posso perguntar?
  Trabalho numa empresa de informtica. 
  Quer saber de uma coisa? Eu comeo pagando o dobro do seu salrio l, seja ele qual for, e... 
Toni falou:
  Eu fico muito agradecida, mas... no d. 
Zimmerman se recostou no espaldar da cadeira. 
  Voc no se interessa pelo mundo da ribalta?
  Eu me interesso, e muito. 
  Ento, qual  o problema?
Toni hesitou, depois disse com cautela:
  Eu provavelmente teria de abandonar a turn no meio. 
  Por causa do seu marido, ou...?
  No sou casada. 
  No estou entendendo. Voc disse que se interessa pelo palco. Esta  uma oportunidade excelente para voc aparecer e... 
  Eu sinto muito. No d para explicar. 
 
Se eu explicasse, ele no entenderia, pensou Toni, arrasada. Ningum entenderia. a praga maldita com a qual eu tenho de conviver Para sempre. 

Poucos meses depois de ter comeado a trabalhar na Global, Toni percebeu a importncia da Internet, a porta mundial para conhecer homens. 
Ela estava jantando num lugar chamado Duque de Edimburgo com Cathy Healy, uma amiga que trabalhava numa empresa concorrente na rea de informtica. A casa era um 
pub original da Inglaterra, que fora desmontado, embalado em conteineres e enviado para a Califrnia de navio. Toni ia l por causa do peixe ao estilo Cockney com 
batatas fritas, das costeletas com pudim de Yorkshire, da linguia com pur e do bolo ao rum ingls. um p no cho, diria. No posso me esquecer das minhas razes. 

Toni olhou para Kathy
  Eu preciso de um favor seu. 
  Pode falar
  Quero ajuda com a Internet, minha amiga. Voc tem de me ajudar a usar esse negcio. 
  Toni, o nico computador ao qual eu tenho acesso fica no meu trabalho, e  contra as normas da empresa usar...
  Que se danem as normas da empresa! Voc sabe usar a Internet, no sabe?
  Sei. 
Toni deu uns tapinhas na mo de Kathy Healy e sorriu. 
  ptimo! 
Na noite seguinte, Toni foi para o escritrio de Kathy Healy, que a apresentou ao mundo da Internet. Kathy deu um clique sobre o cone da Internet, digitou sua 
senha e esperou a conexo; em seguida, deu dois cliques em outro cone e entrou num chat room. 
Toni ficou deslumbrada ao ver os caracteres surgindo rapidamente na tela, conversas digitadas entre gente do mundo inteiro. 
  Eu preciso ter esse negcio!   falou Toni.   Vou comprar um computador l para casa. Voc faria o grande favor de me colocar na Internet?
  Claro.  fcil. Basta pegar o mouse e dar um clique no cone do seu programa de Internet... 
  Conforme diz a msica... no quero que voc me diga, quero que voc me mostre. 

Na noite seguinte, Toni estava na Internet, e da em diante sua vida mudou. Acabou se a chateao. A Internet se transformou num tapete mgico que a levava a passear 
pelo mundo inteiro. Mal chegava do trabalho, Toni ligava o computador e entrava on line para explorar os vrios chat rooms da rede. Era muito simples. Ela acessava 
a Internet, apertava uma tecla, e abria se uma janela na tela, dividida ao meio no sentido horizontal. Toni digitava:
  Oi! Tem algum a?
Na parte inferior da tela surgia:
  Bob. Estou aqui. Esperando por voc. . 
Ela estava pronta para se encontrar com o mundo. Veio Hans, da Holanda:
  Fale me de voc, Hans. 
 
  Sou DJ numa grande boate de Amsterd. Gosto de hiphop, rave, World beat. Pode escolher. 
Toni digitou a resposta. 
  Que legal! Eu adoro danar. Viro a noite danando. Moro numa cidadezinha horrvel, que no tem nada a oferecer, alm de poucas discotecas. 
  Que tristeza, hein?
  Nem me fale! 
  Quer que eu lhe d um pouco de alegria? Quais so as chances de um encontro entre ns dois?
  Tchauzinho!   Ela saiu do chat room. 
Veio Paul, da frica do Sul:
  Eu estava esperando voc chegar, Toni. 
  Aqui estou. Louca para saber de voc, Paul!
  Tenho trinta e dois anos. Sou mdico de um hospital em Joanesburgo. Eu...   Toni se desconectou. um mdico! Lembranas terrveis a assolaram. Ela fechou os olhos, 
com o corao palpitando. Respirou fundo vrias vezes. Chega por hoje, pensou, estremecida. Foi dormir
Na noite seguinte, Toni voltou  Internet. Sean, de Dublin, entrou na linha. 
  Toni... Que nome bonito!
  Obrigada, Sean!
  Voc conhece a Irlanda?
  No. . 
  Iria adorar.  a terra dos duendes. Eu gostaria de saber como voc , Toni. Aposto que  linda. 
  Acertou. Sou linda, excitante e solteira. O que voc faz, Sean?
  Trabalho num bar. Eu... 
Toni encerrou a sesso. 

Toda noite era diferente. Houve um jogador de plo da Argentina, um negociante de automveis do Japo, um vendedor de uma loja de departamentos de Chicago, um tcnico 
de televiso de Nova York. A Internet era um jogo fascinante, e Toni a desfrutava ao mximo. Podia ir to longe quanto quisesse e, apesar disso, sabia se segura, 
pois ficava no anonimato. 
At que uma noite, num chat room ao vivo, conheceu Jean Claude Parent. 
  Bon soir!  um prazer conhec la, Toni. 
  O prazer  meu, Jean Claude. Onde voc est?
  Em Quebeque. 
  Nunca fui a Quebeque. Ser que eu iria gostar?   Toni achou que veria surgir na tela uma resposta afirmativa. 
Mas Jean Claude digitou:
  No sei. Depende do tipo de pessoa que voc . 
Toni ficou intrigada com aquilo. 
   mesmo? E que tipo de pessoa eu precisaria ser para gostar de Quebeque?
  Quebeque assemelha se s primeiras fronteiras dos Estados Unidos.  muito francesa. O povo daqui  muito independente. No gostamos de receber ordens de ningum. 

Toni digitou:
  Nem eu. 
 
  Ento, voc iria gostar. A cidade  bonita, cercada de montanhas e lagos adorveis!  um paraso para a caa e a pesca. 
Olhando para as palavras digitadas na tela, Toni chegou at a sentir o entusiasmo de Jean Claude. 
  Est me parecendo legal. Fale me de voc. 
  Eu? No tenho muito a dizer. Estou com trinta e oito anos, solteiro. Acabei de romper um relacionamento e gostaria de arranjar a mulher certa e sossegar. E voc? 
casada?
Toni digitou de volta:
  No. Tambm procuro algum. O que voc faz?
  Sou dono de uma lojinha de jias. Espero que voc possa vir conhecer a minha loja um dia.
  Isso  um convite?
  Mais oui... sim. 
Toni digitou:
  Estou ficando interessada. 
De facto, estava. Talvez eu d um jeito de ir at l, pensou. Talvez ele seja a pessoa que pode me salvar. Toni se comunicava com Jean Claude Parent quase todas 
as noites. Ele passou uma fotografia sua no scanner, e Toni viu se olhando para um homem muito atraente, com uma fisionomia inteligente. 
Quando viu uma fotografia de Toni, que ela tambm enviou usando o scanner, Jean Claude escreveu:
  Voc  bonita, ma chrie. Conforme eu previa. Venha me visitar, por favor
  Vou, sim. 
  Em breve. 
  Tchauzinho!   Toni se desconectou. 

Em seu trabalho, na manh seguinte, Toni ouviu Shane Miller conversando com Ashley Paterson e pensou, Que diabo ele v nela? Ela  um bagulho! A seu ver, Ashley 
era uma solteirona frustrada, a dona Maria Certinha em pessoa. Ela no faz a menor idia do que seja se divertir, pensou Toni. No aprovava nada na outra. Ashley 
era um caso perdido, algum que gostava de ficar em casa  noite, lendo um livro ou assistindo a documentrios sobre Histria e  CNN. No se interessava por desportos. 
uma chata! Nunca tinha entrado num chat room. Encontrar estranhos pelo computador era algo que Ashley jamais faria, a antiptica. Ela nem sabe o que est perdendo, 
pensou Toni. Sem o chat room, eu jamais teria conhecido Jean Claude! 
Toni pensou no quanto sua me teria odiado a Internet. Mas sua me havia odiado tudo mesmo! S tinha duas formas de se comunicar: gritando ou se lamuriando. Toni 
jamais conseguia agrad la. Voc no faz nada certo, hein? Mas que menina idiota! Ora, a me tinha gritado demais com ela. Toni pensou no terrvel acidente no qual 
a me morreu. Ainda podia ouvir seus gritos de socorro. A lembrana a fez sorrir.

" um centavo por um novelo de l, 
Um centavo por uma agulha, a toda hora! 
assim que o dinheiro se vai. 
E a lontra   pluft!   foi embora."
 
        Captulo Trs

Em outro lugar, em outra poca, Alette Peters poderia ter sido uma artista de sucesso. At onde podia se lembrar, seus sentidos viviam ligados s nuances de cor. 
Ela podia ver as cores, sentir o cheiro das cores, ouvir o som das cores. 
A voz do pai era azul e, s vezes, vermelha. 
A voz da me era marrom escura. 
A voz da professora era amarela. 
A voz do feirante era prpura. 
O barulho do vento nas rvores era verde. 
O som da gua corrente era cinza. 

Alette Peters tinha vinte anos de idade. Podia ter um aspecto normal, ser atraente, ou estonteantemente linda, dependendo do seu humor, ou de como estivesse se 
sentindo consigo mesma. 
Porm, jamais era simplesmente bonita. Parte de seu charme residia no facto de nunca se dar conta de sua aparncia. Era tmida, de fala doce e uma gentileza quase 
anacrnica. 
Alette nascera em Roma e tinha um melodioso sotaque italiano. Adorava todos os aspectos de Roma. Esteve no alto dos Degraus Espanhis e, olhando a vista, sentiu 
que a cidade lhe pertencia. Ao admirar os templos e o gigantesco Coliseu, soube que pertencia quela poca. Passeou pela Piazza Navona, ouviu a msica das guas 
na fonte dos Quatro Rios, e visitou a Piazza Venezia, com seu monumento em forma de bolo de casamento ao estilo Vtor Emanuel II. Passou infindveis horas na baslica 
de So Pedro, no museu do Vaticano e na galeria Borghese, apreciando as obras atemporais de Raphael, Fra Bartolommeo, Andrea del Sarto e Pontormo. Tais talentos 
tanto a transfixavam quanto a frustravam. Gostaria de ter nascido no sculo XVI e de t los conhecido. Eles eram mais reais para Alette do que os transeuntes nas 
ruas. Ela desejava ardentemente ser uma artista. 
Podia ouvir a voz marrom escura da me: Voc est desperdiando papel e tinta. No tem talento. 

A mudana para a Califrnia foi desestabilizadora a princpio. Alette ficou apreensiva quanto  sua adaptao, mas Cupertino acabou se revelando uma agradvel surpresa. 
Ela apreciava a privacidade que a cidadezinha podia lhe propiciar e gostava de trabalhar na Corporao Global de Computao Grfica. No havia grandes galerias 
de arte em Cupertino, mas, nos finais de semana, Alette pegava o carro e ia visitar as de So Francisco. 
  Porqu tanto interesse por essas coisas?   perguntou lhe Toni Prescott.   Venha ao J. P Mulligan's comigo e divirta se
um pouco. 
  Voc no liga para o lado artstico da vida?
Toni riu. 
  Claro! Ainda mais quando o artista est ao meu lado! 
S havia uma nuvem pairando sobre a vida de Alette Peters. Ela era manaco depressiva. Sofria de anomia, uma sensao de alienao do resto do mundo. Suas alteraes 
de humor sempre a pegavam desprevenida, e, num instante, ela passava de uma alegre euforia para uma tristeza desesperada. No controlava suas emoes. 
 
Toni era a nica pessoa com quem Alette discutia seus problemas. A amiga tinha uma soluo para tudo, que em geral era:
  Vamos sair para nos divertir. 
O assunto preferido de Toni era Ashley Paterson. Ela estava assistindo  conversa de Ashley com Shane Miller. 
  Veja s aquela babacona   falou Toni em tom de desprezo.    a rainha do gelo. 
Alette assentiu. 
  sria demais. Algum bem que poderia ensin la a rir. 
Toni caoou:
  Algum bem que poderia ensin la a trepar!

Uma noite por semana, Alette ia  misso para os sem tecto de So Francisco e ajudava a servir o jantar. Havia uma velhinha em particular, que aguardava ansiosamente 
as vindas de Alette. Ela andava de cadeira de rodas e Alette sempre a empurrava at uma mesa e levava seu prato de comida quente. 
A mulher dizia, agradecida:
  Minha querida, se eu tivesse uma filha, gostaria que ela fosse exatamente igual a voc! 
Alette apertava lhe a mo. 
  Puxa, mas que elogio! Obrigada!   E sua voz interna dizia:
Se voc tivesse uma filha, ela seria uma porcalhona igualzinha como voc. E Alette ficava horrorizada com os seus pensamentos. Era como se outra pessoa dentro dela 
estivesse dizendo aquelas palavras. Isso acontecia sempre. 
Alette estava fazendo compras com Betty Hardy, uma mulher que frequentava a mesma igreja que ela. As duas pararam em frente a uma loja de departamentos. Betty estava 
admirando um vestido na vitrine. 
  Que lindo, hein?
  Maravilhoso   falou Alette.  o vestido mais feio que j vi na vida. Perfeito para voc . 
Certa noite, Alette foi jantar com Ronald, sacristo da igreja. 
  Eu adoro estar na sua companhia, Alette. Vamos sair mais vezes. 
Ela abriu um sorriso tmido. 
  Eu gostaria muito.   E pensou: Nonfaccia, lo stupido. Talvez em outra encarnao seja! E mais uma vez se sentiu horrorizada. O que h de errado comigo? Mas ela 
no tinha resposta. 
Os menores deslizes, intencionais ou no, deixavam Alette enfurecida. Indo para o trabalho certa manh, um carro cortou lhe a dianteira. Ela trincou os dentes e 
pensou: Vou matar esse canalha. O homem acenou lhe, desculpando se, e Alette abriu lhe um sorriso simptico. Mas a raiva ainda estava presente nela. 
Quando baixava a nuvem negra, Alette imaginava as pessoas tendo ataques Cardacos nas ruas, ou sendo atropeladas, ou sendo assaltadas e assassinadas. Repassava 
as cenas em sua cabea com uma vivacidade real. Momentos depois, enchia se de vergonha. 
Nos seus dias bons, Alette era uma pessoa completamente diferente. Gentil de verdade, solidria, que gostava de ajudar a todos. A nica coisa que estragava sua 
felicidade era saber que as trevas retornariam, e que ela se perderia nelas. 
 
Todo domingo de manh, Alette ia  igreja. Os fiis organizavam se em grupos de voluntrios para alimentar os pobres, ensinar educao artstica aps o horrio 
escolar e dar aulas particulares para os alunos mais fracos. Alette se responsabilizava pela catequese dominical e ajudava no berrio. Sempre se oferecia para 
todas as actividades de caridade e reservava lhes o mximo de tempo que podia. Ela gostava principalmente de dar aulas de pintura para os jovens. 
Um certo domingo, a igreja promoveu uma feira para levantar fundos, e Alette levou alguns de seus prprios quadros para vender em benefcio do movimento. O pastor 
Frank Selvaggio os viu e ficou deslumbrado. 
  Mas que... que quadros lindos! Voc deveria coloc los  venda numa galeria. 
Alette corou. 
  Ah, no! Isso no. Eu s pinto para me distrair. 
A feira estava abarrotada de gente se divertindo. Os devotos haviam levado seus amigos e parentes, e havia barracas de jogos e tambm de artesanato. As atraces 
variavam desde quitutes, bolos lindamente decorados e gelias caseiras em belssimos potes, at colchas de retalhos feitas  mo e brinquedos esculpidos em madeira. 
As pessoas iam de uma barraca para outra, provando os doces, comprando coisas que no teriam uso algum no dia seguinte. 
  Mas  tudo em nome da caridade   Alette ouviu uma mulher explicando ao marido. 
Alette olhou para os seus quadros, que havia distribudo em torno da barraca, em sua maioria paisagens pintadas com cores to vivas que pareciam saltar da tela. 
Estava bastante receosa. Voc est gastando um dinheiro com essas tintas, menina! 
Um homem se aproximou da barraca. 
  Oi! Foi voc quem pintou?
Sua voz era de um azul profundo. 
- No, seu idiota! Michelangelo deu um pulinho aqui e pintou. 
  Voc tem muito talento. 
  Obrigada!  E voc entende alguma coisa de talento?
Um casal jovem parou na barraca de Alette. 
  Mas que cores! Ah, eu vou levar aquele ali. Voc pinta muito bem. 
Durante toda a tarde as pessoas foram  sua barraca, para comprar seus quadros e falar do seu talento. Alette quis acreditar em toda aquela gente, mas a cada vez 
a cortina negra descia e ela pensava: Essa gente toda est sendo ludibriada!
E chegou um marchand. 
  Esses quadros so adorveis! Voc deveria comercializar o seu talento. 
  Eu sou amadora   insistiu Alette. E recusou se a levar adiante a discusso. 
Ao fim do dia, Alette vendera absolutamente todos os seus quadros. Juntou o dinheiro que as pessoas lhe haviam pago, colocou em um envelope e entregou o ao pastor 
Frank Selvaggio. 
Ele o recebeu e disse:
  Obrigado, Alette! Voc tem um grande dom, trazer tanta beleza para as vidas das pessoas. 
Voc ouviu isso, mame?

 
Quando estava em So Francisco, Alette passava horas visitando o Museu de Arte Moderna e ia sempre ao Museu De Young, a fim de estudar sua coleco de arte norte 
americana. Artistas jovens ficavam l, copiando alguns dos quadros expostos nas paredes do museu. um rapaz, em particular, chamou a ateno de Alette. Aproximava 
se dos trinta, era magro e louro, tinha traos fortes e um ar inteligente. Copiava Pecnias, de Gergia O'Keeffe, e seu trabalho era notvel. O artista percebeu 
que Alette o estava observando. 
  Ol!
Sua voz soou igual a amarelo vivo. 
  Ol   respondeu Alette, timidamente. 
O artista gesticulou com a cabea, apontando para o prprio trabalho. 
   O que voc acha?
  Belssimo! Acho maravilhoso.   E aguardou que sua voz interna dissesse: "Para um amador idiota. " Mas isso no aconteceu. Ela se surpreendeu.   maravilhoso mesmo. 

Ele sorriu. 
  Obrigado! Meu nome  Richard; Richard Melton. 
  Alette Peters. 
  Voc vem sempre aqui?   perguntou Richard. 
  Sim. Sempre que posso. No moro em So Francisco. 
  Onde voc mora?
  Em Cupertino.   No foi "Isso no  da sua conta" nem "voc quer mesmo saber?", mas sim "Em Cupertino". O que est acontecendo comigo?
   uma cidadezinha muito agradvel. 
  Eu gosto.   No foi "Por que diabos voc acha que  uma cidadezinha agradvel?" nem "E voc l sabe o que  uma cidadezinha agradvel?", mas sim "Eu gosto". 
Ele terminou o quadro. 
  Estou com fome. Posso pagar lhe o almoo? O Caf De Young tem uma comida saborosa. 
Alette vacilou um pouco. 
  Va bene. Acho uma boa idia.   No foi "Voc tem cara de idiota" nem "Eu no almoo com desconhecidos", mas sim . Acho uma boa idia". Foi uma experincia nova, 
que a deixou extasiada.
O almoo foi extremamente agradvel e sequer uma vez os pensamentos negativos vieram  mente de Alette. Os dois conversaram sobre alguns dos grandes artistas, e 
ela contou a Richard sobre sua infncia em Roma. 
  Eu nunca fui a Roma   disse ele.   Talvez um dia. 
E Alette pensou: Seria divertido ir a Roma com voc. 
Quando eles j estavam terminando o almoo, Richard viu seu colega de quarto e o chamou para a mesa. 
  Gary, eu no sabia que voc ia estar aqui. Esta  Alette Peters. Gary King. 
Gary estava com seus vinte e tantos anos, tinha olhos azuis e usava o cabelo na altura dos ombros. 
   Prazer em conhec lo, Gary
  Gary  o meu melhor amigo desde o segundo grau, Alette. 
  Pois ! E conheo muita coisa da vida do Richard. Portanto, se voc quiser ficar sabendo de um as boas histrias... 
  Gary, vai ver se eu estou na esquina. 
  Vou, sim.   Ele se dirigiu a Alette.   Mas no se esquea da minha oferta. A gente se v por a. 
Depois que Gary se afastou, Richard falou:
  Alette... 
 
  Diga. 
  Ser que eu poderia ver voc novamente?
  Acho uma boa idia. 
Muito boa. 

Segunda feira de manh, Alette narrou a experincia a Toni. 
  No v se envolver com um artista   advertiu Toni.  Voc vai ter de sobreviver das frutas que ele pintar. Vai sair com ele?
Alette sorriu. 
  Vou. Acho que ele gostou de mim. E eu gostei dele. Gostei mesmo. 

Tudo comeou como uma pequena discrdia e acabou como uma discusso enfurecida. O pastor Frank estava se aposentando depois de quarenta anos de servio. Sempre 
fora um pastor muito bom e consciencioso, e a congregao sentia a sua partida. Fizeram reunies secretas para decidir o que lhe dariam como presente de despedida. 
um relgio... dinheiro... um as frias... um quadro... Ele adorava arte. 
  Por que a gente no pede a algum que pinte um retrato dele, com a igreja ao fundo?   Os olhares voltaram se para Alette. 
  Voc faria?
  Claro   respondeu ela, satisfeitssima. 
Walter Manning era um dos frequentadores mais antigos da igreja e um dos maiores colaboradores. Era um empresrio muito bem sucedido, mas parecia ressentir se do 
sucesso dos demais. Ele falou:
  Minha filha  uma excelente pintora. Talvez ela devesse pintar o quadro. 
Algum sugeriu:
  Por que as duas no pintam cada uma um quadro para que depois ns votemos qual vai ser dado ao pastor Frank?

Alette ps mos  obra. O quadro levou cinco dias para ficar pronto, e o resultado ficou um primor, com o brilho da compaixo e bondade do retratado. No domingo 
seguinte, o grupo reuniu se para estudar as duas pinturas. Houve exclamaes de aprovao pelo quadro de Alette. 
  Est to real! Parece at que ele vai sair andando da tela... 
  Ah, ele vai adorar... 
  Alette, esse quadro deveria estar num museu... 
Walter Manning desembrulhou a tela pintada por sua filha. 
Tratava se de uma excelente obra, mas faltava lhe o fulgor do retrato de Alette. 
  Est muito bom   disse um dos membros da congregao, com muito tacto  , mas acho que o de Alette ... 
  Eu concordo... 
  Vai ser o que Alette pintou... 
Walter Manning protestou. 
   preciso que a deciso seja unnime. Minha filha  uma pintora profissional   ele olhou para Alette  , no uma diletante. Ela pintou este quadro como um favor. 
No podemos recusar sua obra. 
  Mas, Walter... 
  No, senhor.  preciso que haja unanimidade. Vamos dar ao pastor o quadro da minha filha ; caso contrrio, no vamos lhe dar quadro algum. 
 
Alette falou:
  Eu gostei muito do quadro dela. Vamos d lo ao pastor
Walter Manning abriu um sorriso presunoso e disse:
  Ele vai ficar muito satisfeito com este. 

A caminho de casa naquela noite, Walter Manning foi atropelado e morto por um motorista que nem sequer parou para prestar socorro. 
Quando Alette soube da notcia, ficou chocada.
 
        Captulo Quatro

Ashley Paterson estava tomando banho s pressas, atrasada para o trabalho, quando ouviu o rudo. uma porta sendo aberta?
Fechada? Ela desligou o chuveiro,  escuta, o corao palpitando. 
Silncio. Ficou parada um instante, as gotas de gua reluzindo sobre todo o corpo, depois se enxugou ligeiro e entrou no quarto, cautelosa, Tudo parecia normal. 
a minha imaginao idiota outra vez! Preciso me vestir logo. Foi at a gaveta de lingerie, abriu a e ficou olhando, incrdula. Algum tinha mexido em suas roupas 
ntimas. Seus sutis e calcinhas estavam empilhados, todos juntos. Ela sempre guardava as peas arrumadas em separado. Ashley sentiu um n no estmago. Teria ele 
aberto a prpria cala, pegado uma calcinha dela e a esfregado contra o corpo? Teria se dado  fantasia de estupr la? Ela sentiu dificuldade para respirar. Eu 
deveria ir  polcia, mas eles ririam de mim. Voc quer que ns faamos uma investigao porque est achando que algum mexeu na sua gaveta de lingerie? Algum 
anda me seguindo. Voc j viu quem ? No. Algum a ameaou? No. Voc sabe por que algum iria querer lhe fazer mal? No.
No adianta, pensou Ashley,  beira do desespero. No posso procurar a polcia. Eles me fariam exatamente estas perguntas, e eu iria passar por boba. Ela se vestiu 
o mais rpido que pde, tomada por uma nsia de fugir do apartamento. Vou ter de me mudar. Morar num lugar qualquer onde ele no consiga me encontrar. Mas embora 
entabulasse esses pensamentos, Ashley tinha a sensao de que seria impossvel. Ele sabe onde eu moro, sabe onde eu trabalho. E o que eu sei sobre ele? Nada. Ela 
se recusava a ter uma arma no apartamento, pois detestava violncia. Mas agora eu preciso de proteco, pensou. Foi at  cozinha, pegou a faca de cortar carne 
e levou a para o quarto, colocando a na gaveta da cmoda, ao lado de sua cama.  possvel que eu mesma tenha misturado as calcinhas com os sutis. S pode ter sido 
isso! Ou seria pensamento ansioso? 
Havia um envelope em sua caixa de correspondncia na portaria do prdio. O endereo do remetente era: "Escola de Segundo Grau da Regio Administrativa de Bedford, 
Bedford, Pensilvania. " Ashley leu o convite duas vezes. 

Reunio de Dez Anos da Turma!
Rico, pobre, mendigo, ladro. Voc no vive se perguntando como os seus colegas de turma se saram nesses ltimos dez anos? Eis a chance de descobrir. Vamos fazer 
uma reunio fantstica no fim de semana de 15 de junho. Comida, bebida, orquestra e baile. Venha se divertir. Basta enviar o carto de resposta pelo correio para 
confirmar a sua presena. Todos esto ansiosos para rever voc. 


 A caminho do trabalho, Ashley foi pensando no convite. "Todos esto ansiosos para rever voc. " Todos, excepto Jim Cleary, pensou ela, com amargura. 
 
"Eu quero me casar com voc. O meu tio me ofereceu um emprego muito bom em Chicago, na agncia de publicidade dele... Tem um comboio que sai para Chicago s sete 
da manh. Voc topa?" E ela se recordou da angstia da espera na estao ferroviria, acreditando nele, confiando nele. Jim mudara de idia e no fora homem o suficiente 
para ir lhe dizer. Em vez disso, deixara a sentada numa estao ferroviria, sozinha.  melhor esquecer o convite. Eu no vou. 
Ashley almoou com Shane Miller no TGI Friday's. Eles ficaram num dos compartimentos reservados, comendo em silncio. 
  Voc est com um ar preocupado   falou Shane. 
  Desculpe.   Ashley hesitou um instante. Ficou tentada a lhe contar sobre a lingerie, mas a histria pareceria idiota. Algum mexeu nas suas gavetas?   Em vez 
disso, falou:   Recebi um convite para a reunio de dez anos da minha turma do segundo grau. 
  Voc vai?
  Certamente que no.   A frase saiu com mais entonao do que Ashley pretendera. 
Shane Miller olhou para ela, curioso. 
  Por que no? Essas reunies costumam ser divertidas. 
Ser que Jim Cleary estaria l? Levaria mulher e filhos? O que me diria? "Desculpe! Eu no consegui ir me encontrar com voc na estao ferroviria. Sinto muito 
por ter mentido para voc quando lhe falei sobre casamento"?
  Eu no vou. 

Mas Ashley no conseguiu tirar o convite da cabea. Seria bom rever alguns dos meus colegas de turma, pensava ela. Tinha sido muito ntima de alguns. Em particular, 
de Florence Schiffer. Eu gostaria de saber como ela anda. E ficou curiosa por saber se a cidade de Bedford havia mudado. 
Ashley Paterson crescera em Bedford, Pensilvania, uma cidadezinha a duas horas de Pittsburgh, em direco ao leste, entranhada na serra de Allegheny. Seu pai foi 
director do Memorial Hospital do condado de Bedford, um dos cem melhores hospitais dopais. 
Bedford tinha sido um lugar maravilhoso para passar a infncia. Cheia de parques para se fazer piquenique, de rios onde a pesca era boa e de eventos sociais ao 
longo do ano inteiro. Ashley gostava de visitar o Grande vale, onde havia uma colnia amish. Era comum ver cavalos puxando carruagens com tetos de cores diferentes, 
que dependiam do grau de ortodoxia dos seus donos. 
Havia as festas nocturnas da Vila do Mistrio, as apresentaes de teatro e o Grande Festival da Abbora. Ashley sorriu s de pensar nos bons tempos que passou 
ali. Talvez eu v, pensou. Jim Cleary no ter o desplante de aparecer 
Ashley contou sua deciso a Shane Miller
  Vai ser na sexta feira seguinte a esta   disse ela.   Vou voltar domingo  noite. 
  Que bom! Se voc me avisar a hora em que vai chegar, vou busc la no aeroporto. 
  Obrigada, Shane! 

Quando voltou do almoo, Ashley entrou em seu cubculo e ligou o computador. Para sua surpresa, uma sbita chuva de pixels se espalhou pela tela, formando uma imagem. 
Ela olhou para aquilo, perplexa. Os pixels estavam formando a imagem dela. Enquanto observava horrorizada, a mo de algum, segurando uma faca de cortar carne, 
apareceu no alto da tela. A mo se aproximou rapidamente de sua imagem, disposta a esfaque la no peito. 
 
Ashley soltou um berro:
  No!
Desligou o monitor, assustada, e se ps de p num pulo. 
Shane Miller correu para perto dela. 
  Ashley! O que foi?
Ela estava trmula. 
  Na... na minha tela... 
Shane ligou o computador. Apareceu a imagem de um gatinho, correndo pela grama atrs de um novelo de l. 
Shane olhou para Ashley, confuso. 
  O que...?
  Mas... sumiu   falou ela, com um sussurro de voz. 
  O que foi que sumiu?
Ela balanou a cabea. 
  Nada. Eu tenho andado muito estressada ultimamente, Shane. Desculpe! 
  Por que voc no vai fazer uma consulta com o Dr. Speakman?
Ashley j havia se consultado com o Dr. Speakman antes. Era o psiclogo da empresa, contratado para acompanhar e orientar os funcionrios abalados pelo estresse 
da informtica. No era um mdico, mas era inteligente e compreensivo, e conversar com algum sempre adiantava alguma coisa. 
  Vou, sim   disse Ashley

O Dr. Ben Speakman era um cinquento, um patriarca da fonte da juventude. Seu consultrio era um osis tranquilo, situado na extremidade mais longnqua do prdio, 
um local confortvel e acolhedor
  Eu tive um sonho terrvel ontem  noite   disse Ashley E fechou os olhos, revivendo as sensaes.   Eu estava correndo. Estava num jardim enorme, cheio de flores... 
Elas tinham rostos estranhos, feios... Gritavam comigo... Eu no conseguia ouvir o que estavam dizendo. S continuava correndo em direco a alguma coisa... No 
sei o qu...   Ela parou de falar e abriu os olhos. 
  Ser que voc no estava correndo de alguma coisa? No havia nada que a estivesse perseguindo?
  No sei. Eu... eu acho que estou sendo seguida, Dr. Speakman. Parece maluquice, mas... eu acho que algum quer me matar. Ele a estudou durante alguns instantes. 

  E quem poderia estar querendo mat la?
  No... no fao a menor idia. 
  Voc j viu algum seguindo voc?
  No. 
  Voc mora sozinha, no ?
  Moro. 
  Est saindo com algum? Algum envolvimento romntico?
  No. Agora, no. 
  Ento, j faz algum tempo desde que voc... quero dizer, s vezes, quando a mulher no tem ningum em sua vida... bem,  possvel que v se formando um acmulo 
de tenso... 
O que ele est tentando me dizer  que eu preciso de uma boa... 
Ela no conseguiu se persuadir a dizer a palavra. Chegou a ouvir os gritos do pai: "Nunca mais repita essa palavra. As pessoas vo pensar que voc  uma vagabundinha. 
Pessoas de bem no dizem trepar. Onde  que voc aprende esse tipo de linguagem?"
 
  Acho que voc anda trabalhando demais, Ashley. E acho que no tem com que se preocupar. Talvez seja s a tenso. Leve as coisas com mais tranquilidade durante 
algum tempo. Descanse bastante. 
   Vou tentar
Shane Miller estava esperando por ela. 
  O que o Dr. Speakman disse?
Ashley conseguiu dar um sorriso. 
  Ele disse que eu estou bem. S que ando trabalhando demais!
  Se  assim, vamos tomar uma providncia quanto a isso   falou Shane.   Para comear, por que voc no d o dia por encerrado?   O seu tom de voz demonstrou preocupao. 

  Obrigada!   Ela olhou para ele e sorriu. Era um homem atencioso. um bom amigo. 
No pode ser ele, pensou Ashley. Ele no.

Durante a semana seguinte, Ashley no conseguiu pensar em nada alm da reunio. Ser que a minha ida  um erro? E se Jim Cleary aparecer por l? Ser que ele faz 
idia do quanto me magoou? Ser que liga para isso? Ou no vai sequer se lembrar de mim? Na noite anterior  data marcada para a viagem, Ashley no conseguiu dormir. 
Ficou tentada a cancelar o voo. Mas que besteira!, pensou. O passado  o passado. 
Quando pegou a passagem no aeroporto, Ashley a examinou e disse:
  Acho que houve um erro. A minha passagem  para a classe turstica. Este bilhete  para a primeira classe. 
  , sim. A senhora mudou. 
Ela olhou para o funcionrio. 
  Eu o qu?
  A senhora telefonou e mandou mudar para a primeira classe.   Ele mostrou uma folha de papel para Ashley   Esse no  o nmero do seu carto de crdito?
Ela olhou para o nmero e disse, bem devagar:
  , sim... 
No tinha dado aquele telefonema. 

Ashley chegou a Bedford cedo e se hospedou no Bedford Springs Resort. As festividades do encontro s teriam incio s seis horas da tarde. Ela resolveu, ento, 
explorar a cidade. Parou um txi em frente ao hotel. 
  Para onde, madame?
  Eu s quero dar um passeio. 
A cidade natal de uma pessoa costuma parecer ainda menor quando esta volta para visit la muitos anos depois, mas, para Ashley, Bedford pareceu maior do que em 
suas lembranas. O txi percorreu ruas conhecidas, passou pela sede da Bedford Gazette, pela estao de TV WKYE e por uma dzia de restaurantes e galerias de arte 
que lhe eram familiares. O Baker's Loaf de Bedford ainda estava l, assim como o Clara's Place, o museu do forte de Bedford e a Old Bedford Village. Eles passaram 
em frente ao Memorial Hospital, um simptico edifcio de trs andares, com fachada em tijolo aparente e um prtico na entrada. Seu pai se tornou famoso ali. Ela 
voltou a se lembrar das terrveis discusses entabuladas aos berros entre a me e o pai. Sempre a respeito da mesma coisa. Mas que coisa? Ela no conseguia se lembrar

 
s cinco da tarde, Ashley voltou para o hotel e foi para o seu quarto. Mudou de roupa trs vezes antes de decidir o que usar. Optou por um vestido simples e liso, 
preto. Ao entrar no ginsio da Escola de Segundo Grau da Regio Administrativa de Bedford, todo decorado para as comemoraes, ela se viu cercada por 120 estranhos 
de aspecto remotamente familiar. Alguns de seus antigos colegas de turma estavam absolutamente irreconhecveis; outros, pouco haviam mudado. Ashley estava procurando 
uma nica pessoa: Jim Cleary. Ser que ele mudou muito? Estaria acompanhado da esposa? Muita gente comeou a abord la. 
  Ashley, eu sou Trent Waterson. Voc est ptima! 
  Obrigada! Voc tambm, Trent. 
  Eu gostaria de lhe apresentar minha mulher... 
  Ashley!  realmente voc, no ?
  Sou eu, sim. Ahn... 
  Art. Art Davies. Voc se lembra de mim?   Ele estava mal vestido e parecia pouco  vontade. 
  Claro. Como vo as coisas, Art?
  Indo. Voc sabe que eu queria ser engenheiro, mas no deu. 
  Que pena! 
  Mas, enfim, virei mecnico. 
  Ashley! Eu sou Lenny Holland. Pelo amor de Deus, como voc est linda! 
  Obrigada, Lenny!   Ele engordara e estava usando um enorme anel de diamante no dedo mnimo. 
  Estou trabalhando com imveis; estou indo muito bem! Voc se casou?
Ashley hesitou. 
  No. 
  Voc se lembra de Nicky Brandt? Ns nos casamos. Temos gmeos. 
  Parabns!
Era impressionante como as pessoas podiam mudar tanto em dez anos! Estavam mais gordas, mais magras... Bem de vida, arrasadas. Casadas, divorciadas... Com filhos, 
sem filhos... 
Conforme a noite foi passando, o jantar foi servido, a msica comeou, e muita gente danou. Ashley conversou com muitos dos antigos colegas de classe e se inteirou 
de suas vidas, mas sua mente estava em Jim Cleary. Ainda no havia sinal algum dele. Ele no vem, concluiu. Ele sabe que eu posso estar aqui e ficou com medo de 
me encarar. 
Uma mulher atraente veio se aproximando. 
  Ashley! Eu estava torcendo para encontrar voc. 
Era Florence Schiffer. Ashley ficou realmente feliz. Florence fora uma de suas amigas mais intimas. As duas encontraram uma mesa ao canto, onde poderiam conversar. 

  Voc est ptima, Florence   disse Ashley. 
  Voc tambm. Sinto muito por ter chegado to tarde. Meu beb no estava passando muito bem. Desde a ltima vez em que nos vimos, eu me casei e me divorciei. Agora 
estou namorando um cara espectacular. E voc? Desapareceu depois da festa de formatura! Eu tentei encontr la, mas voc tinha ido embora da cidade. 
  Eu fui para Londres   disse Ashley.   Meu pai me matriculou numa faculdade de l. Ns fomos embora na manh seguinte  formatura. 
 
  Mas eu tentei encontr la de todas as maneiras. Os detectives acharam que eu talvez soubesse onde voc estava. Estavam  sua procura porque voc e Jim Cleary 
eram namorados. 
Ashley falou devagar:
  Os detectives?
  Claro! Que estavam investigando o assassinato. 
Ashley sentiu o sangue fugir lhe do rosto. 
  Que... assassinato?
Florence estava olhando bem para ela. 
  Meu Deus! Voc no sabe?
  Sabe do qu?   perguntou Ashley, tensa.   Do que voc est falando?
  No dia seguinte  festa de formatura, os pais de Jim chegaram em casa e encontraram o corpo. Ele foi morto a facadas... e castrado. 
 O salo comeou a girar. Ashley se agarrou  borda da mesa. 
Florence segurou lhe o brao. 
  Mas... Ashley, desculpe! Eu achava que voc teria lido em algum lugar... Claro que no... Voc tinha ido para Londres. 
Ashley fechou os olhos, bem apertados. Ela se viu fugindo de casa naquela noite, rumando para a casa de Jim Cleary. Mas tinha voltado, preferindo esperar por ele 
de manh. Se ao menos eu tivesse ido at l, pensou, agoniada, ele ainda estaria vivo. E durante todos esses anos, eu s senti dio por ele! Ai, meu Deus! Quem 
o teria matado? Quem...?
Ela chegou a ouvir a voz do pai: Mantenha as mos longe da minha filha, entendeu bem?... Se eu vir voc por aqui outra vez, vou quebrar todos os ossos do seu corpo. 

Ela se levantou. 
  Voc vai me desculpar, Florence. Eu... eu no estou me sentindo muito bem. 
E Ashley fugiu. 
Os detectives. Devem ter entrado em contato com seu pai. Por que ele no me falou?
Ela pegou o primeiro avio de volta para a Califrnia. S conseguiu dormir de manh cedo. Teve um pesadelo. um vulto na escurido esfaqueava Jim, e gritava com 
ele. O vulto saiu do escuro. 
Era o pai dela.
 
        Captulo Cinco

Os meses que se seguiram foram de absoluta tristeza para Ashley. A imagem do corpo de Jim Cleary mutilado e ensanguentado repassava a toda hora por sua mente. Ela 
pensou em se consultar com o Dr. Speakman outra vez, mas sabia que no ousaria discutir esse assunto com mais ningum. Sentia culpa s de pensar que o pai poderia 
ter feito uma coisa to terrvel assim. Afastava esse pensamento e tentava se concentrar no trabalho. Era impossvel! Ela olhou com desnimo para um logotipo que 
acabara de esboar. 
Shane Miller a estava observando, apreensivo. 
  Voc est bem, Ashley?
Ela forou um sorriso. 
  Estou. 
  Eu realmente sinto muito pelo seu amigo.   Ela lhe contara sobre Jim. 
  Mas eu... eu vou superar isso. 
  Que tal jantarmos juntos hoje  noite?
  Obrigada, Shane! Eu... eu ainda no estou preparada. Na semana que vem, quem sabe?
  Tudo bem. Se houver alguma coisa que eu possa fazer... 
  Eu fico agradecida. No h o que se possa fazer. 
Toni falou para Alette:
  A dona Babacona est tendo um problema. Por mim, quero que ela se dane! 
  Eu estou com pena dela. Ela est mal. 
  Que se dane! Todo mundo tem problemas, no  mesmo, minha querida?

Quando Ashley estava saindo do trabalho numa sexta feira  tarde, para um fim de semana prolongado, Dennis Tibble a deteve. 
  Ei, doura, estou precisando de um favor. 
  Voc vai me desculpar, Dennis, mas eu... 
  Ei, espere a. No  nada disso!   Ele pegou o brao de Ashley   Preciso de um conselho do ponto de vista de uma mulher.
  Dennis, eu no tenho a mnima vontade de... 
  Eu me apaixonei por algum e quero me casar, mas estou com problemas. Voc vai me ajudar?
Ashley hesitou. Ela no gostava de Dennis Tibble, mas no viu mal algum em tentar ajud lo. 
  Ser que d para esperar at amanh?
  Eu preciso conversar com voc agora.  urgente mesmo. 
Ashley respirou fundo. 
  Tudo bem. 
  Ser que podemos ir para o seu apartamento?
Ela balanou a cabea. 
  No.   Jamais conseguiria faz lo ir embora. 
  Voc toparia ir para o meu?
Ashley hesitou. 
  Tudo bem.   Assim, posso sair quando bem entender. Se eu conseguir ajud lo a conquistar a mulher por quem est apaixonado, talvez ele me deixe em paz. 

Toni falou para Alette:
 
  Puxa! Dona Maria Certinha vai para o apartamento do verme. Voc acredita que possa ser idiota a esse ponto? Onde  que andam os miolos de araque dessa mulher?
  Ela s est tentando ajudar. No h nada errado em...
  Ah, no me venha com essa, Alette! Quando  que voc vai crescer, mulher? O cara s est querendo lev la para o abatedouro. 
  Nona. Non si fancos. 
  Nem eu mesma teria sido capaz de dizer isso de uma forma melhor!

O apartamento de Dennis Tibble era decorado em neopesadelo. Havia ps teres de antigos filmes de terror em todas as paredes, ao lado de folhinhas de mulheres nuas 
e animais selvagens comendo. Minsculas esculturas erticas em madeira abundavam pelas mesas. 
Que apartamento de maluco, pensou Ashley. Mal podia esperar para ir embora dali. 
  Sabe, achei legal voc ter vindo. Fiquei sensibilizado. Se... 
  Eu no posso demorar, Dennis   advertiu Ashley logo de incio.   Fale logo sobre essa mulher por quem voc se apaixonou. 
  Ela  realmente demais!   Ele ofereceu um cigarro.   Quer um?
  Eu no fumo.   Ela o observou acender o cigarro. 
  Quer beber alguma coisa?
  Eu no bebo. 
Ele abriu um sorriso. 
  Voc no fuma, no bebe. Sobra uma actividade interessante, no  mesmo?
Ela falou com firmeza:
  Dennis, se voc no... 
  Eu s estava brincando.   Ele foi at o bar e se serviu de vinho.   Tome um pouco de vinho. Mal no vai fazer   Ele entregou o copo a ela. 
Ela tomou um gole do vinho. 
  Agora me fale da moa. 
Dennis Tibble se sentou no sof, ao lado de Ashley
  Eu nunca conheci ningum igual. Ela  sexy como voc e... 
  Pare com isso, seno eu vou embora. 
  Ei, isso foi um elogio. Enfim, ela est maluca por mim, mas a me e o pai dela tm uma vida social muito activa e me detestam. 
Ashley no fez comentrio algum. 
  Ento, o caso  o seguinte: se eu foro a barra, ela se casa comigo, mas se isola da famlia. Ela  muito chegada aos pais e, se ns nos casarmos, eles com certeza 
vo deserd la. Ento, ela vai acabar um dia me culpando por isso. Entendeu o problema?
Ashley tomou mais um gole do vinho. 
  Entendi. Eu... 
Depois disso, o tempo pareceu se esvair no meio de uma neblina. 

 
Ela acordou devagar, sabendo que havia alguma coisa muito errada. Teve a sensao de ter sido drogada. O esforo para simplesmente abrir os olhos foi imenso. Ashley 
olhou ao redor do quarto e comeou a entrar em pnico. Estava deitada numa cama, nua, num quarto de hotel barato. Conseguiu se sentar e comeou a sentir a cabea 
latejar. No fazia idia de onde estava nem de como chegara ali. Havia um cardpio sobre a mesinha de cabeceira, e ela se esticou para peg lo. Chicago Loop Hotel. 
Ela tornou a ler, atnita. O que eu estou fazendo em Chicago? Quando tempo faz que estou aqui? A visita ao apartamento de Dennis Tibble fora na sexta feira. Que 
dia  hoje?
Mais alarmada a cada instante, ela pegou o telefone. 
  Pois no?
Foi difcil falar. 
  Que... que dia  hoje
  Dia dezassete de... 
  No. Eu quero saber o dia da semana. 
  Ah! segunda feira. Voc gostaria... 
Ashley reps o aparelho no gancho, estarrecida. Segunda feira. Perdera dois dias e duas noites. Sentou se na beira da cama, tentando se lembrar. Ela havia ido para 
o apartamento de Dennis Tibble... Tomara um copo de vinho... Depois disso, um hiato. Ele havia colocado algo no seu copo de vinho que a fizera perder a memria 
temporariamente. Ela j lera a respeito de incidentes nos quais fora usada essa droga, chamada "droga de estuprar namorada". Fora isso que ele lhe dera. O pretexto 
de precisar de um conselho tinha sido uma artimanha. E eu ca como uma boba! Ela no se lembrava de ter ido para o aeroporto, de ter tomado o avio para Chicago, 
nem de ter se hospedado neste hotelzinho infame com Tibble. E o que era pior   no se lembrava do que ocorrera neste quarto. 
Preciso sair daqui, pensou Ashley, desesperada. Sentiu se maculada, como se cada centmetro de seu corpo tivesse sido violado. O que ele lhe fizera? Ela tentou 
no pensar nisso. Saiu da cama, entrou no minsculo banheiro e foi tomar um banho. Deixou que a gua quente batesse contra o seu corpo, tentando lavar as coisas 
horrveis, sujas, que lhe pudessem ter sucedido. se ele a tivesse engravidado? A simples idia de ter um filho dele a deixou enojada. Ashley saiu do chuveiro, secou 
se e foi at o armrio. Suas roupas haviam sumido. Ela encontrou ali somente uma minissaia de couro preto, um top barato e um par de sapatos de saltos bem altos, 
pontiagudos. Sentiu repugnncia de se ver forada a usar tais roupas, mas no teve escolha. Vestiu se rapidamente e olhou se no espelho. Parecia uma prostituta. 
Ashley examinou a carteira. Somente quarenta dlares. O talo de cheques e o carto de crdito ainda estavam l. Graas a Deus! Ela saiu pelo corredor. No havia 
ningum. Pegou o elevador, desceu at o saguo mal conservado do hotel e foi at o balco da recepo, onde entregou ao idoso funcionrio o seu carto de crdito. 

  J vai?   disse ele, em tom de zombaria   Mas tenho a impresso de que voc se divertiu bastante, acertei?
Ashley ficou olhando para o homem, imaginando a que ele estaria se referindo e teve medo de descobrir. Sentiu se tentada a perguntar lhe quando Dennis Tibble havia 
deixado o hotel, mas achou melhor ficar calada. 
O funcionrio estava passando o seu carto de crdito pelo aparelho de leitura. Ele fez uma careta e uma segunda tentativa. 
Finalmente, falou:
  Moa, me desculpe, mas o carto no est sendo aceite.
 
Estourou o limite. 
Ashley ficou boquiaberta. 
  Isso  impossvel. Deve ter havido um engano!
O velhinho deu de ombros. 
  No tem outro carto?
  No... no tenho. Vocs aceitam cheque?
Ele estava olhando para as roupas dela com um ar desabonador.
  Acho que sim, acompanhado da identidade. 
  Preciso dar um telefonema... 
  A cabine fica logo ali. 
  Memorial Hospital de So Francisco... 
  Dr. Steven Paterson. 
  Um momento, por favor
  Consultrio do Dr. Paterson. 
  Sarah? Ashley. Preciso falar com o meu pai. 
  Sinto muito, Ashley. Ele est na sala de operaes e... 
Ashley apertou o aparelho na mo e disse:
  Voc sabe quanto tempo ainda vai demorar?
   difcil dizer. Sei que h mais uma cirurgia marcada para depois... 
Ashley teve de combater a histeria que comeava a surgir.
  Eu preciso falar com ele. urgente. Voc pode lhe dar um recado, por favor? Pea para ele me ligar, assim que puder.   Ela olhou para o nmero do telefone dentro 
da cabine e passou o para a recepcionista do consultrio do pai.   Eu vou esperar aqui at que ele me ligue. 
  No se preocupe que eu vou dar o seu recado. 

Aguardou sentada no saguo durante quase uma hora, torcendo para que o telefone tocasse. Todos que por ali passavam olhavam para ela com estranheza, e Ashley se 
sentia despida dentro daquelas roupas vulgares que estava usando. Quando o telefone finalmente tocou, foi um susto. 
Ela entrou correndo na cabine. 
  Sim...
  Ashley?   era a voz de seu pai. 
  Papai, eu... 
  O que houve?
  Estou em Chicago e... 
  O que voc est fazendo em Chicago?
  No d para falar agora. Preciso de uma passagem de avio para San Jos. No tenho nenhum dinheiro aqui comigo. Voc pode me ajudar?
  Claro. Espere.   Trs minutos depois, o pai voltou ao telefone.   H um voo da American Airlines saindo do O'Hare s dez e quarenta; o nmero do voo  407. Vou 
mandar deixar uma passagem para voc no balco de embarque. Eu vou peg la no aeroporto de San Jos e... 
  No!   Ela no podia deixar que ele a visse naqueles trajes.   Eu... eu vou para o meu apartamento mudar de roupa. 
  Tudo bem. Eu vou peg la para almoarmos juntos. E a voc me conta o que aconteceu. 
  Obrigada, papai! Obrigada! 

 No voo de volta para casa, Ashley pensou na coisa imperdovel que Dennis Tibble tinha lhe feito. Vou ter de ir  polcia, resolveu. No posso deix lo assim, impune. 
A quantas outras mulheres ele j no fez isso?
 

Quando regressou ao seu apartamento, Ashley teve a sensao de que havia voltado para um santurio. Mal pde esperar para se livrar das roupas de mau gosto que 
estava vestindo. Tirou as mais que depressa. Achou que precisava de outro banho antes de ir se encontrar com o pai. Caminhou em direco ao seu armrio e parou. 
Bem  sua frente, sobre a cmoda, havia uma ponta de cigarro. 

Eles estavam sentados a uma mesa de canto num restaurante em The Oaks. O pai de Ashley a estudava, apreensivo. 
  O que voc foi fazer em Chicago?
  Eu... eu no sei. 
Ele olhou para ela, intrigado. 
  Voc no sabe?
Ashley hesitou, tentando decidir se deveria contar lhe o que acontecera. Talvez ele pudesse lhe dar algum conselho. 
 Ela falou, comodamente:
  Dennis Tibble me pediu para ir ao seu apartamento a fim de ajud lo com um problema... 
  Dennis Tibble? Aquele mau carcter?   H muito, Ashley apresentara o pai aos colegas de trabalho.   Como voc poderia ter alguma coisa a ver com ele?
Ashley imediatamente se deu conta de que cometera um erro. 
Seu pai sempre reagira de forma exacerbada a qualquer problema que ela tivesse. Especialmente se envolvesse algum homem. 
"Se eu vir voc por aqui outra vez, vou quebrar todos os ossos do seu corpo."
  No foi nada importante   disse Ashley. 
  Eu quero ouvir a histria. 
Ashley ficou parada um instante, tomada por um pressentimento. 
  Bem, eu tomei um drinque no apartamento dele e... 
 medida que falava, ela notava que o rosto do pai ia assumindo um ar sombrio. A expresso de seus olhos a amedrontava. 
Ela tentou encurtar a histria. 
  No   insistiu o pai.   Quero ouvir tudo... 

Ashley deitou se em sua cama  noite, exausta demais para conciliar o sono, seus pensamentos a girar num turbilho catico. Se o que Dennis me fez vier a pblico, 
ser uma humilhao. Todos no trabalho sabero o que aconteceu. Mas eu no posso deix lo fazer isso com todo mundo. Preciso contar  polcia. As pessoas haviam 
tentado adverti la de que Dennis tinha uma obsesso por ela, mas Ashley ignorara os avisos. Agora, repassando tudo em sua mente, ela podia perceber todos os sinais: 
Dennis sempre detestara ver qualquer outra pessoa conversando com ela, vivia insistindo para que sassem juntos, sempre escutava sorrateiramente suas conversas... 

Pelo menos agora sei quem  o manaco que estava me perseguindo, pensou. 

s 8 e 30 da manh, quando Ashley estava se aprontando para ir para o trabalho, o telefone tocou. Ela atendeu:
  Ashley,  Shane. Voc j ouviu a notcia?
  Que notcia?
  Est na televiso. Acabaram de encontrar o corpo de Dennis Tibble. 
 
Por um instante, a terra pareceu se mexer.
  Meu Deus! O que aconteceu?
  Segundo a polcia, algum o matou a facadas e depois o castrou.
 
        Captulo Seis

O delegado Sam Blake havia conseguido seu posto na chefatura de polcia de Cupertino da maneira mais difcil: casara se com a irm do comissrio, Serena Dowling, 
uma matrona com a lngua afiada o suficiente para derrubar todas as rvores do estado de Oregon. Sam Blake foi o nico homem que Serena conheceu capaz de lidar 
bem com ela. Era um sujeito baixinho, dcil, de bons modos, com a pacincia de um santo. Por mais afrontoso que fosse o comportamento de Serena, ele sempre aguardava 
at que ela se acalmasse para s ento conversar tranquilamente. Sam Blake viera para a chefatura porque o comissrio Matt Dowling era o seu melhor amigo. Eles 
haviam crescido juntos e frequentaram a mesma escola. Blake apreciava o trabalho policial e era extremamente bom nisso. Era arguto, de uma inteligncia apurada 
e uma tenacidade irredutvel. Tal combinao fazia dele o melhor detective do departamento. 
Bem cedo naquela manh, Sam Blake e o comissrio Dowling estavam tomando caf juntos. 
O comissrio Dowling disse:
  Eu soube que a minha irm lhe propiciou maus momentos ontem  noite. Ns recebemos meia dzia de telefonemas dos vizinhos reclamando do barulho. Serena  a campe 
do grito, no  mesmo?
Sam encolheu os ombros. 
  Eu acabei conseguindo fazer com que ela se acalmasse, Matt. 
  Graas a Deus ela no est mais morando comigo, Sam! Eu no sei o que d nela. Esses ataques de nervos... 
A conversa foi interrompida. 
  Comissrio... acabamos de receber uma ligao para a Central de Emergncias. Houve um assassinato na Sunnyvale Avenue. 
O comissrio Dowling olhou para Sam Blake. 
Blake assentiu. 
  Deixa comigo. 

Quinze minutos depois, o delegado Blake estava entrando no apartamento de Dennis Tibble. um polcia da ronda conversava com o sindico do prdio na sala de estar.
  Onde est o corpo?   perguntou Blake. 
O polcia fez um gesto com a cabea na direco do quarto. 
  L dentro, senhor   Ele estava plido. 
Blake entrou no quarto e parou, chocado. O corpo nu de um homem estava estendido em cima da cama, e a primeira impresso de Blake foi a de que o quarto estava encharcado 
de sangue. Ao dar alguns passos mais para perto da cama, percebeu de onde vinha o sangue. Os cacos pontiagudos de uma garrafa quebrada haviam perfurado as costas 
da vtima repetidas vezes, e alguns permaneciam no corpo. Os testculos da vitima haviam sido tirados. 
Olhando para a cena, Blake sentiu uma pontada na virilha. 
  Como pode um ser humano fazer uma coisa dessas?   disse ele em voz alta. No havia sinal de arma, mas seria feita uma busca completa.
O delegado Blake voltou  sala para conversar com o sindico. 
  Voc conhecia o falecido?
  Conhecia, sim. Ele morava aqui neste apartamento. 
  Qual era o nome dele?
 
  Tibble. Dennis Tibble. 
O delegado Blake tomou nota. 
  H quanto tempo ele morava aqui?
  Quase trs anos. 
  O que voc pode me contar sobre ele?
  Nada de mais. Tibble era bastante recatado, sempre pagava o aluguel em dia. De vez em quando trazia alguma mulher aqui. Acho que eram, em geral, profissionais. 

  Voc sabe onde ele trabalhava?
  Ah, sim. Na Corporao Global de Computao Grfica. 
Ele era um desses gnios da informtica. 
O delegado Blake fez mais um apontamento. 
  Quem encontrou o corpo?
  uma das empregadas. Maria. Ontem foi feriado, de forma que ela s veio hoje de manh. 
  Eu quero falar com ela. 
  Pois no. Vou chamar a moa. 
Era uma brasileira negra de aproximadamente quarenta anos, estava nervosa e assustada. 
  Voc encontrou o corpo, Maria?
  No fui eu que fiz isso. Eu lhe juro.   Ela estava  beira de um ataque histrico.   Vou precisar de um advogado?
  No. No vai precisar de um advogado. Basta me dizer o que aconteceu. 
  No aconteceu nada. Quero dizer... eu entrei no apartamento hoje de manh pra fazer a faxina, como sempre fao. Eu... eu achei que ele j tinha sado. Ele sempre 
sai s sete da manh. A eu arrumei a sala e... Porra!
  Maria, voc se lembra de como estava a sala antes da sua arrumao?
  Como assim?
  Voc tirou alguma coisa do lugar? Tirou alguma coisa daqui?
  U, tirei! Tinha uma garrafa de vinho quebrada no cho. Estava tudo grudento. Eu... 
  O que voc fez com a garrafa?   perguntou ele, agitado. 
  Coloquei no compactador de lixo, pra triturar. 
  E fez mais o qu?
  Ora, eu limpei o cinzeiro e... 
  Havia alguma guimba de cigarro dentro?
Ela parou, tentando se lembrar.
  Uma. Eu joguei na lata de lixo da cozinha. 
  Vamos dar uma olhada.   Ele a seguiu at a cozinha, e ela apontou para uma lata de lixo. Dentro, havia uma guimba de cigarro com batom na ponta. O delegado Blake 
recolheu a, cuidadosamente, com um envelope de provas. 
Ele a levou de volta para a sala de estar. 
  Maria, voc sabe se sumiu alguma coisa do apartamento? Por acaso, tem a impresso de que qualquer coisa de valor possa ter desaparecido?
Ela olhou ao redor. 
  Acho que aquelas pequenas... O senhor Tibble gostava de coleccionar estatuetas. Gastava um dinheiro com isso! Parece que esto todas aqui. 
  Ento o motivo no foi roubo. Drogas? Vingana? Um caso amoroso que deu errado?
- O que voc fez depois de arrumar a sala, Maria?
 
  Aspirei o p daqui, como sempre fao. E depois...   Sua voz falhou.   Eu entrei no quarto... e o vi.   Ela olhou para o delegado Blake.   Juro que no fui eu 
que fiz isso. 
O legista e seus assistentes chegaram numa viatura do instituto, trazendo o material para ensacar o corpo. 

Trs horas depois, o delegado Sam Blake estava de volta  chefatura de polcia. 
  O que voc achou, Sam?
  Pouca coisa!   O delegado sentou se em frente ao comissrio Dowling.   Dennis Tibble trabalhava na Global. Pelo que parece, era um desses gnios da informtica. 

  Mas no foi gnio o suficiente para evitar o prprio assassinato. 
  Ele no foi s assassinado, Matt. Foi trucidado. Voc deveria ter visto o que fizeram ao corpo dele! S pode ter sido algum manaco!
  Nenhuma pista?
  No temos certeza do tipo de arma que foi usada para o crime, estamos aguardando os resultados do laboratrio, mas talvez tenha sido uma garrafa de vinho quebrada. 
A empregada a jogou no compactador de lixo. Parece que h uma impresso digital em um dos cacos de vidro que esto nas costas dele. Falei com os vizinhos. Nada 
que me ajudasse. Nenhum deles viu ningum entrando ou saindo do apartamento da vtima. Nenhum barulho incomum. Aparentemente, Tibble era um cara que ficava muito 
na dele. No era do tipo de fazer amizade com vizinhos. uma coisa: Tibble fez sexo antes de morrer. Temos resqucios de secreo vaginal, plos pubianos, alguns 
outros vestgios e uma ponta de cigarro com batom. Vamos fazer o teste de DNA. 
  Os jornais vo se fazer, Sam. J estou vendo as manchetes; MANACO ATACA NO VALE DO SILNCIO.   O comissrio Dowling soltou um suspiro.   Vamos resolver este 
caso o mais rpido que pudermos. 
  J estou a caminho da Global. 
 
Ashley levara uma hora inteira para se decidir se deveria ir para o escritrio. Sua aparncia estava horrvel. Basta olhar para mim e todos vo saber que h algo 
errado. Mas se eu no for, vo querer saber por qu. A polcia provavelmente estar l, fazendo perguntas. Se me perguntarem, terei de dizer a verdade. Vo me culpar 
pela morte de Dennis Tibble. Mas se acreditarem em mim, e eu contar que o meu pai sabia o que ele tinha feito comigo, vo botar a culpa nele. 
Ela pensou no assassinato de Jim Cleary. Chegou a ouvir a voz de Florence : os pais de Jim chegaram em casa e encontraram o corpo. Ele foi morto a facadas... e 
castrado. Ashley fechou os olhos, bem apertados. Meu Deus, o que est acontecendo? O que est acontecendo?

O delegado Sam Blake entrou no andar, onde grupos de funcionrios com ar taciturno conversavam baixinho. Blake podia imaginar qual era o assunto das conversas. 
Ashley o observava apreensivamente, enquanto ele se encaminhava para o escritrio de Shane Miller. 
Shane se levantou para cumpriment lo. 
  Delegado Blake? Certo.   Os dois trocaram um aperto de mos. 
  Queira sentar se, delegado. 
Sam Blake sentou se. 
 
  Fui informado de que Dennis Tibble era um dos funcionrios da casa. 
  Correcto. um dos melhores. Que tragdia horrvel! 
  Ele trabalhava aqui fazia uns trs anos?
  Isso. Era o nosso gnio. No havia o que ele no fizesse com um computador. 
  O que voc sabe sobre a vida social dele?
Shane Miller balanou a cabea. 
  No h muito o que contar, acho eu. Tibble era um tipo solitrio. 
  Voc faz idia se ele estava metido com drogas?
  Dennis? No, de jeito algum. Ele era um maluco saudvel. 
  Jogava? Poderia estar devendo muito dinheiro para algum?
  No. Ele ganhava um salrio muito bom, mas eu acho que era bastante controlado com dinheiro. 
  E com mulheres? Tinha alguma namorada?
  As mulheres no sentiam muita atraco por Tibble.   Ele pensou um instante.   Mas, ultimamente, ele andava por a dizendo que tinha algum com quem estava pensando 
em se casar. 
  Por acaso ele mencionou o nome?
Miller balanou a cabea. 
  No. Pelo menos, no para mim. 
  Voc se importaria se eu conversasse com alguns dos seus funcionrios?
  De forma alguma. Fique  vontade. Eu no posso deixar de dizer que esto todos muito abalados. 
Ficariam ainda mais abalados se tivessem visto o corpo dele, pensou Blake. 
Os dois saram do escritrio e se dirigiram aos demais. 
Shane Miller falou em voz bem alta:
  Pessoal, ateno, por favor! Este  o delegado Blake. Ele gostaria de fazer algumas perguntas. 
Os funcionrios haviam interrompido o que estavam fazendo para prestar ateno. 
O delegado Blake falou:
  Estou certo de que todos vocs j sabem do que aconteceu com Dennis Tibble. Precisamos da ajuda de todos para descobrir quem o matou. Algum de vocs sabe de algum 
inimigo que ele pudesse ter? Algum que o detestasse o suficiente para querer mat lo?   Silncio. Blake prosseguiu:   Havia uma mulher com quem ele estava querendo 
se casar. Ele discutiu isso com algum de vocs?
Ashley estava sentindo dificuldade para respirar. Era hora de falar. Era hora de contar ao delegado o que Tibble havia feito com ela. Mas Ashley se lembrou do olhar 
do pai quando lhe falara sobre isso. Decerto todos iriam achar que a culpa era dele. 
Seu pai no seria capaz de matar ningum. 
Era um mdico. 
Era um cirurgio. 
Dennis Tibble fora castrado. 
O delegado Blake estava dizendo:
 ... e nenhum de vocs o viu depois que ele saiu daqui na sexta feira?
Toni Prescott pensou: Vamos. Conte a ele, Maria Certinha. 
Conte que voc foi ao apartamento dele. Por que no confessa?
O delegado Blake ficou parado um momento, tentando ocultar sua decepo. 
 
  Bem, caso algum de vocs se lembre de qualquer coisa que possa ser til, eu ficarei agradecido se me telefonar. O Sr. Miller est com o nmero do meu telefone. 
Obrigado! 
Todos o observaram, enquanto ele se dirigia para a sada, acompanhado por Shane. 
Ashley sentiu se enfraquecer de alvio. 
 Blake se virou para Shane. 
  Havia algum aqui a quem ele fosse particularmente mais chegado?
  No, eu suponho que no   falou Shane.   Acho que Dennis no tinha proximidade com ningum. Ele sentia muita atraco por uma das nossas operadoras de computador, 
mas nunca chegou a ter nada com ela. 
O delegado Blake parou. 
  Ela est aqui agora?
  Est, mas... 
  Eu gostaria de falar com ela. 
  Tudo bem. Podem usar o meu escritrio.   Eles voltaram, e Ashley os viu chegando. Estavam se encaminhando directo para o seu cubculo. Ela sentiu o rosto ruborizar 
se. 
  Ashley, o delegado Blake gostaria de conversar com voc. 
Ento ele sabia! Ele ia lhe perguntar sobre a sua ida ao apartamento de Tibble. Preciso tomar cuidado, pensou Ashley
O delegado estava olhando para ela. 
  Importa se, Senhorita Paterson?
Ashley conseguiu dizer:
  No, de forma alguma.   Ela o acompanhou at o escritrio de Shane Miller
  Sente se.   Os dois se sentaram.   Eu estou sabendo que Dennis Tibble tinha uma certa atraco pela senhorita.
  Eu... eu acho...  Cuidado!  ... que sim. 
  A senhorita saiu com ele?
Uma ida ao apartamento dele no seria a mesma coisa que sair com ele. 
  No. 
  Ele lhe falou sobre essa mulher com quem queria se casar?
Ela estava cada vez mais apreensiva. Ser que esta conversa estaria sendo gravada? Talvez ele j soubesse de sua ida ao apartamento de Tibble. Poderiam ter encontrado 
suas impresses digitais. Agora era a hora de contar ao delegado o que Tibble tinha feito. Mas se eu contar, pensou Ashley, em desespero, a conversa vai levar ao 
meu pai, e eles iro conectar isso ao assassinato de Jim Cleary. Ser que sabiam disso tambm? Mas a chefatura de polcia de Bedford no teria razo alguma para 
informar  chefatura de polcia de Cupertino. Ou teria?
O delegado Blake a estava observando,  espera de uma resposta. 
  Senhorita Paterson?
  O qu? Ah, desculpe! Eu fiquei to perturbada com isso... 
  Eu compreendo. O Sr. Tibble alguma vez mencionou essa mulher com quem queria se casar?
  Mencionou... mas nunca me disse o nome dela.   Isso, pelo menos, era verdade. 
  A senhorita j esteve no apartamento de Tibble?
Ashley respirou profundamente. Se dissesse que no, o interrogatrio provavelmente terminaria ali. Mas se eles tivessem encontrado suas impresses digitais... 
  Estive. 
  Esteve no apartamento dele?
 
  Estive, sim. 
Ele estava olhando mais atentamente para ela agora. 
  A senhorita disse que nunca tinha sado com ele.
A mente de Ashley estava activa agora. 
  Correcto. No sa para namorar. Fui levar alguns papis que ele tinha esquecido. 
  Quando foi isso?
Ela se sentiu enrascada. 
  Foi... faz mais ou menos uma semana. 
  E essa foi a nica vez em que esteve no apartamento dele?
  Isso mesmo. 
Assim, se eles tivessem encontrado suas impresses digitais, ela estaria a salvo. 
O delegado Blake ficou sentado, estudando a, e ela se sentiu culpada. Ashley quis contar lhe a verdade. Talvez algum ladro tivesse entrado no apartamento e o matado 
  o mesmo ladro que tinha matado Jim Cleary dez anos antes e a cinco mil quilmetros dali. Se  que voc acredita em coincidncias! Se  que voc acredita em Papai 
Noel! Se  que voc acredita em fadas! 
Maldito seja voc, papai. 
O delegado Blake falou:
  Foi um crime horrvel. No parece ter havido motivo algum. Mas eu lhe digo uma coisa, em todos esses anos que venho trabalhando no departamento, jamais vi um 
crime sem motivo. 
  No houve resposta alguma.   Voc sabe se Dennis Tibble estava envolvido com drogas?
  Tenho certeza de que no. 
  Ento, o que nos resta? No foram drogas. Ele no foi roubado. No devia dinheiro a ningum. Parece que sobra apenas o aspecto passional, no  mesmo? Algum 
que estivesse com cimes dele. Ou um pai que quisesse proteger a filha. 
  Eu estou to intrigada quanto o senhor, delegado. 
Ele a fitou com firmeza por um instante e seus olhos pareceram dizer: No estou acreditando em voc, mocinha. 
O delegado Blake se levantou, pegou um carto e o entregou a Ashley. 
  Caso a senhorita consiga se lembrar de alguma coisa, eu ficarei grato se me der um telefonema. 
  Eu darei, com certeza. 
  Bom dia! 
Ela esperou que ele sasse. Acabou. Papai est a salvo. 

Quando Ashley voltou para seu apartamento naquela noite, havia um recado na secretria electrnica. 
  Voc me deixou excitadssimo ontem  noite, gatinha. Fiquei alucinado. Mas voc vai me dar uma atenozinha hoje, conforme me prometeu. Na mesma hora, no mesmo 
lugar. 
Ashley ficou ali parada, escutando, incrdula. Eu estou ficando maluca, pensou. Isto no tem nada a ver com meu pai. Deve ter mais algum por trs desta histria 
toda. Mas quem? E por qu?

Cinco dias depois, Ashley recebeu um extracto do seu carto de crdito. Trs itens lhe chamaram a ateno. 
Uma conta da loja Mod Dress, de 450 dlares. 
Uma conta da boate Circus, de 300 dlares. 
Uma conta do restaurante Louie's, de 250 dlares. 
 
Ela jamais ouvira falar da loja, da boate nem do restaurante.
 
        Captulo Sete

Ashley Paterson acompanhou as investigaes do assassinato de Dennis Tibble pelos jornais e pela televiso todos os dias. A Polcia parecia ter chegado a um beco 
sem sada. Acabou, pensou Ashley. No h mais nada com que me preocupar. 
Naquela noite, o delegado Sam Blake apareceu em seu apartamento. Ashley olhou para ele, sua boca subitamente ressecada. 
  Espero no estar incomodando   disse o delegado.   Eu estava a caminho de casa e achei que seria bom passar por aqui. 
Ashley engoliu em seco. 
  No  incmodo algum. Pode entrar. 
O delegado Blake entrou no apartamento. 
  Voc tem uma bela casa. 
  Obrigada! 
  Aposto que Dennis Tibble no gostava deste tipo de moblia. 
O corao de Ashley comeou a palpitar
  No sei. Ele nunca esteve neste apartamento. 
  Ah, achei que pudesse ter estado, voc sabe. 
  No, eu no sei, delegado. Eu lhe disse que nunca namorei com ele. 
  Isso mesmo. Posso me sentar?
  Faa o favor
  Sabe,  que estou tendo um problemo com este caso, Senhorita Paterson. Ele no se encaixa em nenhum dos padres. Conforme eu disse, sempre h um motivo, Eu j 
falei com algumas das pessoas da Global e parece que ningum conhecia Tibble muito bem. Ele era um cara muito recatado. 
Ashley ficou escutando,  espera do baque. 
  A bem da verdade, pelo que me contaram, a senhorita era a nica por quem ele se interessava. 
Havia ele descoberto alguma coisa, ou estava tentando obter alguma informao dela. 
Ashley falou com cuidado:
  Ele estava interessado em mim, delegado, mas eu no sentia nada por ele. Deixei isso bem claro para ele. 
O delegado assentiu. 
  Sabe, eu acho que foi gentil da sua parte ir ao apartamento dele entregar lhe os tais papis. 
Ashley quase disse "Que papis?", mas de repente se lembrou. 
  No foi incmodo algum. Estava no meu caminho. 
  Certo. Algum devia odiar muito Tibble para fazer o que fez. 
Ashley ficou sentada, tensa, sem dizer nada. 
  Sabe o que eu odeio?   falou o delegado Blake.   Assassinatos que no so solucionados. Sempre me deixam frustrado. Porque quando um assassinato fica sem soluo, 
eu no acho que isso signifique que os criminosos foram to espertos assim. Mas sim que a polcia no foi suficientemente esperta. Bem, at agora, dei sorte. Resolvi 
todos os crimes que me caram nas mos.   Ele levantou se.   No pretendo desistir deste. Caso consiga pensar em qualquer coisa que possa ser til, a senhorita 
vai me ligar, no vai?
  Claro que vou. 
Depois que o delegado saiu, Ashley pensou: Ser que ele veio at aqui como uma advertncia? Ser que sabe mais do que est me contando?
 

Toni estava mais absorta do que nunca na Internet. Gostava mais dos bate papos com Jean Claude, mas isso no a impedia de ter outros correspondentes nos chat rooms. 
A cada chance que tinha, sentava se diante do computador, e as mensagens digitadas iam de um lado para o outro, respingando na tela do computador. 
  Toni? Por onde voc tem andado? Eu vivo no chat room  sua espera. 
  Vale a pena esperar por mim, meu querido. Fale me de voc. O que voc faz?
  Eu trabalho numa farmcia. Ns podemos nos dar bem. 
Voc transa drogas?
 "Caia fora. 
   voc, Toni?
  A resposta aos seus sonhos. voc, Mark?
  Eu, mesmo. 
  Faz um bom tempo que voc no aparece aqui pela Internet. 
  Tenho andado ocupado. Eu gostaria de conhecer voc, Toni. 
  Mark, me diga uma coisa, o que voc faz?
  Sou bibliotecrio. 
  Que legal! um monte de livros e tudo mais... 
  Quando a gente pode se encontrar?
  Por que voc no pergunta a Nostradamus?
  Oi, Toni, meu nome  Wendy. 
  Oi, Wendy
  Voc parece ser uma pessoa divertida. 
  Gosto da vida. 
  Talvez eu possa ajud la a gostar ainda mais. 
  Qual  a sua sugesto?
  Sabe, espero que voc no seja uma dessas pessoas de mentalidade estreita, que tm medo de experimentar coisas novas que possam ser interessantes. Eu gostaria 
de lhe propiciar uns bons momentos. 
  Obrigada, Wendy! Voc no tem o equipamento de que preciso. 
E ento, Jean Claude Parent voltou. 
  Bon nuit. Comment a va? Como vai?
  Muito bem. E voc?
  Senti saudades. Estou querendo muito conhecer voc em pessoa. 
  Eu tambm. Obrigada por ter me enviado a sua fotografia. Voc  bonito. 
  E voc  linda. Eu acho que  muito importante ns nos conhecermos. A sua empresa vem para a conveno de informtica aqui em Quebeque?
  O qu? No, que eu saiba! Quando vai ser?
  De hoje a trs semanas. Muitas empresas grandes viro. Vou torcer para que voc venha. 
  Eu tambm. 
  Vamos nos encontrar no chat room amanh no mesmo horrio?
  Claro. At amanh. 
  Demain. 

Na manh seguinte, Shane Miller foi at a mesa de Ashley
  Ashley, voc est sabendo sobre essa grande conveno de informtica que vai ser realizada em Quebeque?
Ela assentiu. 
  Estou. Parece interessante. 
 
  Eu estava discutindo agorinha mesmo se deveramos enviar um pessoal nosso para l. 
  Todas as empresas vo estar representadas   disse Ashley.
  A Symantec, a Microsoft, a Apple. A prefeitura de Quebeque est preparando um grande espectculo para todo mundo. E uma viagem dessas poderia valer como um presente 
de Natal. 
Shane Miller sorriu pelo entusiasmo dela. 
  Vou estudar o assunto. 

Na manh seguinte, Shane Miller chamou Ashley ao seu escritrio. 
  O que voc acha de passar o Natal em Quebeque?
  Ns vamos? Que legal   falou Ashley, entusiasmada. 
Antigamente, ela passava os feriados natalinos com o pai, mas este ano estava abominando a idia. 
   melhor levar muita roupa de frio. 
  No se preocupe. Vou levar. Estou ansiosa para viajar, Shane! 

Toni estava no chat room da Internet. 
  Jean Claude, a empresa vai enviar um grupo nosso para Quebeque! 
  Formidvel! Fico muito satisfeito. Quando voc vai chegar?
  De hoje a duas semanas. Seremos quinze ao todo. 
  Merveilleux! Tenho a impresso de que algo muito importante vai acontecer
  Eu tambm. 
Algo muito importante. 

Ashley assistia ansiosamente aos noticirios toda noite, mas no havia progresso algum quanto ao assassinato de Dennis Tibble. Ela comeou a relaxar. Se a polcia 
no conseguisse associ la ao caso, no haveria como fazer qualquer ligao com seu pai. Ela chegou a se preparar meia dzia de vezes para falar com ele sobre o 
assunto, mas todas as vezes acabou retrocedendo. E se ele fosse inocente? Seria capaz de perdo la por acus lo de assassino? E se ele for culpado   eu no quero 
saber, pensou Ashley . Eu no poderia aguentar. E se ele fez essas coisas terrveis, em sua mente, fez isso para me proteger Pelo menos, no vou precisar encar 
lo neste Natal. 

Ashley telefonou para o pai em So Francisco. Ela disse, sem prembulos:
  No vou poder passar o Natal com voc este ano, papai. Minha empresa est me enviando para uma conveno no Canad. 
Houve um prolongado silncio. 
  O momento no  muito propcio, Ashley. Voc e eu sempre passamos o Natal juntos. 
  No tenho como evitar... 
  Voc  tudo que eu tenho, sabe disso. 
  Eu sei, papai, e... voc  tudo que eu tenho. 
   o que importa. 
Importa a ponto de chegar a matar por causa disso?
  Onde vai ser a conveno?
  Em Quebeque.... 
 
  Ah!  um lugar maravilhoso. No vou l h anos. Sabe o que eu vou fazer? No tenho nada marcado no hospital nessa poca. Vou pegar um avio para me encontrar 
com voc l, e vamos cear juntos. 
Ashley falou rapidamente:
  Acho que no  um a... 
  Faa uma reserva para mim no hotel em que voc for se hospedar. No  bom quebrar a tradio, certo?
Ela ficou um pouco indecisa e acabou dizendo devagar:
  No, papai. No . 
Como  que eu vou encar lo?

Alette estava empolgada. Falou para Toni:
  Eu nunca fui a Quebeque. H museus por l?
  Claro que h   disse  lhe Toni.   L tem de tudo. Muitos desportos de inverno. Esqui, patinao no gelo... 
Alette estremeceu. 
  Eu odeio o frio. No quero saber de esportes. Mesmo de luvas, meus dedos ficam enregelados. Prefiro visitar os museus... 

No dia 21 de dezembro, o grupo da Global chegou ao Aeroporto Internacional Jean Lesage, em Sainte Foy, e foi levado ao famoso Chateou Frontenac, em Quebeque. Fazia 
um frio tremendo, abaixo de zero, e as ruas estavam cobertas de neve. Jean Claude dera a Toni o nmero do telefone de sua casa. Ela ligou para ele assim que se 
instalou no hotel. 
  Espero que eu no esteja ligando muito tarde. 
  Mas no! No posso acreditar que voc esteja aqui. Quando vou poder v la?
  Bem, ns todos vamos ao centro de convenes amanh de manh, mas eu poderia dar uma fugidinha para almoar com voc. 
  Bon! H um restaurante, Le Paris Brest, na Grande Alle Est. Voc pode se encontrar comigo l  uma da tarde?
  Estarei l. 

O Centre des Congres de Quebeque, no Ren Lvesque Boulevard,  a ltima palavra em edifcios de ao e vidro, com quatro andares e capacidade para receber milhares 
de participantes numa s conveno. s nove da manh, os enormes sagues estavam abarrotados de peritos em informtica oriundos de todos os cantos do mundo, trocando 
as mais recentes informaes sobre os desenvolvimentos da rea. Eles ocupavam as salas de multimdia, os estandes de mostra e os centros de vdeo conferncia. Meia 
dzia de seminrios ocorriam simultaneamente. Toni estava enfadada. 
Muita conversa, nenhuma aco, pensou. s 12 e 45, ela saiu sorrateiramente do centro de convenes e pegou um txi para o restaurante. 
Jean Claude estava  sua espera. Ele pegou lhe na mo e disse
carinhosamente:
  Toni, estou muito feliz por voc ter vindo. 
  Eu tambm. 
  Vou tentar lhe propiciar uma estada bastante agradvel por aqui   disse  lhe Jean Claude.   Esta  uma linda cidade para se explorar. 
Toni olhou para ele e sorriu. 
  Eu sei que vou gostar. 
  E eu gostaria de passar o maior tempo possvel com voc. 
  Voc consegue algum tempo livre? E a joalheria?
Jean Claude sorriu. 
 
  Ela vai ter de se arranjar sem mim. 
O maitre trouxe os cardpios. 
Jean Claude falou para Toni:
  Voc gostaria de experimentar os nossos pratos franco canadenses?
  Boa idia! 
  Ento, por favor, deixe me escolher   Ele falou para o maitre:   Nous voudrions le Brome Lake Duckling.   E explicou a Toni:    um prato daqui, pato cozido ao 
molho de calvados, com recheio de maa. 
  Parece delicioso. 
Realmente era. 
Durante o almoo, eles contaram um ao outro o seu passado. 
  Ento, voc nunca se casou?   perguntou Toni. 
  No. E voc?
  Tambm no. 
  No encontrou o homem certo?
Oh, Deus, no seria maravilhoso se fosse assim to simples?
  No. 
Eles conversaram sobre Quebeque e o que havia para se fazer na cidade. 
  Voc sabe esquiar?
Toni assentiu. 
  Eu adoro. 
  Ah, bon, moi, aussi. E tm tambm as motocicletas de uso exclusivo sobre a neve, os famosos snowmobiles, tem patinao no gelo, lojas para se fazer compras...
Havia algo de juvenil no entusiasmo dele. Toni jamais havia se sentido to  vontade com algum antes. 

Shane Miller providenciou para que seu grupo frequentasse as actividades matinais da conveno, de forma que ficassem com as tardes livres. 
  No h muitas opes para se divertir por aqui   queixou se Alette com Toni.   Alm disso, est um frio de rachar. O que voc vai fazer?
  Tudo.   Toni sorriu. 
  A pitardi. 

Toni e Jean Claude almoaram juntos todos os dias, e  tarde Jean Claude levava Toni para passear. Ela nunca tinha visto uma cidade igual a Quebeque. Foi como descobrir 
um pitoresco vilarejo francs da viragem do sculo em plena Amrica do Norte. As ruazinhas antigas tinham nomes simpticos, como Escadaria do Quebra Pescoo, Embaixo 
do Forte e Salto do Marinheiro. Era como uma cidade feita de cartes postais do fim do sculo passado, emoldurada pela neve. 
 Eles visitaram La Citadelle, com suas muralhas de proteco em torno da Quebeque Velha, e assistiram  tradicional troca da guarda dentro do forte. Exploraram 
as ruas de lojas comerciais, Saint Jean, Cartier, C te de la Fabrique, e passearam pelo Quartier Petit Champlain. 
   Este aqui  o bairro comercial mais antigo da Amrica do Norte   disse lhe Jean Claude. 
   Magnfico! 
 Aonde quer que fossem, havia reluzentes rvores de Natal, prespios e msica para satisfao daqueles que passeavam. 
 Jean Claude levou Toni ao campo para andar de snowmobile. 
 
Quando estavam descendo por uma ladeira estreita, ele gritou:
   Voc est gostando?
 Toni percebeu que no foi uma pergunta sem propsito. Ela assentiu e disse baixinho:
   Estou achando maravilhoso. 

Alette passou todo o seu tempo livre nos museus. Visitou a baslica de Notre Dame, a capela do Bom Pastor e o museu de Santo Agostinho, mas no sentiu interesse 
por nada mais que Quebeque tivesse a oferecer. Havia dzias de restaurantes com cozinhas especializadas, mas quando no fazia suas refeies no hotel, ela preferia 
almoar ou jantar na Le Comensal, uma lanchonete de comida vegetariana. 
 De tempos em tempos, Alette pensava no seu amigo artista, Richard Melton, em So Francisco, e imaginava o que ele estaria fazendo e se estaria pensando nela. 

Ashley temia a chegada do Natal. Estava tentada a telefonar para o pai e lhe dizer que no viesse. Mas que desculpa eu posso dar? Voc  um assassino; eu no quero 
v lo?
 E a cada dia o Natal estava mais prximo. 

  Eu gostaria de lhe mostrar minha joalheria   falou Jean Claude para Toni.   Voc gostaria de conhec la?
Toni assentiu. 
  Adoraria. 
 A joalheria Parents ficava no corao de Quebeque, na rue Notre Dame. Quando eles passaram pela porta, Toni ficou atnita. Pela Internet, Jean Claude tinha dito: 
"Sou dono de uma lojinha de jias. " Era uma loja enorme, de muito bom gosto. Havia meia dzia de funcionrios, todos atendendo clientes. 
 Toni olhou ao redor e falou:
   Nossa!... Isto aqui  magnfico!
 Ele sorriu. 
   Merci! Eu gostaria de lhe dar um cadeau... um presente, de Natal. 
   No. No precisa. Eu... 
   Por favor, no me prive do prazer   Jean Claude levou Toni at uma vitrine cheia de anis.   Mostre me de qual voc gostou. 
 Toni balanou a cabea. 
   Eles so caros demais. Eu no poderia... 
   Por favor. 
 Toni o analisou durante um momento e, em seguida, assentiu. 
   Tudo bem.   Ela examinou a vitrine outra vez. Bem no centro havia um enorme anel de esmeralda, incrustado de diamantes. 
 Jean Claude percebeu que ela o estava admirando. 
   Voc gostou do anel de esmeralda?
    lindo. Mas  muito... 
    seu.   Jean Claude tirou uma pequena chave, destrancou a vitrine e pegou o anel. 
   No, Jean Claude... 
  Pour moi.   Ele colocou o anel no dedo de Toni. Coube perfeitamente. 
   Voil! um sinal. 
Toni apertou a mo dele entre as suas. 
   Eu... eu nem sei o que dizer
 
   E eu no tenho como lhe dizer o prazer que isto me d. Existe um restaurante maravilhoso aqui chamado Pavillon. Voc gostaria de jantar l hoje  noite?
   Onde voc quiser.
   Eu vou peg la s oito. 

s seis daquela mesma tarde, o pai de Ashley telefonou. 
   Sinto muito, mas vou decepcion la, Ashley. No poderei estar a no Natal. um paciente meu, um homem muito importante, que vive na Amrica do Sul, teve um derrame. 
Vou pegar o prximo voo para a Argentina esta noite. 
   Mas... mas que pena, papai!   disse Ashley. Ela tentou ser convincente. 
   Mas ns haveremos de arranjar um jeito para compensar isso; voc no concorda, minha querida?
   Claro, papai. Espero que voc faa uma boa viagem. 

Toni estava ansiosa para jantar com Jean Claude. A noite prometia ser maravilhosa. Enquanto estava se vestindo, ela cantou baixinho para si mesma. 

"Subindo e descendo a rua da cidade
Entra tosto, sai tosto. Ora, ora! 
 assim que o dinheiro se vai. 
Mas a lontra   pluft!   foi embora. "

Acho que Jean Claude est apaixonado por mim, mame. 

O Pavillon fica na cavernosa Gare du Palais, a antiga estao ferroviria de Quebeque. um restaurante grande, com um bar comprido na entrada e fileiras de mesas 
que se estendem at o fundo. 
Toda noite, s onze horas, eles afastam uma dzia de mesas para perto das paredes laterais, criando uma pista de dana, e um disc jockey assume o comando com fitas 
das mais variadas, passando do reggae, ao jazz e aos blues. 
 Toni e Jean Claude chegaram s nove e foram calorosamente cumprimentados  porta pelo dono. 
   Monsieur Parent.  sempre um prazer rev lo. 
   Obrigado, Andr! Esta  a Senhorita Toni Prescott, Sr. Nicholas. 
   Muito prazer, Senhorita Prescott. Sua mesa est reservada. 
   A comida  excelente aqui   assegurou Jean Claude a Toni quando eles j estavam sentados.  Vamos comear tomando um champanhe. 
 Eles pediram paillard de vitela, torpille, salada e uma garrafa de Valpolicella. 
 Toni continuava admirando o anel de esmeralda que Jean Claude lhe dera. 
    to lindo!   exclamou. 
 Jean Claude se inclinou por cima da mesa. 
   Tu aussi. No h como lhe dizer da alegria que estou sentindo por termos finalmente nos encontrado. 
   Eu tambm no tenho palavras   disse Toni baixinho. 
 A msica comeou. Jean Claude olhou para Toni. 
   Voc gostaria de danar?
   Adoraria! 
 
 Danar era uma das paixes de Toni, e quando chegava  pista de dana, ela se esquecia de tudo mais. Era uma menininha danando com o pai, e a me dizendo: "Que 
menina desajeitada! " Jean Claude estava danando bem prximo a ela. 
  Voc dana muito bem. 
  Obrigada!   Ouviu s, mame?
Toni pensou: Eu gostaria que isto no tivesse fim, que continuasse assim para sempre. 
No caminho de volta para o hotel, Jean Claude falou:
   Chrie... voc gostaria de passar na minha casa para coroarmos a noite?
 Toni se mostrou um pouco indecisa e disse:
   Hoje no, Jean Claude. 
   Amanh, pode ser?
 Ela apertou lhe a mo. 
   Amanh. 

s trs da madrugada, o polcia Ren Picard fazia a ronda pela Grande Alle, no Quartier Montcalm, quando percebeu que a porta da frente de uma casa de dois andares 
com fachada em tijolos aparentes estava escancarada. Ele estacionou a viatura junto ao meio fio e saiu para investigar. Caminhou at  porta e chamou:   Bon soir 
Y a t il, quelqu'un? No houve resposta alguma. A casa estava tranquila, de uma forma que no parecia natural. Desabotoando a cartucheira, o polcial Picard entrou 
e comeou a vasculhar o primeiro andar, perguntando se havia algum  medida que passava de um cmodo para outro. A nica resposta que obteve foi um estranho silncio. 
Ele voltou ao saguo de entrada. Havia uma bela escadaria que levava ao andar de cima. 
   Allo!   Nada. 
 O polcial Picard comeou a subir a escada. Quando chegou ao ltimo degrau, sua arma j estava na mo. Ele tornou a chamar e ps se a andar pelo corredor comprido. 
Logo adiante, encontrou a porta de um quarto entreaberta. Aproximou se dela, escancarou a e empalideceu. 
   Mon Dieu! 

s cinco horas da mesma madrugada, no edifcio de pedras cinzas e tijolos amarelos do Story Boulevard, onde ficava a Central de Polcia, o inspector Paul Cayer 
estava perguntando:
   O que temos a?
 O polcia Guy Fontaine respondeu:
   O nome da vtima  Jean Claude Parent. Ele foi esfaqueado pelo menos uma dzia de vezes e castrado. O legista diz que o assassinato ocorreu h trs ou quatro 
horas. Encontramos um recibo do restaurante Pavillon no bolso do palet de Parent. Ele tinha jantado l ontem  noite. Ns tiramos o dono do restaurante da cama. 

   E ento?
 
   Monsieur Parent esteve no Pavillon com uma mulher chamada Toni Prescott, uma morena, muito atraente, com sotaque ingls. O gerente da joalheria de monsieur Parent 
disse que, durante o dia, monsieur Parent havia levado  loja uma mulher, que correspondia  mesma descrio, que apresentou como Toni Prescott. Ele lhe deu um 
anel de esmeralda muito caro. Ns tambm acreditamos que monsieur Parent tenha praticado sexo com algum antes de morrer e que a arma do crime tenha sido a lmina 
de ao de uma esptula de abrir envelopes de papel. Havia impresses digitais nela. Ns as envimos para o nosso laboratrio e para o FBI. Estamos aguardando os 
laudos. 
   Vocs j pegaram essa Toni Prescott?
   Non. 
   E por que no?
   No conseguimos encontr la. Verificamos em todos os hotis. Procuramos em nossos arquivos e nos do FBI. Ela no tem certido de nascimento, no est cadastrada 
na previdncia social, nem carteira de habilitao. 
   Impossvel. Ser que ela saiu da cidade?
 O polcia Fontaine balanou a cabea. 
   Acho que no, inspector. O aeroporto fechou  meia noite. O ltimo comboio saiu de Quebeque ontem s cinco e trinta e cinco da tarde. O primeiro comboio partir 
hoje s seis e trinta e nove. Envimos uma descrio dela para a estao rodoviria, para as duas empresas de txi e para a companhia de limusines. 
   Pelo amor de Deus! Temos o nome, a descrio e as impresses digitais dela. Essa mulher no pode desaparecer assim. 
Uma hora depois, chegou o laudo do FBI. Eles no haviam conseguido identificar as impresses digitais. No havia registro algum de Toni Prescott.
 
        Captulo Oito

Cinco dias depois de Ashley ter voltado de Quebeque, seu pai estava ao telefone. 
   Acabei de voltar
   Voltar?  Ashley precisou de um instante para se recordar
  Ah, o seu paciente na Argentina. Como vai ele?
   Vai sobreviver
   Que bom!
   Voc pode vir at So Francisco para jantarmos amanh?
 Ela estremeceu diante da simples ideia de encar lo, mas no conseguiu pensar em desculpa alguma. 
   Tudo bem. 
   Vamos nos encontrar no restaurante Lulu. s oito. 

Ashley estava esperando no restaurante quando o pai entrou. Mais uma vez ela percebeu os olhares de admirao estampados nos rostos das pessoas. Seu pai era um 
homem famoso. Ele arriscaria tudo que tinha s para...?
 Ele estava  mesa. 
   Que bom ver voc, minha querida! Fiquei sentido pela ceia de Natal! 
 Ela se forou a dizer:
   Eu tambm. 
 Ashley estava olhando para o cardpio, sem v lo, tentando colocar os pensamentos em ordem. 
   O que voc vai querer?
   Eu... eu no estou com muita fome   disse ela. 
   Voc precisa comer alguma coisa. Est ficando magra demais. 
   Vou querer frango, ento...
 Ela ficou olhando para o pai, enquanto ele fazia o pedido, e imaginou se teria coragem de comentar sobre o assunto. 
   Como foram as coisas em Quebeque?
   Tudo muito interessante   disse Ashley.   A cidade  linda. 
   Precisamos ir l juntos uma hora dessas. 
 Ela tomou uma deciso e tentou manter o tom de voz o mais  vontade que conseguiu. 
   Precisamos, sim. A propsito... em junho ltimo eu fui  reunio de dez anos de formatura da minha turma do segundo grau em Bedford. 
 Ele assentiu. 
   E gostou?
   No.   Ela falou devagar, escolhendo as palavras com cuidado.   Eu... descobri que no dia seguinte  nossa partida para Londres, o corpo de Jim Cleary. . foi 
encontrado. Ele foi esfaqueado... e castrado.   Ela ficou sentada, olhando para ele, esperando uma reaco. 
 O Dr. Paterson franziu o cenho. 
   Cleary? Ah, sim! Aquele rapaz que vivia atrs de voc! Eu a salvei das mos dele, no salvei?
 O que significaria aquilo? Seria uma confisso? Ele a teria salvado de Jim Cleary matando o?
 Ashley respirou profundamente e prosseguiu. 
   Dennis Tibble foi assassinado da mesma forma. Foi esfaqueado e castrado.   Ela ficou olhando para o pai, enquanto ele pegava um pozinho e passava a manteiga 
com delicadeza. 
 Quando ele finalmente se pronunciou, disse:
 
  No me surpreende, Ashley. As pessoas ruins costumam encontrar o fim que merecem. 
 E ali estava um mdico falando, um homem dedicado a salvar vidas. Eu jamais vou entend lo, pensou Ashley. E nem sei se quero. Quando o jantar terminou, Ashley 
no tinha conseguido chegar muito perto da verdade. 

  Eu gostei muito de Quebeque, Alette. Eu gostaria de voltar um dia. Voc se divertiu?   disse Toni. 
   Eu gostei dos museus.   falou Alette, timidamente. 
   Voc j telefonou para o seu namorado em So Francisco?
   Ele no  meu namorado. 
  Aposto que voc quer que ele seja, no ?
  Fosse. Talvez. 
  Por que no liga para ele?
  Acho que no ficaria bem eu... 
  Ligue. 
Eles marcaram para se encontrar no museu De Young. 
  Senti saudade de voc   falou Richard Melton.   Como foram as coisas em Quebeque?
   Va bene. 
  Eu gostaria de ter ido com voc. 
Talvez um dia, pensou Alette, esperanosa. 
  Como est indo a sua pintura?
   Nada mal. Acabei de vender um dos meus quadros para um coleccionador muito conhecido. 
   Fantstico!   Ela ficou satisfeita. E no conseguiu deixar de pensar.  to diferente quando estou com ele! Se fosse qualquer outra pessoa, eu pensaria: E quem 
teria o mau gosto de dar algum dinheiro pelos seus quadros? ou No v largar o seu emprego ou uma centena de outros comentrios cruis. Mas no fao isso com Richard. 

 Alette sentiu uma incrvel sensao de liberdade, como se
tivesse encontrado a cura para uma doena debilitante. 

Eles resolveram almoar no museu. 
   O que voc vai querer?   perguntou Richard.   O
rosbife daqui  ptimo. 
   Eu sou vegetariana. 
   Tudo bem. 
 vou comer uma salada. Obrigada! 
 uma garonete jovem e atraente veio atend los. 
   Oi, Richard! 
   Oi, Bemice! 
 Inesperadamente, Alette sentiu uma pontada de cimes. Sua
reaco a surpreendeu. 
   Vocs j querem fazer o pedido?
   Por favor. A Senhorita Peters vai querer uma salada, e eu vou comer um sanduche de rosbife. 
 A garonete estava analisando Alette. Ela est com cimes de mim?, indagou Alette a si prpria. Quando a garonete se foi, Alette falou:
   Que moa bonita! Voc a conhece bem?   Ela corou imediatamente. Eu gostaria de no ter feito esta pergunta. 
 Richard sorriu. 
   Eu venho sempre aqui. No incio, quase no tinha dinheiro. Eu pedia um sanduche, e Berenice me trazia um banquete. Ela  ptima. 
 
  Ela parece ser muito legal   falou Alette. E pensou: Ela tem as coxas grossas. 
Depois de fazerem o pedido, eles conversaram sobre pintores. 
  E um dia eu quero ir a Giverny   disse Alette  , onde Monet pintava. 
  Voc sabia que Monet comeou como caricaturista?
  No. 
   verdade. Depois ele conheceu Boudin, que virou seu professor e o convenceu a comear a pintar ao ar livre. Existe uma histria interessante sobre isso. Monet 
ficou to aficcionado por pintar fora do ateli, que quando resolveu reproduzir a imagem de uma mulher num jardim, numa tela com quase trs metros de altura, mandou 
cavar uma vala no meio do jardim para poder erguer ou baixar a tela com polias. Esse quadro est no Museu d'Orsay, em Paris. 
 O tempo passou rpida e alegremente. 

Depois do almoo, Alette e Richard passearam pelas diversas mostras do museu. Havia mais de quarenta mil objectos na coleco, tudo desde artesanato egpcio antigo 
at pintura contempornea norte  americana. 
 Alette se sentia radiante por estar na companhia de Richard e por no ter nenhum pensamento negativo. Che cosa significa?  um guarda uniformizado se aproximou 
deles. 
   Boa tarde, Richard!
   Boa tarde, Brian! Esta  minha amiga, Alette Peters. Brian Hill. 
 Brian falou para Alette:
   Est gostando do museu?
   Ah, sim.  maravilhoso. 
   Richard est me ensinando a pintar   disse Brian. 
 Alette olhou para Richard. 
    mesmo?
 Richard falou, com modstia:
   Ora, eu s o estou orientando!
   Ele est fazendo mais do que isso, senhorita. Eu sempre quis ser pintor. Foi por isso que aceitei este emprego no museu, porque adoro arte. Enfim, Richard vem 
sempre aqui, e  pintor. Quando vi o trabalho dele, pensei: "Quero ser como ele. " Ento, perguntei se ele no queria me dar aulas, e ele tem sido um ptimo professor! 
A senhorita j viu alguns dos quadros dele?
   J vi, sim   disse Alette.   So magnficos. 
 Quando os dois se afastaram de Brian, Alette falou:
    muito legal da sua parte fazer uma coisa dessas, Richard. 
   Eu gosto de fazer coisas pelas pessoas   e ele estava olhando para Alette. 
 Assim que saram do museu, Richard falou:
   Meu companheiro de quarto foi a uma festa hoje  noite. Por que no damos um pulinho no meu apartamento?   Ele sorriu.   Eu gostaria de lhe mostrar alguns dos 
meus quadros. 
 Alette apertou a mo dele. 
   Ainda no, Richard. 
   Como voc quiser. Vamos nos ver no fim de semana que vem?
   Vamos. 
 E ele no tinha ideia do quanto ela estava ansiando por isso. 
 
 Richard caminhou junto com Alette at o estacionamento onde ela havia deixado o carro. Ele ficou acenando, enquanto ela partia. 
Quando estava deitada para dormir naquela noite, Alette pensou: como se fosse um milagre. Richard me libertou. Ela adormeceu, sonhando com ele. 

s duas da madrugada, o companheiro de quarto de Richard Melton, Gary, chegou de uma festa de aniversrio. O apartamento estava s escuras. Ele acendeu as luzes 
da sala. 
   Richard?
 Foi em direco ao quarto.  porta, ele olhou para dentro do cmodo e teve nsias de vmito. 
 
  Acalme se, meu filho.   O polcia Whittier olhou para a figura que tremia sentada na poltrona.   Agora, vamos repassar toda a histria. Ele tinha inimigos, algum 
que o detestava a ponto de fazer uma coisa dessas?
 Gary engoliu em seco. 
  No. Ningum... todo mundo gostava de Richard. 
  Existe algum que no gostava. H quanto tempo voc e ele estavam juntos?
  Dois anos. 
 Vocs eram amantes?
   Pelo amor de Deus!   disse Gary, indignado.   No. ramos amigos, compartilhvamos o apartamento por uma questo financeira. 
 O polcia Whittier olhou ao redor do pequeno ambiente. 
   Com toda a certeza, no foi roubo   disse.   No h o que roubar por aqui. O seu companheiro de quarto estava saindo com algum, estava tendo algum romance?
   No... ou melhor, sim. Ele andava interessado numa garota. Acho que estava comeando a gostar dela. 
   Voc sabe o nome dela?
   Sei. Alette. Alette Peters. Ela trabalha em Cupertino. 
 O polcia Whittier e seu parceiro Reynolds se entreolharam. 
   Cupertino?
   Meu Deus!   disse Reynolds. 

Trinta minutos depois, o polcia Whittier estava ao telefone com o comissrio Dowling. 
   Comissrio, achei que o senhor gostaria de saber que estamos com um assassinato aqui com o mesmo modus operandi que vocs tiveram em Cupertino: vrios ferimentos 
causados por objecto contundente pontiagudo e castrao. 
   Meu Deus!
   Acabei de ter uma conversa com o FBI. O computador deles mostra que houve trs castraes com morte muito semelhantes a esta. A primeira ocorreu em Bedford, 
na Pensilvania, cerca de dez anos atrs, a segunda com um homem chamado Dennis Tibble, que foi o seu caso, depois houve o mesmo modus operandi em Quebeque e agora 
este. 
   No faz sentido. Pensilvania... Cupertino. . Quebeque... So Francisco... H alguma conexo?
   Estamos tentando encontrar.  necessrio passaporte para ir a Quebeque. O FBI est fazendo uma verificao cruzada para ver se algum que tenha estado em Quebeque 
na poca do Natal estava em alguma destas outras cidades  poca dos assassinatos... 

 
Quando a mdia ouviu rumores do que estava acontecendo, suas histrias se espalharam pelas primeiras pginas do mundo inteiro:

"MANACO ASSASSINO  SOLTA.."

 Em todas as redes, psiclogos arrogavam se o poder de analisar os assassinatos:
 "... e todas as vitimas eram homens. Devido  forma como eles foram esfaqueados e castrados, o autor seria indubitavelmente um homossexual que..."
 "... portanto, conseguindo encontrar uma conexo entre as vitimas, a polcia acabar descobrindo que tudo isso foi obra de uma amante desprezada por esses homens..."
 "... mas eu diria tratar se de assassinatos aleatrios, cometidos por algum cuja me fosse dominadora..."

No sbado de manh, o polcia Whittier telefonou de So Francisco para o delegado Blake. 
   Delegado, tenho novidades. 
   Diga. 
   Acabo de receber um telefonema do FBI. Cupertino consta como residncia de uma norte americana que estava em Quebeque na data do assassinato de Parent. 
   Muito interessante! E qual  o nome dela?
   Paterson. Ashley Paterson. 

s seis horas daquela mesma tarde, o delegado Sam Blake tocou a campainha do apartamento de Ashley Paterson. Ainda diante da porta fechada, ela ouviu a prpria 
pergunta proferida com cautela:
   Quem ?
   Delegado Blake. Eu gostaria de conversar com a Senhorita Paterson. 
 Houve um silncio prolongado e, em seguida, a porta foi aberta. 
Ashley estava ali de p, com uma expresso de alerta no rosto. 
   Posso entrar?
   Pois no.   Seria algo sobre o meu pai? Preciso tomar cuidado. Ashley conduziu o delegado a um sof.   Em que posso ser til, delegado?
   A senhorita se importaria de responder a algumas perguntas?
 Ashley se ajeitou no sof, pouco  vontade. 
   Eu... eu no sei. Estou sob suspeita de alguma coisa?
 Ele lhe abriu um sorriso reconfortante. 
   Nada disso, Senhorita Paterson. s uma questo de rotina. Estamos investigando alguns assassinatos. 
   Eu no sei nada de assassinato algum   apressou se em dizer. Teria se apressado demais?
   A senhorita esteve em Quebeque recentemente, no esteve?
   Estive. 
   Conhece Jean Claude Parent?
   Jean Claude Parent?   Ela pensou um instante.   No. Nunca ouvi falar. Quem ?
    dono de uma joalheria em Quebeque. 
 Ashley balanou a cabea. 
   No comprei nenhuma jia em Quebeque. 
   A senhorita trabalhava com Dennis Tibble. 
 
 Ashley sentiu o medo retornar. Aquilo tinha a ver com o seu pai. Ela falou, cautelosa:
   Eu no trabalhava com ele. Dennis trabalhava na mesma empresa que eu. 
   Certo. A senhorita costuma ir a So Francisco, no ?
 Ashley ficou a imaginar onde aquilo poderia acabar. Cuidado! 
   De vez em quando, sim. 
   Alguma vez teve a oportunidade de conhecer um artista plstico chamado Richard Melton?
   No. Eu no conheo ningum com esse nome. 
 O delegado Blake ficou sentado, estudando Ashley, frustrado. 
   Senhorita Paterson, se importaria de vir  chefatura de polcia para fazer um teste poligrfico? Se desejar, pode chamar o seu advogado e... 
   No preciso de um advogado. Farei o teste com prazer. 

O perito em poligrafia se chamava Keith Rosson e era um dos melhores. Teve de cancelar um compromisso para jantar, mas ficou satisfeito em poder atender Sam Blake. 

 Ashley estava sentada numa cadeira, conectada aos fios do polgrafo. Rosson j vinha conversando com ela fazia quarenta e cinco minutos, obtendo informaes sobre 
o seu passado e avaliando o seu estado emocional. Agora estava pronto para comear. 
   Est se sentindo confortvel?
   Estou. 
   Bom. Vamos comear   Ele apertou um boto.   Qual  o seu nome?
   Ashley Paterson. 
 Os olhos de Rosson passavam de Ashley para o grfico impresso pelo polgrafo. 
   Quantos anos tem, Senhorita Paterson?
   Vinte e oito. 
   Onde mora?
   Na vila Via Camino, nmero 10. 964, em Cupertino. 
   Tem emprego?
   Tenho. 
   Gosta de msica clssica?
 - Gosto. 
   Conhece Richard Melton?
   No. 
 No houve alterao do grfico. 
   Onde trabalha?
   Na Corporao Global de Computao Grfica. 
   Gosta do seu trabalho?
   Gosto. 
   Trabalha cinco dias por semana?
   Trabalho. 
   Conheceu Jean Claude Parent?
   No. 
O grfico continuou sem alteraes. 
  Tomou caf da manh hoje?
  Tomei. 
  Matou Dennis Tibble?
  No. 
 As perguntas prosseguiram durante mais trinta minutos e foram repetidas trs vezes, em sequncias diferentes. 
 
 Quando terminou a sesso, Keith Rosson entrou no escritrio de Sam Blake e entregou lhe o teste do polgrafo. 
   Limpinha! H menos de um por cento de chances de ela estar mentindo. Voc pegou a pessoa errada. 
 
Ashley saiu da chefatura de polcia, aliviada. Graas a Deus isso acabou! Ela estava aterrorizada com a possibilidade de eles lhe fazerem perguntas que pudessem 
envolver seu pai, mas isso no aconteceu. Agora ningum vai poder associar papai a qualquer assassinato. 
 Ela estacionou o carro na garagem e pegou o elevador para o seu andar. Destrancou a porta, entrou e tornou a tranc la com cuidado. Estava exausta e, ao mesmo 
tempo, rejubilada. um bom banho quente, pensou. Entrou no banheiro e ficou lvida. Sobre o espelho do banheiro, algum escrevera com batom vermelho brilhante "VOC 
VAI MORRER".
 
        Capitulo Nove

Ashley estava combatendo a histeria. Seus dedos tremiam tanto, que ela discou trs vezes, tentando acertar o nmero. Respirou fundo e tentou novamente. Dois... 
nove... nove... dois... um... zero... um... O telefone comeou a tocar
   Delegacia de polcia. 
   O delegado Blake, por favor. Depressa! 
   O delegado Blake foi para casa. Ser que outra pessoa...?
   No! Eu... Voc pode pedir para ele me ligar? Aqui quem fala  Ashley Paterson. Eu preciso falar com ele imediatamente. 
   Queira aguardar na linha um momentinho, senhorita, que eu vou ver se consigo localiz lo.

O delegado Sam Blake estava escutando pacientemente a mulher, Serena, que falava aos berros. 
   Meu irmo bota voc pra trabalhar feito um burro de carga, dia e noite, e no lhe paga o suficiente pra voc me sustentar com decncia. Por que voc no exige 
um aumento? Por qu?
 Eles estavam  mesa de jantar
   Pode me passar as batatas, querida?
 Serena pegou o prato de batatas e bateu com ele sobre a mesa em frente ao marido. 
   O problema  que eles no sabem o quanto voc vale. 
   Tem razo, querida. Pode me passar o molho?
   Voc no est escutando o que eu estou dizendo?   gritou ela. 
   Cada palavra, meu amor. O jantar est delicioso. Voc  uma ptima cozinheira. 
   Como  que eu posso brigar com voc, seu idiota, se voc no briga comigo?
 Ele abocanhou uma garfada de vitela. 
    porque eu amo voc, minha querida. 
 O telefone tocou. 
   Com licena!   Ele se levantou e atendeu.   Al... Pois no... Pode coloc la na linha. Senhorita Paterson?   Ele ouviu os soluos dela. 
    uma coisa... uma coisa terrvel aconteceu. O senhor precisa vir at aqui imediatamente. 
   Estou a caminho. 
 Serena se levantou. 
   O qu? Voc vai sair? Ns ainda nem acabamos de jantar!
    uma emergncia, querida. Vou voltar assim que puder.   Ela o viu a fivelar a cartucheira. Ele se inclinou sobre ela e a beijou.   Que jantar maravilhoso!

Ashley abriu a porta assim que ele chegou. Seu rosto estava manchado de lgrimas. Ela tremia. 
 Sam Blake entrou no apartamento, esquadrinhando o ambiente com cautela. 
   Tem mais algum aqui?
   Algum... esteve aqui.   Ela estava se esforando para manter o autocontrole.   Venha ver...   Ela o levou at o banheiro. 
 O delegado Blake leu as palavras escritas no espelho em voz alta:
   Voc vai morrer
 
 Ele se virou para Ashley. 
   Alguma idia de quem poderia ter escrito isso?
   No   disse ela.   O apartamento  s meu. Ningum mais tem a chave... E algum tem vindo aqui... Anda me seguindo. Algum est planeando me matar.   E irrompeu 
em lgrimas. 
  Eu no aguento mais isso. 
Ashley estava aos prantos, fora de controle. O delegado Blake colocou o brao ao redor dos ombros dela e a confortou. 
   Tenha calma. Vai ficar tudo bem. Ns vamos lhe dar proteco e vamos descobrir quem est por trs disso. 
 Ela respirou fundo. 
   Desculpe! Eu... eu no costumo me comportar desse jeito...  que tem sido horrvel para mim. 
   Vamos conversar   falou Sam Blake. 
 Conseguindo abrir um sorriso a muito custo, Ashley respondeu:
   Tudo bem. 
   Que tal tomarmos uma boa xcara de ch?
Eles ficaram sentados, conversando e tomando ch quente. 
   Quando foi que tudo isso comeou, Senhorita Paterson?
   Mais ou menos... uns seis meses atrs. Eu sentia que estava sendo seguida. A princpio, era s uma impresso meio vaga, mas a comeou a tomar vulto. Eu sabia 
que estava sendo seguida, mas no conseguia ver ningum. Ento, l no trabalho, algum entrou no meu computador e desenhou um brao, a mo empunhando uma faca, 
querendo me... querendo me atacar
  E a senhorita faz idia de quem poderia ter sido?
   No. 
   A senhorita disse que algum entrou neste apartamento antes de hoje?
   Isso. Uma vez, algum acendeu todas as luzes quando eu no estava. Outra vez, eu encontrei uma ponta de cigarro sobre a minha cmoda. Eu no fumo. E algum abriu 
a gaveta e mexeu nas... nas minhas roupas ntimas.   Ela respirou Fundo.   E agora... isso a!
   A senhorita tem algum namorado que possa estar se sentindo rejeitado?
 Ashley balanou a cabea. 
   No. 
   Participou de alguma negociao onde algum possa ter perdido dinheiro por sua causa?
   No. 
   Nenhuma ameaa de ningum?
   No.   Ela pensou em lhe contar sobre o fim de semana perdido em Chicago, mas com isso poderia ter de mencionar o pai. Preferiu no dizer nada. 
   Eu no quero ficar sozinha aqui hoje  noite   falou Ashley
   Tudo bem. Vou ligar para a delegacia e pedir que eles mandem algum para...
   No! Por favor! Estou com medo, no consigo confiar em mais ningum. O senhor poderia ficar aqui comigo, s at amanh de manh?
   Acho que eu no... 
   Ah, por favor.   Ela tremia. 
 Ele a fitou nos olhos e achou que nunca tinha visto ningum to aterrorizado assim. 
   No haveria algum lugar onde a senhorita pudesse passar a noite? No tem amigos que...?
   E se for um dos meus amigos quem est fazendo isso?
 
 Ele assentiu. 
   Est certo. Ento, eu fico. Quando amanhecer, vou providenciar proteco vinte e quatro horas por dia para a senhorita. 
   Obrigada!   A voz dela soou aliviada. 
 Ele afagou a mo de Ashley
   E no se preocupe. Eu lhe prometo que vamos chegar ao fundo disso tudo. Deixe me telefonar para o comissrio Dowling e contar lhe o que est acontecendo. 
 O telefonema durou cinco minutos e, ao terminar, ele falou:
    melhor eu ligar para a minha mulher. 
   Claro. 
 O delegado Blake tornou a pegar o aparelho e discou. 
   Al, , querida! No vou voltar para casa hoje  noite, de modo que acho que seria uma boa idia voc ver televiso e... 
   Voc no vai o qu? Onde voc est, com uma dessas suas putinhas baratas?
 Ashley pde ouvir os gritos dela ao telefone. 
   Serena... 
   A mim voc no engana. 
   Serena... 
    s nisso que vocs homens pensam... dar uma trepadinha. 
   Serena... 
   Quer saber de uma coisa? Eu no vou mais tolerar isso, no!
   Serena... 
    essa a gratido que eu recebo por ser uma esposa to boa... 
 A conversa unilateral continuou durante mais dez minutos. 
 Finalmente, o delegado Blake desligou o aparelho e se virou para Ashley, constrangido. 
   Eu tenho de pedir desculpas. Ela no  assim. 
 Ashley olhou para ele e disse:
   Eu entendo. 
   No... eu estou falando srio. Serena age dessa maneira porque est com medo. 
 Ashley olhou para ele, curiosa. 
   Medo?
 Ele ficou em silncio por um momento. 
  Serena est morrendo. Ela tem cncer. A doena no se manifestou durante algum tempo. Comeou h sete anos. Ns estamos casados h cinco. 
  Ento, o senhor j sabia...?
  Sabia. Mas no me importei. Eu a amo.   Ele parou de falar   Tem piorado ultimamente. Ela anda assustada porque est com medo de morrer e teme que eu a abandone. 
Toda aquela gritaria serve para encobrir o medo. 
   Eu... eu sinto muito. 
  Ela  uma pessoa maravilhosa. No fundo,  gentil, carinhosa, amvel. Esta  a Serena que eu conheo. 
  Eu peo desculpas por ter causado um ...   falou Ashley
  De jeito algum!   Ele olhou ao redor
  S h um quarto. O senhor pode ficar l. Eu dormirei no sof   disse Ashley
O delegado Blake balanou a cabea. 
  O sof est bom para mim. 
  Eu nem sei como lhe agradecer   falou ela. 
   No tem problema, Senhorita Paterson.   Ele a observou ir at um armrio para pegar lenis e cobertores. 
 
Ela foi ao sof e esticou o lenol. 
  Espero que o senhor... 
  Perfeito. Eu no pretendo dormir muito mesmo.   Ele verificou as janelas para se certificar de que estivessem bem fechadas e depois foi at  porta, dando duas 
voltas na tranca.   Tudo certo.   Ele colocou a arma sobre a mesa ao lado do sof. 
  Durma bem. De manh, ns vamos organizar tudo direitinho. 
Ashley assentiu. Foi at ele e deu lhe um beijo no rosto. 
  Obrigada! 
O delegado Blake esperou que ela entrasse no quarto e fechasse a porta. Voltou s janelas e verificou as novamente. A noite seria longa.

Na sede do FBI em Washington, o agente Ramirez conversava com Roland Kingsley, o chefe de sua seco. 
   Temos as impresses digitais e os laudos do DNA encontrados nas cenas dos crimes de Bedford, Cupertino, Quebeque e So Francisco. Acabamos de receber o ltimo 
laudo do DNA. Todas as impresses digitais tiradas in loco coincidem, e os traos de DNA tambm. 
 Kingsley assentiu. 
   Ento, trata se definitivamente de um s manaco assassino. 
   No h dvida. 
   Vamos encontrar o canalha.

s seis horas da manh, o corpo nu do delegado Sam Blake foi encontrado pela mulher do sindico no beco situado atrs do edifcio onde ficava o apartamento de Ashley 
Paterson. 
 Ele fora esfaqueado e castrado.
 
        Captulo Dez

Eles eram cinco: o comissrio Dowling, dois detectives  paisana e dois polcias uniformizados. Estavam de p na sala, olhando para Ashley, que estava sentada numa 
poltrona, chorando histericamente. 
   A senhorita  a nica pessoa que pode nos ajudar   disse o comissrio Dowling. 
 Ashley olhou para todos eles e assentiu. Ela respirou fundo vrias vezes. 
   Eu... eu vou tentar. 
   Vamos comear pelo princpio. O delegado Blake passou a noite aqui?
   Passou, sim. Eu tinha pedido a ele. Eu estava desesperada de medo. 
   Este apartamento tem um quarto. 
   Isso mesmo. 
   Onde o delegado Blake dormiu?
 Ashley apontou para o sof, que tinha um cobertor e um travesseiro em cima. 
   Ele... ele passou a noite ali. 
   A que horas a senhorita foi dormir?
 Ashley pensou um instante. 
   Deve... deve ter sido em torno da meia noite. Eu estava nervosa. Ns tomamos ch juntos e conversamos um pouco, at que me senti mais calma. A, eu trouxe os 
cobertores, lenis e um travesseiro para ele, em seguida fui para o meu quarto.   Ela estava se esforando para manter o autocontrole. 
   Essa foi a ltima vez que a senhorita o viu?
   Foi. 
   E depois foi dormir?
   No de imediato. Acabei tomando um comprimido para dormir. A prxima coisa de que me lembro  de ser acordada pelos berros de uma mulher no beco.   Ela comeou 
a tremer.
  A senhorita acha que algum entrou neste apartamento e matou o delegado Blake?
   Eu... eu no sei   falou Ashley, desesperada.   Algum tem entrado aqui. Chegaram at a escrever uma ameaa no espelho do banheiro. 
   Ele me falou sobre isso ao telefone. 
   Ele pode ter ouvido alguma coisa e ido l fora investigar   disse Ashley
 O comissrio Dowling balanou a cabea. 
   Eu acho que ele no teria ido l fora nu. 
   Eu no sei! Eu no sei! Isto  um pesadelo   gritou Ashley, cobrindo os olhos com as mos. 
 O comissrio Dowling falou:
   Eu gostaria de dar uma olhada no apartamento. Vou precisar de um mandato de busca?
   Claro que no. F fique  vontade. 
 O comissrio Dowling fez um aceno de cabea para os detectives. um deles entrou no quarto. O outro foi para a cozinha. 
   Sobre o que a senhorita e o delegado Blake conversaram?
   Eu contei a ele sobre... sobre as coisas que andam acontecendo comigo. Ele ficou muito...   Ela levantou o rosto e olhou para o comissrio Dowling.   Por que 
algum iria mat lo? Por qu?
 
   Eu no sei, Senhorita Paterson. Ns vamos descobrir. 
 O tenente Elton, o detective que inspeccionara a cozinha, estava parado  porta. 
   Posso falar com o senhor um instantinho, comissrio?
   Com licena. 
O comissrio Dowling entrou na cozinha. 
   O que foi?
   Encontrei isto na pia   disse o tenente. Ele estava segurando, pela borda da lmina, uma faca de carne manchada de sangue.   No foi lavada. Acho que vamos conseguir 
algumas impresses. 
 Kostoff, o segundo detective, saiu do quarto para a sala e entrou apressado na cozinha. Estava segurando um anel de esmeralda, incrustado de diamantes. 
   Encontrei isto aqui na caixa de jias dentro do quarto. 
Atende  descrio que recebemos de Quebeque sobre o anel que Jean Claude Parent deu a Toni Prescott. 
 Os trs se entreolharam. 
   Isto no est fazendo sentido algum   disse o comissrio de polcia. Cuidadosamente, ele pegou a faca de carne e o anel e voltou para a sala. Estendeu a faca 
e disse:   Senhorita Paterson, esta faca  sua?
 Ashley olhou para ela. 
   Eu... , sim. Pode ser. Por qu?
 O comissrio Dowling estendeu o anel. 
   A senhorita j viu este anel antes?
 Ashley olhou para ele e balanou a cabea. 
   No. 
Ashley respirou fundo. 
  Ns o encontramos na sua caixa de jias. 
Eles observaram a expresso dela. Estava completamente atnita. 
Ela sussurrou:
  Eu... algum deve t lo colocado l... 
  Quem faria uma coisa dessas?
O rosto dela estava plido. 
  Eu no sei. 
Um detective entrou pela porta da frente. 
  Comissrio?
  Diga, Baker   Ele levou o detective para um canto.   O que voc conseguiu?
   Encontramos manchas de sangue no tapete do corredor e no elevador. Parece que o corpo foi colocado num lenol, arrastado at o elevador e jogado no beco. 
   Puta merda!   O comissrio Dowling se virou para Ashley
   Senhorita Paterson, est presa. Vou inform la dos seus direitos: tem o direito de permanecer em silncio. Tudo que disser poder ser usado contra a senhorita 
num tribunal de justia. Tem o direito de usar os servios de um advogado. Se no tiver como pagar um advogado, um ser indicado pelos tribunais para defend la.

Quando eles chegaram  delegacia, o comissrio Dowling falou:
   Tirem as impresses digitais dela; podem autu la. 
 Ashley passou pelos procedimentos como um autmato. Depois de concludos, o comissrio Dowling falou:
   A senhorita tem direito a fazer um telefonema. 
 
 Ashley olhou para ele e falou, aptica:
   No tenho para quem telefonar. No posso telefonar para o meu pai. 
 O comissrio Dowling esperou que Ashley fosse levada para uma cela. 
   Quero ser mico de circo se eu conseguir entender isto! Voc viu o teste poligrfico dela? Eu seria capaz de jurar que era inocente. 
O detective Kostoff entrou. 
   Sam praticou sexo antes de morrer. Ns passamos uma luz ultravioleta sobre o corpo dele e o lenol em que estava enrolado. Obtivemos resultado positivo para 
smen e secreo vaginal. Ns... 
 O comissrio Dowling grunhiu. 
   Espere a.   Ele vinha protelando o momento em que teria de dar a notcia  irm. Precisava ser agora. Ele soltou um suspiro e disse:   Logo mais eu volto.

Vinte minutos depois, ele estava na casa de Sam. 
   Ora, mas que prazer inesperado   falou Serena.   Sam est com voc?
   No, Serena. Eu preciso lhe fazer uma pergunta.   Isso ia ser difcil. 
 Ela estava olhando para ele, curiosa. 
   Pois no?
   Voc e Sam tiveram relao sexual nas ltimas vinte e quatro horas?
 A expresso no rosto dela mudou. 
   O qu? Ns... No. O que voc quer. .? Sam no vai voltar, no ?
   Odeio ter de lhe dizer, mas ele... 
   Ele me trocou por ela, no foi? Eu sabia que isto iria acontecer. No posso culp lo. Eu era uma mulher terrvel para ele. Eu... 
   Serena, Sam morreu. 
   Eu estava sempre gritando com ele. No queria agir assim. Eu me lembro... 
 Ele a pegou pelos braos. 
  Serena, Sam morreu. 
  E uma vez, ns estvamos indo para a praia e...
Ele a estava sacudindo. 
   Serena, me escute. Sam est morto. 
  ... e amos fazer um piquenique. 
 Quando a fitou nos olhos, ele percebeu que ela o tinha ouvido. 
   E a ns estvamos na praia e chegou um homem e disse: "Passe o dinheiro. " E Sam falou: "Mostre a sua arma primeiro."
 O comissrio Dowling ficou ali parado e deixou a falar. Ela estava em estado de choque, negando o acontecido. 
  ... esse era o Sam. Eu quero que voc me fale dessa mulher com quem ele fugiu.  bonita? Sam vive me dizendo que eu sou bonita, mas sei que no sou. Ele diz isso 
para me lisonjear, porque me ama. Ele nunca vai me abandonar. Ele vai voltar. Voc vai ver. Ele me ama.   Ela continuou falando. 
 O comissrio Dowling foi at o telefone e discou um nmero. 
   Mande uma enfermeira para c.   Ele foi at a irm e a abraou.   Vai ficar tudo bem. 
 
   Eu lhe contei sobre a vez em que eu e Sam...?
 Quinze minutos depois, chegou a enfermeira. 
   Cuide bem dela   disse o comissrio Dowling.

Houve uma reunio no escritrio do comissrio Dowling. 
   Ligao para voc na linha um . 
 O comissrio Dowling pegou o telefone. 
   Al?
   Comissrio, aqui fala o agente especial Ramirez, da sede do FBI em Washington. Temos algumas informaes para o senhor sobre a srie de assassinatos. No tnhamos 
impresses digitais de Ashley Paterson no arquivo porque ela no tinha antecedentes criminais, e antes de 1988, o departamento de trnsito no exigia a impresso 
do polegar no estado da Califrnia para conceder a carteira de motorista. 
   Prossiga. 
   No incio, achamos que poderia ter havido uma falha do computador, mas fomos verificar e... 
 Durante os cinco minutos que se seguiram, o comissrio Dowling ficou ali ouvindo, com uma expresso de incredulidade estampada no rosto. Quando enfim falou, ele 
disse: 
   Voc tem certeza de que no h erro algum nisso? No parece... Todas elas...? Entendo... Muito obrigado!
 Ele desligou e ficou sentado um longo instante. Enfim, se levantou. 
   Era do laboratrio do FBI em Washington. Eles terminaram de fazer a verificao cruzada das impresses digitais nos corpos das vtimas. Jean Claude Parent, em 
Quebeque, estava saindo com uma inglesa chamada Toni Prescott quando foi assassinado. 
   Correcto. 
   Richard Melton, em So Francisco, estava saindo com uma italiana chamada Alette Peters quando foi assassinado. 
Todos assentiram. 
   E ontem  noite Sam Blake estava com Ashley Paterson. 
   Certo. 
O comissrio Dowling respirou fundo. 
  Ashley Paterson... 
  E da?
  Toni Prescott... 
  Sim?
  Alette Peters... 
  E ento?
  Porra! So todas a mesma pessoa.
 
        Livro Dois
 
        Captulo Onze

Robert Crowther, o corrector de imveis da firma Bryant & Crowther, abriu a porta com um floreio e anunciou:
   Este  o terrao. D para ver a torre Coit daqui. 
 Ele observou o jovem casal caminhar at a balaustrada. A vista era magnfica, a cidade de So Francisco se expandia abaixo deles, formando um panorama espectacular. 
Robert Crowther viu o casal trocar um olhar e um sorriso furtivo e se divertiu com isso. Estavam tentando esconder a empolgao. O padro era sempre igual: Compradores 
em potencial acreditavam que, se mostrassem muito entusiasmo, o preo poderia subir. 
 Por esta cobertura duplex, pensou Crowther com ironia, o preo j  suficientemente alto. Ele estava apreensivo quanto ao poder aquisitivo do casal. O homem era 
advogado, e jovens advogados no ganhavam tanto dinheiro assim. 
 Era um casal atraente, obviamente apaixonado. David Singer tinha pouco mais de trinta anos, era louro e parecia inteligente, com um cativante ar infantil. Sua 
mulher, Sandra, era muito bonita e carinhosa. 
 Robert Crowther percebeu a barriga saliente dela e disse:
   O segundo quarto seria perfeito para uma criana. H uma pracinha a um quarteiro daqui, e duas escolas no bairro.   No deixou de perceber os dois trocando 
aquele sorriso secreto novamente. 
 A cobertura duplex consistia numa sute com banheiro e um segundo quarto no andar de cima. No primeiro andar, havia uma sala de estar bem ampla e outra de jantar, 
uma biblioteca, uma cozinha, um terceiro quarto e dois banheiros. Quase todos os cmodos tinham vista para a cidade. 
Robert ficou observando o casal dar mais uma volta por todo o apartamento. Eles pararam a um canto e conversaram um pouco, aos sussurros. 
   Eu adorei   disse Sandra a David.   E seria ptimo para o beb. Mas, meu bem, ser que ns vamos conseguir pagar? So seiscentos mil dlares. 
   E mais as taxas   acrescentou David.   O lado ruim  que no podemos pagar hoje. O lado bom  que vamos ser capazes de pag lo na quinta feira. O gnio vai sair 
de dentro da lmpada mgica e nossa vida vai mudar. 
   Eu sei   falou ela, alegre.   Que maravilha! 
   E ento, vamos comprar?
 Sandra respirou fundo. 
   Vamos, sim. 
 David abriu um sorriso, fez um amplo gesto com a mo e disse:
   Seja bem vinda  sua casa, Sra. Singer. 
 De braos dados, eles foram at onde Robert Crowther os aguardava. 
   Vamos ficar com este apartamento   falou David. 
  Parabns!  uma das melhores opes de moradia em So Francisco. Vocs vo ser muito felizes aqui. 
   Com certeza. 
   E tiveram sorte. No posso deixar de dizer lhes que temos algumas outras pessoas interessadas nesta cobertura. 
   Qual  o valor da entrada?
 
    um depsito de dez mil dlares agora, j  o bastante. Eu vou mandar preparar a papelada. Quando assinarem a proposta de compra e venda, sero mais sessenta 
mil dlares a pagar. O seu banco pode providenciar um plano de prestaes mensais para quitao em vinte ou trinta anos. 
 David olhou para Sandra. 
   Tudo bem. 
   Vou mandar providenciar a papelada. 
   Podemos dar mais uma olhadela no apartamento?   perguntou Sandra, ansiosa. 
 Crowther exibiu um sorriso benevolente. 
   Pode olhar o tempo que quiser, Sra. Singer. Ele  seu. 
  Parece um sonho maravilhoso, David. Nem consigo acreditar que esteja acontecendo de verdade. 
   Pois est acontecendo.   David a abraou.   Eu quero realizar todos os seus sonhos. 
   Eu sei que quer, meu bem. 
 Eles moravam num pequeno apartamento de dois quartos, no bairro da Marina, mas com a chegada do beb, ficaria pequeno demais. At o momento, no teriam como pagar 
pelo duplex na colina Nob, mas quinta feira seria o Dia do Scio na Kincaid, Tumer, Rose & Ripley, firma internacional de advocacia onde David trabalhava. Dentre 
os 25 possveis candidatos, seis seriam escolhidos para compartilhar o ar rarefeito da sociedade na firma, e todos concordavam que David seria um dos escolhidos. 
Kincaid, Turner, Rose & Ripley, com escritrios em So Francisco, Nova York, Londres, Paris e Tquio, era uma das firmas de advocacia de maior prestigio no mundo, 
e costumava ser o alvo nmero um dos formandos das melhores faculdades de direito. A firma empregava a abordagem da varinha com a cenoura pendurada na ponta para 
os recm chegados. Os scios aproveitavam se deles ao mximo, comprazendo se com as extenuantes jornadas de trabalho dos iniciantes, e jogavam lhes sobre os ombros, 
como se fossem burros de carga, as tarefas mais rduas, com as quais eles prprios j no queriam mais se aborrecer. A presso era grande, trabalho para vinte e 
quatro horas por dia. Isto era a varinha. Os que ficavam, aguentavam de tudo por causa da cenoura. A cenoura era a promessa de uma cota de participao societria 
na firma. Tornar se scio significava um salrio mais alto, uma fatia da grande torta dos enormes lucros da empresa, um escritrio bem amplo com banheiro privativo 
e vista, viagens de negcios ao estrangeiro e inmeras outras mordomias. David havia praticado o direito comercial na Kincaid, Turner, Rose & Ripley por seis anos, 
e isto lhe trouxera benefcios mistos. As jornadas de trabalho eram hediondas; e o estresse, enorme, mas David, determinado a ficar at conseguir a sua cota na 
sociedade, permanecera junto  empresa, sempre com um desempenho primoroso. Agora, afinal, era chegado o dia. 
Depois de se despedirem do corrector de imveis, David e Sandra foram fazer compras. Compraram um bero, uma cadeira de beb, um carrinho de beb, um cercado e 
roupinhas. 
   Vamos comprar alguns brinquedos para ele   falou David. 
   Ainda h muito tempo para isso   riu Sandra. 
 Depois das compras eles passearam a p pela cidade, ao longo do litoral na Ghirli Square, passando pelo Cannery e chegando ao Fisherman's Whar. Almoaram no American 
Bistro. 
 Era sbado, um dia perfeito em So Francisco para pastas de couro e belas gravatas de grife, ternos escuros e camisas discretas, embora tambm de grife; um dia 
para grandes almoos, e coberturas. Dia de advogado! 
 
David e Sandra haviam se conhecido trs anos antes, em um jantar na casa de amigos. David fora acompanhado da filha de um cliente da firma. Sandra era auxiliar 
de justia de uma firma concorrente. Durante o jantar, David e Sandra travaram uma discusso acerca da sentena de um caso poltico em Washington. 
 medida que as demais pessoas sentadas  mesa assistiam, a discusso entre os dois ficou cada vez mais acirrada. E, no auge da discusso, David e Sandra se deram 
conta de que nenhum dos dois se importava com a deciso judicial. Estavam se exibindo um para o outro, engajados numa dana de acasalamento verbal. 
 David telefonou para Sandra no dia seguinte. 
   Eu gostaria de concluir a discusso acerca daquela sentena   falou David.   Acho que  importante. 
   Eu tambm   concordou Sandra. 
   Ser que ns poderamos conversar sobre isso jantando juntos hoje  noite?
 Sandra hesitou. Tinha compromisso para o jantar.
   Est bem   disse, enfim.   Hoje  noite, ento. 
 Ficaram juntos desde aquela noite. Exactamente um ano depois, casaram se. 
 Joseph Kincaid, o scio maioritrio, concedeu o fim de semana a David. 
O salrio de David na Kincaid, Turner, Rose & Ripley era de quarenta e cinco mil dlares anuais. Sandra manteve o seu emprego de auxiliar de justia. Mas agora, 
com a chegada do beb, suas despesas iriam aumentar. 
   Terei de abandonar o meu emprego dentro de alguns meses   falou Sandra.   No quero uma bab criando nosso filho, meu bem. Quero estar aqui com ele.   De acordo 
com a ultra sonografia, seria um menino. 
   Ns vamos dar conta   assegurou lhe David. A participao dele na sociedade do escritrio ia transformar a vida deles. 
 David comeara a trabalhar ainda mais horas por dia. Queria a garantia de no ser relegado no dia da distribuio das cotas.

Quinta feira de manh, enquanto se vestia, David assistiu ao noticirio na televiso. 
 um reprter estava anunciando, esbaforido:
   Passamos agora a uma notcia surpreendente... Ashley Paterson, filha do proeminente mdico de So Francisco, Dr. Steven Paterson, foi presa sob suspeita de ser 
o manaco assassino que a polcia e o FBI vinham procurando... 
 David ficou petrificado diante do aparelho. 
  ... na noite de ontem, o comissrio Dowling de Santa Clara anunciou a priso de Ashley Paterson por uma srie de assassinatos que incluram a sanguinria castrao 
das vitimas. O comissrio Dowling informou aos reprteres: " No h dvida quanto a termos nas mos a pessoa certa. As provas so conclusivas." Dr. Steven Paterson. 
A mente de David voltou no tempo, recordando o passado...

 
Estava com vinte e um anos de idade e era calouro no curso de direito. Certo dia, voltara da faculdade para casa e encontrara a me inconsciente no cho do quarto. 
Ligara para a Central de Emergncias e uma ambulncia havia levado sua me para o Memorial Hospital de So Francisco. David tinha ficado na sala de espera at que 
um mdico fora falar com ele. 
  Ela... ela vai ficar bem?
 O mdico hesitou em falar
   E um dos nossos cardiologistas a examinou. Ela est com uma insuficincia aguda da vlvula mistral. 
   O que isso quer dizer?   indagou David. 
   Sinto muito, mas no h o que possamos fazer por ela. Est fraca demais para um transplante, e a microcirurgia cardaca  nova e arriscada demais. 
David sentiu se enfraquecer
  Quanto... quanto tempo ela...?
   Eu diria mais alguns dias, talvez uma semana. Sinto muito, filho. 
 David ficou ali parado,  beira do pnico. 
   Mas no h ningum que possa fazer alguma coisa por ela?
   Sinto muito ter de dizer que no. O nico que talvez pudesse fazer alguma coisa seria o Steven Paterson, mas ele  um homem muito...
   Quem  Steven Paterson?
   O doutor Paterson  o pioneiro das microcirurgias cardacas. Mas com todos os seus compromissos e a sua pesquisa, no h chance de... 
 David sumiu. 

Ele ligou para o Dr. Paterson de um telefone pblico no corredor do hospital. 
   Eu gostaria de marcar uma consulta com o Dr. Paterson.  para a minha me. Ela... 
   Sinto muito. No estamos aceitando novas consultas. O primeiro horrio vago seria para daqui a seis meses. 
   Ela no pode esperar seis meses   gritou David. 
   Desculpe! Eu posso pass lo para o... 
 David bateu o telefone. 
 Na manh seguinte, David foi ao consultrio do Dr. Paterson. A sala de espera estava lotada. Ele foi at a recepcionista. 
   Eu gostaria de marcar uma consulta com o doutor Paterson. Minha me est muito doente e... 
 Ela olhou para ele e falou:
   Voc telefonou ontem, no foi?
   Telefonei. 
   Eu j lhe disse. No temos mais horrios para consultas e no estamos marcando nada agora. 
   Eu espero   falou David, obstinado. 
   Voc no pode esperar. O doutor est... 
 David se sentou. Ficou olhando as pessoas na sala de espera serem chamadas para o atendimento uma a uma at que, afinal, ele foi o nico que restou. 
 s seis horas da tarde, a recepcionista falou:
   No h mais sentido em esperar. O doutor Paterson j foi para casa. 
David foi visitar sua me na UTI naquela mesma noite. 
   Voc s pode ficar um minuto   advertiu o a enfermeira.   Ela est muito fraca. 
 Ele entrou no quarto, e seus olhos se encheram de lgrimas. 
A me estava ligada a um balo de oxignio, com tubos enfiados nos braos e no nariz. Parecia mais branca do que os lenis da cama. Seus olhos estavam fechados. 

 David se aproximou dela e falou:
 
   Sou eu, mame. No vou deixar que nada lhe acontea. Voc vai ficar boa.   As lgrimas escorriam lhe pelo rosto.   Est me ouvindo? Vamos lutar contra essa coisa. 
Ningum pode connosco, mame, enquanto estivermos juntos. Eu vou conseguir o melhor mdico do mundo. Aguente firme. Eu vou voltar amanh.   Ele se inclinou e deu 
lhe um beijo de leve no rosto. Ser que ela vai estar viva amanh?

Na tarde do dia seguinte, David foi para a garagem no subsolo do prdio onde ficava o consultrio do Dr. Paterson. um manobreiro estacionava os carros. 
 Ele foi falar com David. 
   Posso ajud lo em alguma coisa?
   Estou esperando pela minha mulher   falou David.   Ela est se consultando com o Dr. Paterson. 
 O manobreiro sorriu. 
   Ele  um grande sujeito. 
   Um dia desses, ele estava nos falando sobre o seu carro. 
David ficou em silncio um instante, tentando se lembrar 
  Um Cadillac?
 O manobreiro balanou a cabea. 
   No, no!   Ele apontou para um Rolls Royce estacionado numa vaga do canto.   aquele Rolls ali. 
 David falou:
    isso mesmo! Acho que ele falou que tambm tem um Cadillac. 
   Isso no seria surpresa alguma pra mim   falou o manobreiro, que saiu correndo para estacionar um carro que chegava. 
 David caminhou despretensiosamente at o Rolls Royce. 
 Depois de se certificar de que ningum estava olhando, abriu a porta, entrou, escorregou para o banco traseiro e se jogou no cho. 
 E ali ficou, desconfortavelmente espremido, torcendo para que o Dr. Patterson sasse logo. 
 s 6 e 15 da tarde, sentiu um leve balano quando a porta da frente foi aberta e algum se instalou no assento do motorista. 
David escutou a partida do motor, e o carro logo comeou a andar.
   Boa noite, Dr. Paterson! 
   Boa noite, Marco! 
 O carro saiu da garagem, e David sentiu que estava fazendo uma curva. Aguardou mais dois minutos, respirou fundo e se sentou no banco traseiro. 
 O Dr. Paterson o viu pelo espelho retrovisor. 
   Se for um assalto, no tenho dinheiro algum comigo   disse ele, calmamente. 
   Entre numa rua de pouco movimento e pare o carro. 
 O Dr. Paterson assentiu. David ficou observando, apreensivo, enquanto o mdico entrava por uma rua sem movimento e parava encostado ao meio fio. 
   Eu vou lhe dar os trocados que tenho aqui comigo   disse o Dr. Paterson.   Voc pode levar o carro. No h necessidade de violncia alguma. Se... 
 David j passara para o banco da frente. 
   Eu no vou assalt lo. No quero o carro. 
 O Dr. Paterson olhava para ele, aborrecido. 
 
   Que diabo voc quer?
   Meu nome  Singer. Minha me est morrendo. Eu quero que o senhor a salve. 
 Houve um lampejo de alvio no rosto do Dr. Paterson, logo substitudo por uma expresso de raiva. 
   Marque uma consulta com a minha... 
   No h tempo pra porra de consulta nenhuma!   David estava gritando.   Ela vai morrer, e eu no vou deixar que isso acontea.   Ele estava fazendo um grande 
esforo para se controlar.   Por favor, os outros mdicos me disseram que o senhor  a nica esperana que podemos ter. 
 O Dr. Paterson o estava observando, ainda apreensivo. 
   O que ela tem?
   Ela est com... com uma insuficincia aguda da vlvula mistral. Os mdicos no querem operar. Dizem que o senhor  o nico que pode salvar a vida dela. 
 O Dr. Paterson balanou a cabea. 
   A minha agenda... 
   Eu estou pouco ligando para a sua agenda!  da minha me que estou falando. O senhor tem de salv la. Eu s tenho a minha me na vida... 
 Houve um silncio prolongado. David ficou ali sentado, com os olhos bem fechados. Ele escutou a voz do Dr. Paterson. 
   Eu no prometo nada, mas vou v la. Onde ela est?
 David se virou para olh lo de frente. 
 - Na UTI do Memorial Hospital de So Francisco. 
   V me encontrar l amanh, s oito horas da manh. 
 David teve dificuldade para conseguir que a voz sasse. 
   Eu no sei como lhe... 
   Lembre se: eu no estou prometendo nada. E no gosto de levar sustos assim! Da prxima vez, garoto,  melhor usar o telefone. 
 David ficou sentado, rgido. 
 O Dr. Paterson olhou para ele. 
   O que foi?
   H outro problema. 
   Ah, ?
   Eu... eu no tenho dinheiro. Sou estudante de direito e tive de arranjar um emprego para me sustentar durante a faculdade. 
 O Dr. Paterson estava olhando para ele. 
 David falou apaixonadamente:
   Eu juro que vou encontrar um meio de lhe pagar Nem que leve a minha vida inteira! No vou deixar de lhe pagar. Eu sei quanto custam os seus servios e vou... 

   Filho, eu acho que voc no sabe. 
   Eu no tenho a quem recorrer, Dr. Paterson. Eu... estou implorando, por favor
 Houve mais um silncio. 
  Que ano voc est cursando na faculdade?
  Primeiro. Acabei de entrar. 
  Mas voc espera ser capaz de me pagar?
  Eu juro. 
  V embora. 

 
Quando chegou em casa, David estava certo de que seria preso pela polcia por sequestro, ameaa  integridade fsica, sabe Deus mais o qu! Mas nada aconteceu. 
A questo em sua cabea era se o Dr. Paterson ia aparecer no hospital. 
Quando David entrou na ala da UTI na manh seguinte, o Dr. Paterson j estava examinando sua me. 
 David observou, o corao palpitando e a garganta seca. 
O Dr. Paterson se dirigiu a um dos mdicos que estavam junto
dele. 
   Pode lev la para a sala de operao, A1. Rpido!
 Quando eles comearam a pass la para a maca, David falou quase sem voz:
   Ela vai...?
   Vamos ver
Seis horas depois, David estava na sala de espera, quando o Dr. Paterson se aproximou dele. 
 David se levantou de um pulo. 
   Como  que ela...?   Ele teve medo de terminar a pergunta. 
   Ela vai ficar bem. Sua me  uma mulher forte. 
 David ficou ali parado, tomado por uma arrebatadora sensao de alvio. Fez uma orao em silncio. Obrigado, Senhor!
 O Dr. Paterson o estava observando. 
   Eu nem sequer sei o seu primeiro nome. 
   David, senhor.
   Ora, David, voc sabe por que eu resolvi fazer o que fiz?
   No... 
   Por duas razes. As condies da sua me eram um desafio para mim. Eu gosto de desafios. A segunda razo foi voc. 
   Eu... no entendi. 
   O que voc fez foi o tipo de coisa que eu teria feito quando jovem. Demonstrou muita fora de vontade. Agora   seu tom de voz mudou  , voc disse que ia me pagar
 O corao de David gelou. 
   Certamente, senhor. Um dia... 
   Que tal agora?
 David engoliu em seco. 
   Agora?
   Vou lhe propor um trato. Voc sabe conduzir?
   Sei, sim, senhor... 
   Pois bem. Eu me canso muito dirigindo aquele carro enorme por a. Voc me leva para o trabalho todos os dias pela manh e vai me pegar s seis da tarde durante 
um ano. Ao final desse perodo, vou considerar os meus honorrios pagos... 
 Foi este o trato. David levou o Dr. Paterson de casa para o consultrio e vice  versa todos os dias, e, em troca, o Dr. Paterson salvou a vida da me de David. 

 Durante aquele ano, David aprendeu a reverenciar o Dr. Paterson. Apesar das eventuais exploses de mau humor do mdico, ele era o homem mais desapegado que David 
conhecera. Tinha vnculos profundos com obras de caridade e doava seu tempo livre a clnicas de atendimento gratuito. Durante os deslocamentos entre a casa, o consultrio 
e o hospital, ele e David haviam mantido longas conversas. 
   Em que rea do direito voc pretende se especializar, David?
   Penal, senhor
   Por qu? Para poder ajudar um monte de marginais a se livrar da cadeia?
   No, senhor. H muita gente honesta nas mos da justia que precisa de ajuda,  a essa gente que eu pretendo ajudar. 
 
 Quando o ano acabou, o Dr. Paterson apertou a mo de David e falou:
  Estamos quites... 

David no via o Dr. Paterson havia anos, mas sempre deparava com o nome dele. 
 "O Dr. Paterson abriu uma clnica de atendimento gratuito para bebs aidticos..."
 "O Dr. Steven Paterson chegou ao Qunia hoje para inaugurar o Centro Mdico Paterson..."
 "O Abrigo de Caridade Paterson comeou a funcionar hoje..."
 Ele parecia estar em todo canto, doando seu tempo e seu dinheiro aos que dele precisassem. 
 A voz de Sandra o arrancou de seu devaneio. 
   David, voc est bem?
 Ele afastou os olhos do aparelho de televiso. 
   Acabam de prender a filha de Steven Paterson por aquela srie de assassinatos. 
   Que horror!   disse Sandra.   Eu sinto muito, meu bem. 
   Ele deu  minha me mais sete anos de vida maravilhosa.  injusto que uma coisa dessas acontea a um homem como ele.  o maior cavalheiro que eu j conheci, 
Sandra! No merece isso. Como poderia ter uma filha monstruosa desse jeito?   Ele olhou para o relgio.   Puxa! Vou chegar atrasado. 
   Voc ainda no tomou caf. 
   Estou agitado demais para comer   Ele olhou de relance para a televiso.   Isso a... e hoje  o dia da deciso da sociedade... 
   Voc vai conseguir. No h dvida sobre isso. 
   Sempre h uma dvida sobre isso, querida. A cada ano, algum que todos tinham certeza de j estar com um p l dentro acaba na ala dos perdedores. 
 Ela o abraou e disse:
   A firma tem muita sorte por poder contar com voc. 
 Ele se inclinou e a beijou. 
   Obrigado, amor! No sei o que faria sem voc. 
   E nunca vai precisar saber. No deixe de me telefonar assim que receber a notcia, David. 
   Claro! Vamos sair para comemorar.   E as palavras ficaram reverberando em sua cabea. Anos antes, ele dissera isso para outra pessoa: "Vamos sair para comemorar."
 E a matara. 

Os escritrios da Kincaid, Turner, Rose & Ripley ocupavam trs andares no edifcio Pirmide Transamerica, no centro de So Francisco. Quando David Singer cruzou 
as portas, foi saudado com sorrisos de aprovao. Ele teve a impresso de que havia uma certa diferena na qualidade dos "bom dia". Todos sabiam que estavam cumprimentando 
um futuro scio da firma. A caminho de sua pequena sala, David passou por um escritrio recm decorado, preparado para pertencer a um dos scios escolhidos, e no 
conseguiu deixar de dar uma espiadela. Era amplo e bonito, tinha um banheiro privativo, uma escrivaninha e cadeiras de frente para uma janela panormica com a magnfica 
vista da baa. Ele ficou ali parado um instante, sorvendo aquilo tudo. 
 Quando David entrou na sua sala, sua secretria, Holly, disse:
   Bom dia, Sr. Singer!   A voz soou com um tom meldico. 
 
   Bom dia, Holly!
   Tenho um recado para o senhor. 
   Pois no?
   O Sr. Kincaid gostaria de v lo em sua sala s cinco da tarde.   Ela abriu um amplo sorriso. 
 Ento, estava acontecendo de facto. 
   ptimo! 
 Ela se aproximou de David e falou:
   Acho que eu tambm devo lhe dizer que tomei um cafzinho hoje cedo com Dorothy, a secretria do Sr. Kincaid. Segundo ela, o senhor est no topo da lista. 
 David sorriu. 
   Obrigado, Holly!
   Quer um caf?
   Ah, eu adoraria! 
   Quente e forte, saindo. 
 David foi at a sua mesa. Estava cheia de cartas e contratos e arquivos. 
 Hoje era o dia. Finalmente. O Sr. Kincaid gostaria de v lo em sua sala s cinco da tarde... O senhor est no topo da lista. 
 Ele ficou tentado a telefonar para Sandra com a novidade. 
Algo o conteve. Vou esperar at que acontea, pensou. 

David passou as duas horas seguintes trabalhando no material que estava em cima de sua mesa. s onze horas, Holly entrou. 
   Tem um senhor aqui que quer v lo. Ele se apresentou como Dr. Paterson, mas no marcou... 
 David levantou o rosto, surpreso. 
   O Dr. Paterson est aqui?
   Est. 
 David se levantou. 
   Mande o entrar
 Steven Paterson entrou, e David tentou ocultar sua reaco. 
O mdico estava envelhecido, com ar cansado. 
   Ol, David!
   Dr. Paterson. Por favor, queira sentar se.   David ficou observando, enquanto ele pegava lentamente uma cadeira.   Eu vi o noticirio hoje de manh. No... no 
sei como lhe dizer o quanto fiquei sentido. 
 O Dr. Paterson fez um gesto cansado de reconhecimento. 
   Pois foi um impacto muito grande!   Ele ergueu a cabea.   Eu preciso da sua ajuda, David. 
   Claro   falou David, com disposio.   O que eu puder fazer. Qualquer coisa. 
   Eu quero que voc represente Ashley
Foi necessrio um momento para que as palavras assentassem. 
   Eu no posso fazer isso. No sou advogado criminalista, no posso fazer a defesa. 
 O Dr. Paterson fitou o bem nos olhos e disse:
   Ashley no  criminosa. 
   Eu... O senhor no est entendendo, Dr. Paterson. Eu actuo na rea comercial. Posso recomendar um excelente... 
 
   J recebi telefonemas de meia dzia dos melhores advogados criminalistas. Todos querem represent la.   Ele se inclinou para a frente na cadeira.   Mas nenhum 
est interessado na minha filha. Trata se de um caso badalado; e o que eles querem, David,  s se autopromover. Eles no ligam a mnima para ela. Eu ligo. Ela 
 tudo que eu tenho. 
 "Quero que o senhor salve a vida da minha me. Ela  tudo que eu tenho". David falou:
   Eu gostaria muito de poder ajud lo, mas... 
   Quando saiu da faculdade, voc foi trabalhar numa firma de direito penal. 
 O corao de David comeou a bater mais rpido. 
    verdade, mas... 
   Foi advogado criminalista de defesa durante vrios anos. 
 David assentiu. 
   Fui, sim, mas eu... eu sa dessa rea. Isso foi h muito tempo e... 
   No foi h tanto tempo assim, David. E voc me disse o quanto gostou de trabalhar com isso. Por que parou e foi trabalhar com direito comercial?
 David ficou sentado, em silncio, por instantes. 
   No  importante. 
 O Dr. Paterson pegou uma carta manuscrita e a entregou a David. O advogado conhecia o contedo da carta, sem precisar ler. 

Querido Dr. Paterson, 
 No h palavras para expressar o quanto lhe devo e sou grato por sua enorme generosidade. Se algum dia houver alguma coisa que eu possa fazer pelo senhor, pea 
me, e eu farei sem questionar. 

David ficou de olhos pregados na carta, sem v la. 
  David, fale com Ashley. 
David assentiu. 
  Claro que sim. Vou falar com ela, mas eu... 
O Dr. Paterson se levantou. 
  Obrigado! 
David ficou olhando, enquanto ele caminhava porta afora. 
  Por que parou e foi trabalhar com o direito comercial?
   Porque eu cometi um erro, e uma mulher inocente, a quem eu amava, est morta. Eu jurei que jamais tomaria a vida de algum nas mos outra vez. Nunca. No posso 
defender Ashley Paterson. 
 David apertou o boto do intercomunicador. 
   Holly, por favor, poderia perguntar ao Sr. Kincaid se ele pode me receber agora?
   Pois no, senhor. 

Trinta minutos depois, David estava entrando no sofisticado escritrio de Joseph Kincaid. O scio maioritrio da firma tinha pouco mais de sessenta anos e era um 
homem monocromticamente cinzento, em termos fsicos, mentais e emocionais. 
   Ora   disse ele, assim que David passou pela porta  , voc  um jovem ansioso, no  mesmo? A nossa reunio estava marcada somente para as cinco da tarde. 
 David se aproximou da mesa. 
   Eu sei. Vim aqui para discutir outra coisa, Joseph. 
 Anos antes, David cometera o erro de cham lo de Joe e o velho tivera um acesso. Nunca me chame de Joe. 
   Sente se, David. 
 David se sentou. 
 
   Quer um charuto? Estes so cubanos. 
   No, obrigado! 
   O que voc quer discutir?
   O Dr. Steven Paterson acaba de sair da minha sala. 
   Ele estava no noticirio de hoje cedo   comentou Kincaid.   Que momento difcil ele est passando! O que ele queria com voc?
   Pediu me para defender a filha. 
 Kincaid olhou para David, surpreso. 
   Voc no  advogado criminalista de defesa. 
   Eu disse isso a ele. 
   Ora, e ento?   Kincaid ficou pensativo um momento. 
  Sabe, eu gostaria de ter o Dr. Paterson como cliente. Ele  um homem de muita influncia. Poderia trazer muitos negcios para esta firma. Tem conexes com vrias 
organizaes mdicas que... 
   H mais do que isso. 
 Kincaid olhou para David, intrigado. 
   Ahn?
   Eu prometi que falaria com a filha dele. 
   Entendo. Ora, acho que no h mal algum nisso. Converse com ela, e depois encontre um bom advogado de defesa para represent la. 
    isso que eu tenho em mente. 
   Que bom! Estaremos ganhando alguns pontos junto a ele. Prossiga, ento.   Ele sorriu.  Tornarei a v lo s cinco da tarde. 
   Perfeitamente. Obrigado, Joseph! 
 Enquanto caminhava de volta  sua sala, David foi pensando consigo mesmo: Por que razo deste mundo o Dr. Paterson iria insistir para que eu defendesse sua filha?
 
        Captulo Doze

Na priso de Santa Clara, Ashley Paterson estava sentada em sua cela, traumatizada demais para tentar dar um sentido ao que lhe estava acontecendo. Parecia bastante 
satisfeita por estar na cadeia, pois as grades manteriam afastado quem quer que estivesse fazendo isso com ela. Deixou se envolver pela cela como se esta fosse 
um cobertor, tentando afugentar as coisas horrveis e inexplicveis que lhe estavam acontecendo. Toda a sua vida se tornara um pesadelo hediondo. Ashley pensou 
em todos os factos misteriosos que vinham ocorrendo: algum entrando em seu apartamento para assust la... a viagem para Chicago... o bilhete no espelho... e agora 
a polcia acusando a de atrocidades das quais nada sabia. 
Havia alguma conspirao terrvel contra ela, mas Ashley no fazia idia de quem poderia estar por trs disso tudo, nem por qu. 
 De manh bem cedo, um dos guardas viera at a cela de Ashley
   Visita. 
 O guarda conduzira a para a sala de visitas, onde o pai esperava por ela. 
 Ele estava parado, olhando a fixamente, com os olhos pesarosos. 
   Querida... eu no sei o que dizer
   Eu no fiz nenhuma dessas coisas horrorosas que eles esto dizendo   sussurrou Ashley
   Eu sei que voc no fez nada. Algum cometeu um engano terrvel, mas ns vamos endireitar tudo. 
 Ashley olhou para o pai e perguntou a si mesma como pudera ter achado que era ele o culpado. 
  ... no se preocupe   disse ele.   Tudo vai acabar bem. Estou providenciando um advogado para voc. David Singer.  um dos jovens mais brilhantes que conheo. 
Ele vir conversar com voc. Eu quero que voc lhe conte tudo. 
 Ashley olhou para o pai e disse, desesperanosa:
   Papai, eu... eu no sei o que contar a ele. No sei o que est acontecendo. 
   Vamos chegar ao fundo disso tudo, minha filha. Eu no vou deixar ningum mago la. Ningum! Jamais! Voc  muito importante para mim.  tudo o que eu tenho, 
minha querida. 
   E voc  tudo que eu tenho   sussurrou Ashley

O pai de Ashley permaneceu ali mais uma hora. Quando ele saiu, o mundo de Ashley se reduziu  pequena cela em que estava confinada. Ela se deitou em seu catre, 
forando se a no pensar em nada. Tudo h de acabar logo, e eu vou descobrir que isto  apenas um sonho... Apenas um sonho... Apenas um sonho... Ela adormeceu. 

A voz de um guarda despertou a. 
   Visita para voc. 
 Ela foi levada  sala de visitas, e Shane Miller estava l, esperando. 
 Ele se levantou quando Ashley entrou. 
   Ashley... 
 O corao dela comeou a palpitar
   Oh, Shane!   Ela nunca ficara to feliz de ver algum em sua vida. De alguma forma, sabia que ele viria e a libertaria, que daria um jeito de solt la. 
 
   Shane, estou to feliz de v lo aqui!
   Eu estou feliz de v la tambm   falou Shane desajeitadamente. Ele olhou ao redor da bolorenta sala de visitas.   Embora eu deva dizer, no nestas circunstncias. 
Quando fiquei sabendo do ocorrido, eu... nem pude acreditar! O que aconteceu? O que a levou a fazer uma coisa dessas, Ashley?
 As cores foram se esvaindo do rosto dela. 
   O que me levou...? Voc acha que eu...?
   No importa   apressou se Shane em dizer   No diga mais nada. Voc no deveria falar com ningum alm do seu advogado. 
 Ashley ficou ali parada, fitando o com firmeza. Ele acreditava que ela era culpada. 
   Por que voc veio aqui?
   Ora, eu... detesto ter de fazer isto agora, mas diante... diante das circunstncias, eu... a empresa a est despedindo. Sabe, naturalmente, no podemos arcar 
com uma conexo a algo hediondo deste teor. J basta constar em todos os jornais que voc trabalha para a Global. Voc est entendendo, no est? No h nada pessoal 
nisto. 

Dirigindo seu carro a caminho de San Jos, David Singer decidiu o que ia dizer a Ashley Paterson. Ele descobriria o que pudesse com ela e, ento, passaria as informaes 
para Jesse Quiller, um dos melhores advogados criminalistas de defesa do pas. Se havia algum capaz de ajudar Ashley, esse algum era Jesse. 
David foi levado ao escritrio do comissrio Dowling. Ele entregou seu carto ao policia. 
   Eu sou advogado. Estou aqui para ver Ashley Paterson e... 
   Ela est  sua espera. 
 David olhou para ele, surpreso. 
   Est  minha espera?
   Est.   O comissrio Dowling se virou para o delegado e fez um gesto com a cabea. 
 O delegado falou para David:
   Por aqui. 
 Ele o conduziu  sala de visitas e, poucos minutos depois, Ashley foi trazida de sua cela. 
 Ashley Paterson foi uma completa surpresa para David. Ele a vira uma vez, anos atrs, quando frequentava a faculdade de direito e trabalhava como motorista para 
o pai dela. Ficara com a impresso de uma menina inteligente e bonita. Agora, David se via diante de uma mulher jovem e bela, com olhos amedrontados. 
Ela se sentou diante dele. 
   Ol, Ashley! Meu nome  David Singer
   Meu pai me disse que voc viria.   Sua voz saiu estremecida. 
   Eu s vim fazer algumas perguntas. 
 Ela assentiu. 
   Antes de mais nada, fique tranquila, pois tudo o que voc me disser ser mantido como informao confidencial. Restrito a ns dois. Mas eu preciso saber a verdade. 
  Ele hesitou. No tinha pretendido ir to longe assim, mas queria ser capaz de dar a Jesse Quiller todas as informaes que pudesse para convenc lo a pegar o 
caso.   Voc matou aqueles homens?
   No.   A voz de Ashley ressoou com convico.   Eu sou inocente. 
 
 David tirou uma folha de papel do bolso e olhou de relance. 
   Voc conhecia Jim Cleary?
   Conhecia. Ns... ns amos nos casar. Eu no teria razo alguma para fazer mal a ele. Eu o amava. 
 David analisou Ashley por um instante, depois olhou para a folha de papel novamente. 
   E Dennis Tibble?
   Dennis trabalhava na mesma empresa que eu. Estive com ele na noite em que foi assassinado, mas no tive nada a ver com isso. Eu estava em Chicago. 
 David observava o rosto de Ashley
   Voc tem de acreditar em mim. Eu no tinha razo para mat lo. 
   Tudo bem   disse David. Tornou a olhar rapidamente para a folha de papel.   Qual era o seu relacionamento com Jean Claude Parent?
   A polcia me perguntou sobre ele. Nunca ouvi falar em tal pessoa. Como eu poderia ter matado algum que nem sequer conheo?   Ela olhou para David, com um ar 
de splica.  Voc consegue enxergar? Eles pegaram a pessoa errada. Prenderam a pessoa errada.   Ashley comeou a chorar   Eu no matei ningum. 
   Richard Melton?
   Tambm no sei quem . 
 David aguardou at que Ashley recuperasse o autocontrole. 
   E quanto ao delegado Blake?
 Ashley balanou a cabea. 
   O delegado Blake passou a noite no meu apartamento para me proteger. Algum andava me importunando e ameaando. Eu dormi no meu quarto e ele dormiu no sof da 
sala. A... encontraram o corpo dele no beco.   Os lbios dela tremiam.   Por que eu iria mat lo? Ele estava me ajudando!
 David estava estudando Ashley, intrigado. H algo muito errado por aqui, pensou. Ou ela est dizendo a verdade ou  uma grande actriz! Ele se levantou. 
   Com licena! Eu volto j. Quero falar com o comissrio de polcia. 
 Dois minutos depois, ele estava no escritrio do comissrio. 
   E ento, falou com ela?   perguntou o comissrio Dowling. 
   Falei. Acho que o senhor est numa situao difcil, comissrio. 
   O que isso quer dizer, Sr. Singer?
   Quer dizer que talvez vocs tenham se precipitado ao efectuar esta priso. Ashley Paterson nem sequer conhece duas das pessoas que a esto acusando de ter matado. 

Um pequeno sorriso delineou se nos lbios do comissrio Dowling. 
   Ela tambm o enganou, hein? Sem dvida que nos enganou a todos! 
   Do que o senhor est falando?
 
   Vou lhe mostrar, meu jovem.   Ele abriu um fichrio em cima da mesa e entregou alguns papis a David.   Estas so as cpias dos relatrios dos legistas e do 
FBI, dos laudos de DNA e dos relatrios da Interpol sobre os cinco homens que foram assassinados e castrados. Todos eles tiveram relao sexual com uma mulher antes 
de serem mortos. Havia resqucios de secreo vaginal e impresses digitais em todas as cenas dos crimes. Supunha se haver trs mulheres envolvidas. Bem, o FBI 
comparou todas as provas, e sabe o que os laboratrios descobriram? As trs mulheres provaram ser Ashley Paterson. Os testes das amostras de DNA e das impresses 
digitais colectadas em todos os assassinatos deram resultados positivos na comparao com os dela. 
 David estava olhando para ele, incrdulo. 
   Tem... tem certeza?
   Ora essa! Mas  claro. A menos que o senhor prefira acreditar que a Interpol, o FBI e cinco mdicos legistas estejam todos interessados em incriminar a sua cliente. 
Est tudo a, meu caro. Um dos homens que ela matou era o meu cunhado. Ashley Paterson vai ser julgada por homicdio em primeiro grau e vai ser condenada. O senhor 
deseja mais alguma coisa?
   Desejo, sim.   David respirou fundo.   Eu gostaria de ver Ashley Paterson mais uma vez. 
Eles a trouxeram de volta  sala de visitas. Assim que ela entrou, David perguntou, com raiva:
   Por que voc mentiu para mim?
   O qu? Eu no menti para voc. Eu sou inocente. Eu... 
   Eles tm provas contra voc em quantidade suficiente para electrocut la uma dzia de vezes. Eu lhe disse que queria a verdade. 
 Ashley passou um minuto inteiro olhando para ele e, quando resolveu falar, disse o seguinte, com a voz tranquila:
   Eu lhe disse a verdade. No tenho mais nada a dizer. 
 Ao ouvi la, David pensou: Ela acredita mesmo no que est dizendo. Acho que  um caso de esquizofrenia. O que eu vou dizer a Jesse Quiller?
   Voc aceitaria conversar com um psiquiatra?
   Eu no... aceito, sim. Se voc quiser que eu converse. 
   Vou providenciar. 
 No percurso de volta a So Francisco, David pensou: Eu cumpri com a minha parte. Falei com ela. Se ela realmente acha que est dizendo a verdade, s pode ser porque 
est com problemas mentais. 
Vou pass la para Jesse, que vai alegar insanidade, e chegamos ao fim da histria. 
Seu corao se voltou para Steven Paterson. 

No Memorial Hospital de So Francisco, o Dr. Paterson estava recebendo as condolncias dos colegas. 
    uma grande pena, Steven! Voc no merece passar por uma coisa dessas... 
   Deve estar sendo um fardo muito pesado para voc! Se houver qualquer coisa que eu possa fazer... 
   Eu no sei o que d nessas crianas de hoje em dia! Ashley sempre pareceu to normal... 
 E por trs de cada expresso de pesar, havia o pensamento:
Graas a Deus no  a minha filha! 

De volta  firma, David foi logo ao encontro de Joseph Kincaid. Kincaid olhou para ele e falou:
   Ora! J so mais de seis da tarde, David, mas eu esperei voc voltar. Esteve com a filha do Dr. Paterson?
   Estive, sim. 
   E encontrou um advogado para defend la?
 David hesitou. 
 
   Ainda no, Joseph. Estou providenciando a visita de um psiquiatra. Voltarei amanh de manh para falar com ela de novo. 
 Joseph Kincaid olhou para David, intrigado. 
   mesmo? Francamente, estou surpreso de ver que voc se envolveu a esse ponto. Naturalmente, no podemos ter a nossa firma envolvida num caso to chocante como 
este promete ser. 
   No estou envolvido de facto, Joseph. S que eu devo muito ao pai dela! Fiz uma promessa a ele. 
   No h nada em papel, h?
   No. 
   Ento, trata se apenas de uma obrigao moral?
 David o estudou por um momento, e j ia dizendo algo, mas parou. 
   Exactamente.  s uma obrigao moral. 
   Pois bem! Depois que voc resolver a sua parte com a Senhorita Paterson, volte para conversarmos. 
 Nem uma palavra sobre a participao na sociedade. 

Ao chegar em casa naquela noite, o apartamento estava s escuras. 
   Sandra?
 No houve resposta. Quando David j ia acendendo as luzes do hall, Sandra apareceu de repente, saindo da cozinha com um bolo nas mos, cheio de velas acesas. 
   Surpresa! Vamos comemorar.   Ela viu a expresso no rosto de David e parou.   Alguma coisa errada, querido? Voc no conseguiu, David? Eles deram para outra 
pessoa?
   No, no   asseverou ele.   Est tudo bem. 
 Sandra colocou o bolo sobre a mesa e foi para perto dele. 
   Alguma coisa est errada. 
   S que houve... houve um adiamento. 
   A sua reunio com Joseph Kincaid no foi hoje?
   Foi, sim. Sente se, querida. Ns precisamos conversar. 
 Eles se sentaram no sof, e David falou:
   Surgiu algo totalmente inesperado. Steven Paterson me procurou hoje cedo. 
   Procurou? Sobre o qu?
   Quer que eu defenda a filha dele. 
 Sandra olhou para ele, surpresa. 
   Mas, David... voc no ... 
   Eu sei. E tentei dizer isso a ele. Mas eu j pratiquei o direito penal. 
   Mas voc no est mais nessa rea! Contou a ele que est prestes a se tornar scio da firma?
   No. Ele insistiu muito, alegando que eu era o nico que poderia defender sua filha. Isso no faz sentido algum,  claro. Eu tentei sugerir Jesse Quiller, mas 
ele no quis escutar. 
   Ora essa! Mas vai ter de conseguir outra pessoa. 
   Claro. Eu prometi conversar com a filha dele e fui at l. 
 Sandra se recostou no sof. 
   O Sr. Kincaid est ciente disso?
   Est. Contei a ele. No ficou entusiasmado.   David imitou a voz de Kincaid.   "Naturalmente, no podemos ter a nossa firma envolvida num caso to chocante como 
este promete ser"
   Como  a filha do Dr. Paterson?
   Em termos mdicos... delirante. 
 
   Eu no sou mdica   disse Sandra.   O que isso significa?
   Significa que ela realmente acredita ser inocente. 
   Isso no  possvel?
   O comissrio de Cupertino me mostrou o dossi dela. O DNA e as impresses digitais dela esto por todo canto nas cenas dos crimes. 
   O que voc vai fazer agora?
   Liguei para Royce Salem. o psiquiatra que o escritrio
de Jesse Quiller usa. Vou pedir que examine Ashley e entregue o laudo ao pai dela. O Dr. Paterson poder procurar outro psiquiatra, se quiser, ou entregar o laudo 
a qualquer advogado que v ficar com o caso. 
   Entendi.   Sandra estudou o rosto conturbado do marido.   O Sr. Kincaid falou alguma coisa sobre a participao na sociedade, David?
 Ele balanou a cabea. 
   No. 
 Sandra concluiu, alegre:
   Mas vai falar. Amanh ser outro dia. 
O Dr. Royce Salem era um homem alto, magro, com uma barba igual  de Sigmund Freud. 
 Talvez seja s uma coincidncia, disse David a si mesmo. Certamente ele no est tentando se parecer com Freud! 
   Jesse fala sempre em voc   disse o Dr. Salem.   Ele gosta muito de voc. 
   Eu tambm gosto muito dele, Dr. Salem. 
   O caso Paterson parece ser muito interessante. Obviamente, obra de um psicopata. voc est pensando em alegar insanidade?
   Na verdade   disse  lhe David  , no vou ficar com o caso. Antes de conseguir um advogado para ela, eu gostaria de obter uma avaliao do seu estado mental. 
  David passou para o Dr. Salem um resumo dos factos, conforme os conhecia.   Ela se diz inocente, mas as provas mostram ter sido quem de facto cometeu os crimes. 

   Ora, vamos dar uma olhada na psique da moa, ento?

A sesso de hipnose foi marcada para a sala de interrogatrios da priso de Santa Clara. O mobilirio da sala consistia numa mesa rectangular e quatro cadeiras 
de madeira. 
 Ashley, plida e retrada, foi levada  sala por uma carcereira. 
   Eu vou esperar do lado de fora   disse ela, saindo em seguida. 
   Ashley, este  o Dr. Salem. Ashley Paterson   falou David. 
   Ol, Ashley   disse o mdico. 
 Ela ficou parada, olhando nervosamente de um para o outro, calada. David teve a impresso de que ela estava prestes a fugir da sala. 
   De acordo com o Sr. Singer, voc no faz objeco quanto a ser hipnotizada. 
 Silncio. 
 O Dr. Salem prosseguiu:
   Ashley, posso hipnotiz la?
 Ashley fechou os olhos por um segundo e assentiu. 
   Pode. 
   Podemos comear agora?
   Bem, eu vou dar um passeio por a   falou David.   Se... 
 
   Espere um momento.   O Dr. Salem chegou perto de David.   Eu quero que voc fique. 
 David permaneceu l, mas frustrado. Estava arrependido de ter ido to longe. No vou me aprofundar nem mais um pouco, decidiu. J cheguei ao fim. 
   Tudo bem   disse ele, relutante. Estava ansioso para dar aquilo por encerrado, a fim de que pudesse voltar logo para o escritrio. A reunio que teria mais tarde 
com Kincaid seria decisiva para o seu futuro. 
 O Dr. Salem falou para Ashley:
  Por que voc no se senta nesta cadeira?
Ashley sentou se. 
  J foi hipnotizada antes, Ashley?
Ela hesitou um instante, depois balanou a cabea. 
  No. 
  No h nada de mais. Tudo que precisa fazer  relaxar e prestar ateno  minha voz. No h com que se preocupar. Ningum vai machuc la. Sinta os msculos relaxando. 
Isso mesmo. Basta relaxar e sentir os olhos ficando pesados. Voc tem passado por muita coisa. Seu corpo est cansado, muito cansado. Tudo que voc quer agora  
adormecer. Feche os olhos e relaxe. Voc est ficando com sono... com muito sono... 
 O Dr. Salem levou cinco minutos para fazer com que ela se entregasse. E, ento, aproximou se. 
   Ashley, voc sabe onde est?
   Sei. Estou na cadeia.   A voz dela soou oca, como se tivesse sido emitida  distncia. 
   E sabe por que est na cadeia?
   As pessoas esto achando que eu fiz uma coisa ruim. 
   E  verdade o que elas esto achando? Voc fez alguma coisa ruim?
   No. 
   Ashley, voc alguma vez na sua vida matou algum?
   No. 
 David olhou para o Dr. Salem, surpreso. As pessoas no falam a verdade quando esto sob hipnose?
   Voc faz idia de quem possa ter cometido esses assassinatos?
 De repente, o rosto de Ashley se contorceu e ela comeou a respirar com dificuldade, em arfadas curtas e speras. Os dois homens ficaram se entreolhando, estupefactos, 
 medida que a personalidade dela ia se alterando. Os lbios de Ashley se apertaram e seus traos comearam a se modificar. Ela se endireitou na cadeira, assumiu 
uma postura empertigada, e subitamente seu rosto se iluminou com vivacidade. Ela abriu os olhos, e eles estavam cintilantes. A transformao foi impressionante. 
Inesperadamente, ela comeou a cantarolar, a voz cheia de volpia e com sotaque britnico. 

"Duzentos gramas de arroz barato, 
Duzentos gramas de melado. Agora, 
Misture bem para ficar gostoso, 
Mas a lontra   pluft!   foi embora. "

David escutou, atnito. Quem ela pensa que est enganando? Est fingindo ser outra pessoa. 
  Quero lhe fazer mais algumas perguntas, Ashley
Ela fez um trejeito com a cabea e falou com sotaque britnico:
 
   Eu no sou Ashley
 O Dr. Salem trocou um olhar com David e voltou a se dirigir a Ashley
   Se voc no  Ashley, quem , ento?
   Toni. Toni Prescott. 
 Ashley est representando muito bem, pensou David. Quanto tempo ainda pretende continuar com esta farsa? Ela estava desperdiando o tempo deles. 
   Ashley   disse o Dr. Salem. 
   Toni. 
 Ela est determinada a continuar com isso, pensou David. 
   Tudo bem, Toni. Eu gostaria que... 
   Quem vai dizer o que gostaria sou eu. Eu gostaria de sair desta porcaria de lugar. Voc pode nos tirar daqui?
   Isso depende   falou o Dr. Salem.   O que voc sabe a respeito de... 
  ... daqueles assassinatos que trouxeram a dona Maria Certinha pra c? Eu posso lhe contar coisas que... 
 A expresso de Ashley subitamente comeou a mudar de novo. David e o Dr. Salem ficaram observando, enquanto Ashley parecia encolher na cadeira, o rosto suavizando 
se e sofrendo uma incrvel metamorfose, at que ela pareceu se transformar em outra personalidade distinta. 
   Toni... no fale mais nada, perpiacere   disse ela numa voz branda, com sotaque italiano. 
 David observou aquilo, atnito. 
   Toni?   O Dr. Salem se aproximou um pouco mais. 
 A voz suave e branda disse:
   Peo desculpas pela interrupo, Dr. Salem. 
  Quem  voc?   perguntou o mdico. 
  Meu nome  Alette. Alette Peters. 
 Meu Deus, isso no  uma encenao, pensou David.  verdade. Ele se virou para o Dr. Salem. 
   So alteres   disse o Dr. Salem, tranquilamente. 
 David fitou o mdico, totalmente confuso. 
   So o qu?
   Depois eu explico. 
 O Dr. Salem voltou se para Ashley. 
   Ashley... Quero dizer, Alette... Quantas... Quantas de vocs esto aqui?
   Alm da Ashley, s Toni e eu   respondeu Alette. 
   Voc tem um sotaque italiano. 
   Tenho, sim. Eu nasci em Roma. Voc j foi a Roma?
   No, nunca fui a Roma. 
 No acredito que eu esteja ouvindo esta conversa, pensou David. 
   Molto bello. 
   Com certeza! Voc conhece Toni?
 - Naturalmente. 
   Ela tem um sotaque britnico. 
   Toni nasceu em Londres. 
   Certo. Alette, eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas sobre aqueles assassinatos. Voc faz idia de quem...?
 David e o Dr. Salem viram quando o rosto e a personalidade de Ashley mudaram mais uma vez, bem diante de seus olhos. 
Sem que ela dissesse uma palavra sequer, eles sabiam que ela havia se transformado em Toni. 
   Voc est perdendo tempo com ela, meu caro. 
 
 Eis o sotaque britnico novamente. 
   Alette no sabe de nada. Voc tem de falar comigo. 
   Pois bem, Toni! Vou falar com voc. Tenho perguntas a fazer.
   Estou certa de que tem, mas tambm estou muito cansada.   Ela bocejou.   A dona Babacona nos manteve acordadas a noite inteira. Eu preciso dormir. 
   Agora no, Toni. Escute. Voc precisa nos ajudar... 
 O rosto dela se enrijeceu. 
   E por que eu iria ajudar? O que a dona Maria Certinha fez pela Alette ou por mim? Tudo que ela faz  no deixar a gente se divertir. Ora, eu estou cansada disso 
e tambm estou cansada dela. Est me ouvindo?   Ela estava berrando, o rosto todo contorcido. 
   Vou traz la de volta   disse o mdico. 
 David estava transpirando. 
   Pode trazer. 
 O Dr. Salem se inclinou para perto de Ashley
   Ashley... Ashley... Est tudo bem. Feche os olhos agora. Eles esto pesados, muito pesados. Voc est completamente relaxada. Ashley, sua mente est em paz. 
Seu corpo est relaxado. Voc vai acordar quando eu contar at cinco, completamente relaxada. um ...   Ele olhou para David e depois de novo para Ashley   Dois... 

 Ashley comeou a se mexer. Eles viram sua expresso comear a se modificar. 
   Trs... 
A expresso no rosto dela se suavizou. 
   Quatro... 
 Eles podiam sentir que ela estava voltando, e esta era uma estranha sensao. 
   Cinco. 
 Ashley abriu os olhos. Ela olhou o ambiente ao redor
   Estou sentindo... eu estava dormindo?
 David estava imvel, fitando a, atnito. 
   Estava   disse o Dr. Salem. 
 Ashley se virou para David. 
   Eu disse alguma coisa? Quero dizer. . alguma coisa que pudesse ser til?
 Meu Deus, pensou David. Ela no sabe! Ela realmente no sabe! 
   Voc foi muito bem, Ashley. Eu gostaria de conversar com o Dr. Salem a ss. 
   Pois no. 
   Tornaremos a nos ver mais tarde. 
 Os dois ficaram ali parados, vendo a carcereira levar Ashley. 
 David deixou se afundar na cadeira. 
   Que... que diabo foi aquilo?
 O Dr. Salem respirou profundamente. 
   Em todos os anos da minha prtica profissional, jamais vi um caso to claro e evidente assim. 
    um caso de qu?
   Voc j ouviu falar de distrbio de personalidade mltipla?
   O que  isso?
 
    uma perturbao em que a pessoa convive com vrias personalidades distintas em seu prprio corpo. Tambm  conhecida como distrbio de identidade dissociativa. 
Existe na literatura psiquitrica h mais de duzentos anos. Comea em geral por causa de um trauma de infncia. A vtima obstrui o trauma criando uma nova identidade. 
As vezes a pessoa chega a ter dzias de personalidades ou alteres diferentes. 
   E uma sabe da outra?
   s vezes, sim; s vezes, no. Toni e Alette se conhecem. Ashley, obviamente, no sabe de nenhuma das duas. Os alteres so criados porque o indivduo no consegue 
tolerar a dor do trauma.  uma forma de escapar A cada choque, pode surgir um novo alter. A literatura psiquitrica sobre este assunto mostra que os alteres podem 
ser totalmente distintos uns dos outros. Alguns podem ser aparvalhados, enquanto outros podem ser brilhantes. Podem falar lnguas diferentes. Tm gostos e personalidades 
diversos. 
   E isso... isso  uma coisa comum?
   Alguns estudos sugerem que um por cento de toda a populao sofre de distrbio de personalidade mltipla, e que at vinte por cento de todos os pacientes em 
hospitais psiquitricos sofrem desta perturbao. 
   Mas Ashley parece to normal e...   falou David. 
   As pessoas com distrbio de personalidade mltipla, ou DPM, so normais... at que um alter se manifeste. O indivduo pode ter um emprego, constituir uma famlia 
e levar uma vida perfeitamente normal, mas um alter pode assumir o comando a qualquer instante. E pode ficar no controle durante uma hora, um dia ou at mesmo semanas, 
e ento o indivduo sofre uma amnsia em que se obliteram o tempo e a memria, durante todo o perodo em que o alter est no comando. 
   Ento Ashley... o indivduo... no se lembra de nada que o alter faz?
   Absolutamente nada. 
 David escutou aquilo, como que em transe. 
   O caso mais famoso de distrbio de personalidade mltipla foi o de Bridey Murphy. Foi a primeira vez que o assunto chegou  ateno do pblico. Desde ento, 
houve inmeros casos, mas nenhum to espectacular ou to divulgado. 
   Mas... parece incrvel. 
    um assunto que me fascina h muito tempo. H certos padres que nunca mudam. Por exemplo, os alteres costumam usar as mesmas iniciais que o indivduo... Ashley 
Paterson... Alette Peters... Toni Prescott... 
   Toni...?   David j ia fazendo a pergunta. Mas se deu conta:   Antoinette?
   Correcto. Voc j ouviu a expresso alter ego. 
   Ouvi. 
   De uma certa forma, todos temos alter egos, ou personalidades mltiplas. Um tipo de pessoa  capaz de cometer actos de perversidade. uma pessoa cruel  capaz 
de fazer certas coisas. No h limite para a incrvel quantidade de emoes humanas. O mdico e o monstro  uma fico, mas  baseado em facto real. 
 A mente de David funcionava sem parar
   Se Ashley cometeu os assassinatos... 
   Ela no estaria consciente disso. Os crimes foram cometidos por um de seus alteres. 
   Meu Deus! Como vou explicar isso no tribunal?
 O Dr. Salem olhou para David com curiosidade. 
   Eu tive a impresso de t lo ouvido dizer que no seria o advogado dela. 
 David balanou a cabea. 
 
   E no vou ser. Quero dizer, no sei. Eu... A esta altura, eu mesmo estou com mltiplas personalidades.   David ficou calado um instante.   Isso tem cura?
   Em geral, tem. 
  E se no tiver, o que acontece?
Houve uma pausa. 
  O ndice de suicdios  bastante alto. 
  E Ashley no sabe nada sobre isso?
  No. 
  O senhor... o senhor explicaria isso a ela?
  Claro que sim. 

  No.   Foi um berro. Ela estava em pnico, encolhendo se de encontro  parede da cela, os olhos cheios de terror   Voc est mentindo. Isso no  verdade. 
   Ashley,  verdade   falou o Dr. Salem.   Voc precisa encarar os factos. Eu lhe expliquei que isso que lhe aconteceu no  culpa sua. Eu... 
   No chegue perto de mim. 
   Ningum vai machuc la. 
   Eu quero morrer. Por favor, me ajude a morrer   Ela comeou a soluar descontroladamente. 
 O Dr. Salem olhou para a carcereira e disse:
    melhor dar um sedativo a ela. E mantenha a sob guarda para evitar que se suicide. 

David telefonou para o Dr. Paterson. 
  Preciso conversar com o senhor.
  Eu estava aguardando notcias suas, David. Voc esteve com Ashley?
   Estive. Onde podemos nos encontrar?
   Vou esperar voc no meu consultrio. 
No caminho de volta para So Francisco, David pensou: No h como eu ficar com este caso! Eu s tenho a perder! Vou arranjar um bom advogado criminalista para Ashley 
e acabou se. 

O Dr. Paterson estava esperando David em seu consultrio. 
   Voc conversou com Ashley?
   Conversei. 
   Ela est bem?
 Como vou responder a esta pergunta? David respirou fundo. 
   O senhor j ouviu falar de distrbio de personalidade mltipla?
 O Dr. Paterson franziu o cenho. 
   Vagamente... 
   quando uma ou mais personalidades... ou alteres... existem dentro de uma pessoa e assumem o controle de vez em quando, e a pessoa no tem conscincia disso. 
Sua filha sofre deste distrbio. 
 O Dr. Paterson olhava para ele, atnito. 
   O qu? Eu... eu no posso acreditar. Voc tem certeza?
   Eu presenciei a sesso de hipnose que o Dr. Salem fez com ela. Ashley tem dois alteres. Em vrios momentos, eles assumem o comando sobre ela.   David estava 
falando mais rpido agora.   O comissrio Dowling me mostrou as provas contra sua filha. No h dvida de que foi ela quem cometeu os assassinatos. 
   Oh, meu Deus! Ento ela ... ela  culpada?   falou o dr. Paterson. 
 
   No. Porque eu no acredito que ela tivesse conscincia de t los cometido. Estava sob a influncia de um dos alteres. Ashley no tinha razo alguma para cometer 
esses crimes. No tinha motivo, nem controle sobre si mesma. Acho que o estado ter dificuldades para provar inteno ou dolo. 
   Ento a sua defesa vai se basear em... 
 David o interrompeu. 
   Eu no vou defend la. Vou encaminhar o caso para Jesse Quiller. um brilhante advogado de defesa. Eu j trabalhei com ele e posso dizer que  o mais... 
   No.   A voz do Dr. Paterson foi contumaz.  Voc tem de defend la. 
 David falou, pacientemente:
   O senhor no est compreendendo. Eu no sou a pessoa mais indicada para defend la. Ela precisa... 
   Eu j lhe disse antes que voc  o nico em quem confio. 
Minha filha  tudo para mim, David. Voc vai salvar a vida dela. 
   Eu no posso. No tenho a qualificao para... 
   Claro que tem. Voc j foi advogado criminalista. 
   Fui, mas... 
  No aceitarei mais ningum. 
 David percebeu que o Dr. Paterson estava tentando controlar o prprio temperamento. Isso no faz sentido, pensou David. Tentou outra vez. 
   Jesse Quiller  o melhor... 
 O Dr. Paterson se inclinou para a frente, o rosto voltando a sua cor normal. 
   David, a vida da sua me significava muito para voc. A vida de Ashley tambm significa muito para mim. Voc pediu a minha ajuda uma vez e colocou a vida da 
sua me nas minhas mos. Eu estou pedindo a sua ajuda agora e estou colocando a vida de Ashley nas suas mos. Quero que voc defenda Ashley. Voc me deve isso. 

 Ele no vai ouvir, pensou David, desesperado. O que h com ele? Mais de uma dzia de objeces cruzaram a mente de David, mas todas se esvaram diante daquela 
frase: "Voc me deve isso. "
David tentou uma ltima vez:
   Dr. Paterson... 
   Sim ou no, David?
 
        Captulo Treze

Quando David chegou em casa, Sandra o esperava.
  Boa noite, querido. 
 Ele a abraou e pensou: Meu Deus, ela est adorvel. Quem foi idiota que disse que mulheres grvidas no so bonitas?
 Sandra falou, empolgadssima:
   O beb chutou hoje de novo!   Ela pegou a mo de David e colocou a sobre a barriga.   D para sentir?
 Depois de alguns instantes, David disse:
   No. Ele  muito teimoso!
   A propsito, o Sr. Crowther ligou. 
   Crowther?
   O corrector de imveis. Os papis j esto prontos para serem assinados. 
 David teve uma sensao sbita de enfraquecimento. 
   Uhn!
   Tenho uma coisa para lhe mostrar   disse Sandra com entusiasmo.   No saia daqui. 
 David observou a correr para o quarto e pensou: O que  que eu vou fazer? Preciso tomar uma deciso. 
Sandra voltou para a sala trazendo vrias amostras de papel de parede azul. 
   Vamos fazer o quarto do beb em azul, e a sala de estar em azul e branco, suas cores favoritas. Qual  o tom que voc prefere, o mais claro ou o mais escuro?
 David fez um esforo para conseguir se concentrar
   O mais claro vai ficar bom. 
   Eu tambm gostei. O nico problema  que o tapete vai ser azul escuro. Voc acha que esses dois elementos deveriam combinar? 
 No posso abrir mo da participao na sociedade. Batalhei muito para isso. Significa tudo para mim. 
   David, voc acha que os dois deveriam combinar?
 Ele olhou para ela. 
   O qu? Ah, sim. O que voc achar melhor, meu bem. 
   Eu estou to entusiasmada. Vai ficar lindo. 
 No h como arcar com essas despesas se eu no conseguir a participao na sociedade. 
 Sandra olhou ao redor do pequeno apartamento. 
   Podemos aproveitar alguns destes mveis, mas acho que vamos precisar de muitas coisas novas.   Ela olhou para ele, cheia de ansiedade.   Podemos arcar com isso, 
no podemos, querido? Eu no quero extrapolar. 
   Pode deixar   falou David, distante. 
 Ela se aconchegou ao ombro dele. 
   Vai ser uma vida totalmente nova, no  mesmo? O beb, a participao na sociedade da firma e a cobertura. Eu passei por l hoje. Quis ver a pracinha e a escola. 
A pracinha  linda. Tem escorrega, balano e gangorra. Eu quero que voc v comigo at l no sbado para darmos uma olhada juntos. Jeffrey vai adorar.
Talvez eu consiga convencer Kincaid de que este caso vai ser bom para afirma. 
   A escola parece ptima. Fica a dois quarteires de casa, e no  muito grande. Acho que isso  importante. 
 
David estava prestando ateno a ela agora e pensou: No posso decepcion la. No posso priv la de seus sonhos. Vou dizer a Kincaid amanh de manh que no vou 
ficar com o caso. Paterson que ache outra pessoa! 
    melhor nos aprontarmos, meu amor. Combinamos chegar na casa dos Quiller s oito horas. 
 Era o momento da verdade. David sentiu se tenso. 
   H uma coisa que precisamos conversar. 
   Fale. 
   Eu fui ver Ashley Paterson hoje de manh. 
   Ah, me conte. Ela  culpada? Foi ela quem fez aquelas atrocidades?
   Sim e no. 
   Resposta de advogado. O que isso quer dizer?
   Ela cometeu os assassinatos... mas no  culpada. 
   David...! 
   Ashley tem um problema psiquitrico chamado distrbio de personalidade mltipla. Sua personalidade  dividida, de forma que ela faz coisas sem estar consciente 
disso. 
 Sandra estava de olhos pregados nele. 
   Que horror!
   H duas outras personalidades. Eu as conheci. 
   Voc as conheceu?
   Conheci. E so verdadeiras. Quero dizer, ela no est fingindo. 
   E ela no tem a menor idia de que...?
   Nenhuma. 
   Ento, ela  inocente ou culpada?
   Isso quem decide  o tribunal. O pai dela no quer conversar com Jesse Quiller, de forma que eu vou ter de encontrar outro advogado. 
   Mas Jesse  perfeito. Por que o Dr. Paterson no quer falar com ele?
 David hesitou. 
   Ele quer que eu a defenda. 
   Mas voc contou para ele que no pode, claro. 
   Claro. 
   Ento...?
   Ele no quis me ouvir. 
   O que ele disse, David?
 Ele balanou a cabea. 
   No importa. 
   O que ele disse?
 David respondeu devagar:
   Disse que eu confiei nele a ponto de colocar a vida da minha me nas suas mos, e ele a salvou, e agora ele est confiando em mim a ponto de colocar a vida da 
filha nas minhas mos, e est me pedindo que a salve. 
 Sandra estava analisando o rosto de David. 
   Voc acha que conseguiria?
   No sei. Kincaid no quer que eu pegue o caso. Se eu pegar, posso perder a participao na sociedade. 
   Oh! 
 Houve um silncio prolongado. Quando enfim falou, David disse:
   Eu tenho uma opo. Posso dizer no para o Dr. Paterson e me tornar scio da firma, ou posso defender a filha dele, provavelmente tirando uma licena sem vencimentos, 
e ver depois o que acontece. 
 Sandra escutou tranquilamente. 
 
   H gente muito mais qualificada para pegar o caso de Ashley, mas por alguma razo dos infernos o pai dela no quer saber de mais ningum. Eu no sei por que 
ele est to obstinado com isso, mas o facto  que est irredutvel. Se eu pegar o caso e no me tornar scio da firma, vamos ter de abdicar da mudana. E tambm 
de abrir mo de muitos dos nossos planos, Sandra. 
 Sandra falou baixinho:
  Eu me lembro que, antes de nos casarmos, voc me falou dele. Era um dos mdicos mais ocupados do mundo, mas encontrou tempo para ouvir o que um rapaz sem dinheiro 
algum no bolso tinha a lhe dizer. Ele foi o seu heri, David. Voc disse que, se algum dia ns tivssemos um filho, iria querer que ele fosse igual a Steven Paterson 
quando crescesse. 
 David assentiu. 
   Quando voc tem de decidir?
   Vou estar com Kincaid na primeira hora da manh. 
 Sandra pegou lhe a mo e disse:
   Voc no precisa de todo esse tempo. O doutor Paterson salvou a sua me. Voc vai salvar a filha dele.   Ela olhou para o ambiente em volta deles e sorriu.  
 Ora, a gente pode redecorar este apartamento em azul e branco. 

Jesse Quiller era um dos melhores advogados de defesa criminal no pas. Era um homem alto, robusto, com um jeito simples que fazia os jurados se identificarem com 
ele. Eles sentiam que ele era um igual e queriam ajud lo. Essa era uma das razes pelas quais ele raramente perdia um caso. As outras razes eram sua excelente 
memria fotogrfica e sua mente brilhante. Em vez de tirar frias, Quiller aproveitava os veres para dar cursos de direito, e, anos antes, David fora um de seus 
alunos. Quando David se formou, Quiller o convidou para trabalhar na sua firma de advocacia, e dois anos depois David se tornou seu scio. David adorava a prtica 
do direito penal e se sobressaa nisso. Nunca deixou de manter dez por cento de casos dativos. Trs anos depois da participao na sociedade, David se desligou 
abruptamente da firma e foi trabalhar para a Kincaid, Tumer, Rose & Ripley na rea do direito comercial. Ao longo dos anos, David e Quiller continuaram muito amigos. 
Eles, e suas esposas, jantavam juntos uma vez por semana. Jesse Quiller sempre apreciou as louras sofisticadas, tipo ninfetas altas. At que conheceu Emily e se 
apaixonou por ela. Emily era uma mulher baixinha e rechonchuda, envelhecida precocemente pelo trabalho numa fazenda do estado de Iowa exactamente o oposto das mulheres 
com quem Quiller tinha namorado at ento. Era do estilo me, sempre cuidando de tudo e de todos. Os dois formavam um casal improvvel, mas o casamento funcionava 
porque eles eram perdidamente apaixonados um pelo outro. 
Todas as teras feiras, os Singer e os Quiller jantavam juntos e jogavam um complicado jogo de cartas chamado Liverpool. 
 Quando Sandra e David chegaram  bela casa dos Quiller, na Hayes Street, Jesse foi receb los  porta. 
 Ele abraou Sandra e falou:
   Entrem. O champanhe est no gelo.  um grande dia para voc, hein? Cobertura nova e participao na sociedade. Ou ser participao na sociedade e cobertura 
nova?
 David e Sandra se entreolharam. 
 
   Emily est na cozinha, preparando o jantar para comemorar sua promoo.   Ele olhou para os rostos dos dois.   Eu acho que  um jantar de comemorao. Ser que 
eu no estou sabendo de alguma coisa?
   No, Jesse   disse David.   S que talvez tenhamos um... um probleminha. 
   Vamos entrar. Posso preparar um drinque?   Ele olhou para Sandra. 
   No, obrigada! No quero que o beb adquira maus hbitos. 
    um beb de sorte, com pais como vocs   falou Quiller, carinhosamente. Ele se virou para David:   E voc, vai beber o qu?
   Nada. Obrigado! 
 Sandra encaminhou se para a cozinha. 
   Vou ver se Emily est precisando de ajuda. 
   Sente se, David. Voc est com um ar srio. 
   Estou num dilema   admitiu ele. 
   Deixe me adivinhar. a cobertura ou a sociedade?
   Ambas. 
   Ambas?
   Voc est sabendo do caso Paterson?
   Ashley Paterson? Claro. O que isso tem a ver com...?   Ele parou.   Espere a. Voc me falou de Steven Paterson, na faculdade de direito. Ele salvou a vida de 
sua me. 
   Exacto. Ele quer que eu defenda a filha dele. Tentei passar o caso para voc, mas ele no quer saber de ningum defendendo a filha, excepto eu. 
 Quiller franziu o cenho. 
   Ele est sabendo que voc no atua mais no direito penal?
   Est.  isso que eu no entendo. H dzias de advogados muito mais capazes do que eu para pegar o caso. 
   Ele est sabendo que voc foi advogado criminalista de defesa?
   Est. 
   O que ele sente com relao  filha?   falou Quiller, com certo cuidado. 
 Que pergunta estranha, pensou David. 
   Ela significa mais do que tudo na vida dele. 
   Pois bem. Suponhamos que voc pegue o caso. O lado ruim  que... 
   O lado ruim  que Kincaid no quer que eu o pegue. Se eu resolver ficar com o caso, tenho a impresso de que vou perder a participao na sociedade. 
   Entendi. E  a que entra a cobertura?
    a que entra toda a porcaria do meu futuro   retrucou David, zangado.   Seria uma grande besteira eu fazer isso, Jesse.   Sabe, uma besteira e tanto! 
   Por que voc est zangado?
 David respirou fundo. 
   Porque eu vou fazer essa besteira. 
 Quiller sorriu. 
   Por que ser que eu no estou surpreso?
 David passou a mo pela testa. 
   Se eu no aceitasse defender a filha dele e ela fosse condenada e executada, e eu no fizesse nada para ajud la, eu... no conseguiria viver em paz com a minha 
conscincia. 
   Compreendo. E como  que Sandra est se sentindo com relao a isso?
 
 David conseguiu esboar um sorriso. 
   Voc conhece Sandra. 
   Conheo. Ela quer que voc v em frente. 
   Exacto. 
 Quiller se inclinou para a frente. 
   Eu vou fazer o que puder para ajud lo, David. 
 David soltou um suspiro. 
   No. Esta  a parte que me cabe na transao. Vou ter de conduzir o caso sozinho. 
 Quiller franziu o cenho. 
   Isso no faz sentido algum. 
   Eu sei. E tentei explicar isso ao Dr. Paterson, mas ele se recusou a escutar
   Voc j contou isso a Kincaid?
   Tenho uma reunio marcada para a primeira hora com ele. 
   O que acha que vai acontecer?
   Eu sei o que vai acontecer. Ele vai me aconselhar a no pegar o caso e, se eu insistir, vai me pedir para tirar uma licena sem vencimentos. 
   Vamos almoar amanh, no Rubicon,  uma da tarde?
 David assentiu. 
   Est bem. 
 Emily veio da cozinha, esfregando as mos num pano de prato. David e Quiller se levantaram. 
   Ol, David?   Emily se aproximou com um ar atarefado, e ele a beijou no rosto.   Espero que vocs estejam com fome. O jantar est quase pronto. Sandra est na 
cozinha me ajudando. Ela  to prestativa!   Emily pegou uma bandeja e voltou apressada para a cozinha. 
 Quiller se dirigiu a David:
   Vocs so muito queridos por Emily e por mim. Vou lhe dar um conselho. Esquea aquilo. 
 David ficou calado. 
   J faz muito tempo, David. E o que aconteceu no foi culpa sua. Poderia ter acontecido com qualquer um . 
 David olhou para Quiller. 
   Aconteceu comigo, Jesse. Eu a matei. 

Foi um dja vu. Tudo de novo. E de novo. David ficou sentado, transportado de volta para outro tempo, para outro lugar. 
 Era um caso dativo, e David tinha dito para Jesse Quiller:
   Eu pego. 
Helen Woodman era uma moa adorvel, acusada de ter assassinado a madrasta rica. As duas haviam travado acirradas discusses pblicas, mas todas as provas contra 
Helen eram circunstanciais. Depois de ter ido conversar com ela na cadeia, David ficou convencido de sua inocncia. A cada encontro, ele foi se deixando envolver 
emocionalmente. Por fim, quebrou uma regra bsica: Nunca se apaixonar por uma cliente. 
 
 O desenrolar do julgamento foi bom. David refutou as provas da promotoria uma a uma e conquistou o jri para o lado de sua cliente. E, inesperadamente, um desastre 
ocorreu. O libi de Helen era o de estar num teatro com um amigo na hora do assassinato. Sob interrogatrio no tribunal, o amigo revelou a mentira, e uma testemunha 
alegou ter visto Helen no apartamento da madrasta na hora do crime. A moa perdeu toda a credibilidade. O jri a condenou por assassinato em primeiro grau, e o 
juiz decretou sentena de morte. David ficou arrasado. 
   Como voc pde fazer uma coisa dessas, Helen? Como pde mentir para mim?
   Eu no matei a minha madrasta, David. Quando cheguei ao apartamento dela, eu a encontrei no cho, morta. Tive medo de que voc no fosse acreditar em mim, por 
isso eu... inventei aquela histria de ter ido ao teatro com um amigo. 
 Ele ficou parado, escutando, com uma expresso clnica no rosto. 
   Eu estou lhe dizendo a verdade, David. 
   Est mesmo?   Ele voltou as costas e partiu, furioso. 
 Em algum momento da noite, Helen cometeu suicdio. E uma semana depois, um ex presidirio cao ao praticar um roubo confessou ter assassinado a madrasta de Helen. 

 No dia seguinte, David saiu da firma. Quiller ainda tentou dissuadi lo. 
   No foi culpa sua, David. Ela mentiu para voc, e alm do mais... 
   A  que est! Eu a deixei mentir. No fiz o que me cabia fazer. No confirmei a veracidade do que ela estava dizendo. Quis acreditar nela, e por causa disso, 
eu a decepcionei. 
 Duas semanas depois, David estava trabalhando para a Kincaid, Turner, Rose & Ripley
   Jamais tornarei a me responsabilizar pela vida de outra pessoa   jurou David. 
 E agora ia defender Ashley Paterson.
 
        Captulo catorze

s dez horas da manh seguinte, David entrou no escritrio de Joseph Kincaid, que estava assinando alguns papis e olhou de relance para David quando este entrou. 

   Ah! Sente se, David. Vou acabar num instante. 
 David sentou se e esperou. 
 Quando terminou, Kincaid sorriu e disse:
   Pois bem! Voc me traz boas notcias, no  mesmo?
 Boas notcias para quem?, perguntou se David. 
   Voc tem um futuro brilhante aqui, David, e eu tenho certeza de que no iria fazer nada para prejudicar sua carreira. A firma tem grandes planos para voc. 
 David ficou calado, tentando encontrar as palavras certas. 
   E ento? Voc disse ao Dr. Paterson que encontraria outro advogado para ele?   falou Kincaid. 
   No. Eu decidi que vou defend la. 
 O sorriso de Kincaid se desfez. 
   Voc vai mesmo defender essa mulher, David? Ela  uma assassina perversa, doentia. Quem a defender ficar impregnado com a mesma fama. 
   No estou fazendo isso porque queira, Joseph. Estou sendo obrigado. Eu devo muito ao Dr. Paterson, e esta  a nica maneira que tenho de pagar. 
 Kincaid ficou sentado, em silncio. Quando afinal falou, disse:
   Se essa  realmente a sua deciso, ento eu sugiro que voc tire uma licena. Sem vencimentos,  claro. 
 Adeus participao na firma! 
   Depois do julgamento, naturalmente, volte para ns, e a sua participao na sociedade estar  sua espera. 
 David assentiu. 
   Naturalmente. 
   Vou passar os seus afazeres para Collins. Tenho certeza de que voc j est querendo se concentrar no processo. 

Trinta minutos depois, os scios da Kincaid, Turner, Rose & Ripley estavam reunidos. 
   No podemos deixar que a nossa firma se envolva num caso como esse   objectou Henry Tumer. 
 Joseph Kincaid redarguiu de imediato:
   No estamos envolvidos de facto, Henry. Estamos concedendo uma licena para ele. 
 Albert Rose se pronunciou. 
   Acho que deveramos dispens lo de vez. 
   Ainda no. Seria uma deciso precipitada. O Dr. Paterson poderia ser uma boa fonte de negcios para ns. Ele conhece todo mundo e ter um sentimento de gratido 
por lhe cedermos David. Independente do resultado do julgamento, esta  uma situao em que s temos a ganhar. Se for positivo, ganhamos o mdico como cliente e 
damos a participao na sociedade para Singer. Se for negativo, abrimos mo de Singer e tentamos manter o bom nome pblico. No h lado ruim. 
 Houve um momento de silncio, at que John Ripley abriu um sorriso. 
   Bom raciocnio, Joseph! 

 
Quando saiu do escritrio de Kincaid, David foi encontrar se com Steven Paterson. Telefonara de antemo, e o mdico j o esperava. 
   E ento, David?
 Esta resposta vai mudar a minha vida, pensou David. E no vai ser para melhor. 
   Vou defender a sua filha, Dr. Paterson. 
 Steven Paterson respirou fundo. 
   Eu sabia. Seria capaz de apostar a minha prpria vida.   Ele hesitou um instante.   Estou apostando a vida da minha filha. 
   A firma me concedeu uma licena. Vou contar com a ajuda de um dos melhores advogados de defesa do... 
 O Dr. Paterson ergueu a mo. 
   David, acho que eu deixei bem claro para voc que no quero mais ningum envolvido no caso. Ela est nas suas mos, e somente nas suas mos. 
   Compreendo   falou David.   Mas Jesse Quiller ... 
 O Dr. Paterson se ps de p. 
   No quero ouvir mais nada sobre Jesse Quiller ou sobre qualquer desses outros advogados. Eu conheo os advogados de defesa, David. Eles s esto interessados 
em dinheiro e publicidade. Este caso no  de dinheiro nem publicidade.  de Ashley. 
 David ia falar, mas desistiu. No havia o que dizer. O homem estava aferrado  sua questo. Eu posso lanar mo de toda a ajuda que puder conseguir, pensou David. 
Porque ser que ele no quer deixar?
   Ser que eu me fiz entender?
 David assentiu. 
   Certamente. 
   Os seus honorrios e as suas despesas correro por minha conta,  claro. 
   No.  um caso dativo. 
 O Dr. Paterson o analisou por um breve instante e, em seguida, assentiu. 
   Elas por elas?
   Elas por elas.   David conseguiu esboar um sorriso.   O senhor conduz.
  David, se voc est saindo de licena, vai precisar de dinheiro para viver. Eu insisto. 
   Como o senhor quiser   falou David. 
 Pelo menos no vamos deixar de comer durante o processo. 

Jesse Quiller estava esperando por David no Rubicon. 
   Como foi?
 David soltou um suspiro. 
   Previsvel. Estou de licena, sem salrio. 
   Bando de safados! Como  que eles podem...?
   Eles no tm culpa   interrompeu o David.   Trata se de uma firma conservadora. 
   O que voc vai fazer agora?
   O que voc quer dizer?
 
   O que eu quero dizer? Voc tem nas mos o caso do sculo. No tem mais um escritrio onde trabalhar, no tem acesso a arquivos de pesquisa ou de casos, a livros 
de direito penal, nem sequer a um aparelho de Fax. E eu conheo aquele computador ultrapassado que voc e Sandra tm em casa! Com aquilo ali no vai dar para rodar 
os programas jurdicos nem para entrar na Internet. 
   Eu vou me virar   falou David. 
   Ah, vai, sim! Tem uma sala vazia no meu conjunto de escritrios que voc poder utilizar E vai encontrar tudo de que precisa nela. 
 David levou um certo tempo para recobrar a voz. 
   Jesse, eu no posso... 
   Pode, sim.   Quiller sorriu.   Voc h de encontrar uma forma de me pagar por isso. Voc sempre paga s pessoas, no , santo David?   Ele pegou um cardpio. 
  Eu estou morrendo de fome.   Ergueu os olhos.   A propsito, o almoo  por sua conta. 

David foi visitar Ashley na priso de Santa Clara. 
   Bom dia, Ashley!
   Bom dia!   Ela estava ainda mais plida do que o normal.   Meu pai esteve aqui hoje de manh. Disse que voc vai me tirar daqui. 
 Eu gostaria de ser to optimista assim, pensou David. Ele falou cautelosamente:
   Vou fazer tudo que puder, Ashley. O problema  que no so muitas as pessoas que conhecem o tipo de distrbio que voc tem. Vamos explic lo a todos. Vamos conseguir 
fazer com que os melhores mdicos do mundo venham aqui testemunhar em seu favor. 
   Estou com medo   sussurrou Ashley. 
   De qu?
   Como se duas pessoas diferentes vivessem dentro de mim, pessoas que eu nem sequer conheo.   Sua voz saiu estremecida.   Elas podem assumir o comando a qualquer 
hora, e eu no tenho controle algum sobre elas. Estou morrendo de medo.   Seus olhos se encheram de lgrimas. 
 David falou, tranquilamente:
   Elas no so pessoas, Ashley. Esto dentro da sua mente. Fazem parte de voc. E com o tratamento adequado, voc vai ficar boa. 

Quando David chegou em casa naquela noite, Sandra abraou o e falou:
   Eu j lhe falei alguma vez do orgulho que tenho de voc?
   Porque eu estou sem emprego?   perguntou David. 
   Isso tambm. A propsito, o Sr. Crowther telefonou. 
   O corrector de imveis?
   Ele disse que os papis esto prontos para serem assinados.  hora de dar a entrada de sessenta mil dlares. Eu receio que vamos ter de dizer lhe que no temos 
como pagar... 
   Espere. Eu tenho essa quantia no plano de previdncia da empresa. J que o Dr. Paterson estar cobrindo as nossas despesas, talvez ns consigamos resolver essa 
questo. 
   No precisa, David. Ns no queremos mesmo mimar o beb com uma cobertura, no ?
   Ora, mas eu tenho uma boa notcia. Jesse vai me deixar... 
   Eu sei. Conversei com Emily. Estamos nos mudando para o escritrio de Jesse. 
   Estamos?   perguntou David. 
 
   Voc se esqueceu de que  casado com uma auxiliar de justia. Srio, meu bem, eu posso ajudar em muita coisa. Vou trabalhar com voc at   ela tocou na barriga 
  Jeffrey nascer, e depois a gente v como ficam as coisas. 
   Sra. Singer, voc faz idia do quanto eu te amo?
   No. Mas no se apresse. O jantar s vai ficar pronto dentro de uma hora. 
 Ela colocou os braos em torno do pescoo dele e murmurou:
   Por que voc no tira a roupa, Tigre?
   O qu?   Ele se afastou um pouco e olhou para ela, preocupado.   O que o... o Dr. Bailey acha disso?
   O mdico disse que se voc no tirar a roupa logo, eu terei de atac lo. 
 David sorriu. 
   A palavra dele me basta. 

Na manh seguinte, David se mudou para a sala no conjunto de Jesse Quiller. Era um escritrio completo, integrando um total de cinco salas. 
   Ns o amplimos um pouco desde que voc saiu   explicou Jesse para David.   No vai lhe faltar nada, tenho certeza. A biblioteca jurdica fica ao lado, voc 
tem Fax  sua disposio, computadores, tudo de que precisar. Se no encontrar o que deseja, basta pedir. 
   Obrigado   falou David.   Eu... nem sei como dizer o quanto fico lhe agradecido, Jesse. 
 Jesse sorriu. 
   Voc vai me pagar. Lembra?
 Sandra chegou alguns minutos depois. 
   Estou pronta   disse.   Por onde comeo?
   Vamos comear pesquisando tudo que pudermos sobre julgamentos de casos de personalidade mltipla. Deve haver uma tonelada de material na Internet. Vamos consultar 
o jornal do direito penal da Califrnia, a pgina da TV Jurdica e outros links da rea criminalistica e reunir todas as informaes pertinentes que conseguirmos 
junto a Westlaw e Lexis Nexis. Em seguida, vamos fazer um apanhado de todos os mdicos especializados em problemas de personalidade mltipla; depois, contact los 
para ver se eles se dispem a prestar depoimento como especialistas. Vamos precisar entrevist los para ver se poderemos usar os seus depoimentos como reforo  
nossa defesa. Eu vou ter de repassar os procedimentos de direito penal e me preparar para o exame do jri. Tambm vamos precisar obter uma lista das testemunhas 
arroladas pelo Ministrio Pblico, juntamente com os depoimentos delas. Quero formar todo um pacote com esses procedimentos probatrios. 
   E vamos ter de enviar a nossa lista para eles tambm. Voc pretende chamar Ashley para o banco?
 David balanou a cabea. 
   Ela est muito fragilizada. A promotoria a arrasaria.   Ele olhou para Sandra.   Este caso vai ser muito difcil. 
 Sandra sorriu. 
   Mas eu sei que voc vai ganhar. Eu sei que  capaz. 

David telefonou para Harvey Udell, o contador da Kincaid, Tumer, Rose & Ripley. 
   Harvey! David Singer.
  Al, , David! Estou sabendo que voc vai nos deixar por algum tempo. 
   Vou, sim. 
 
   O caso que voc est pegando  interessante. Os jornais no param de falar nele. O que voc deseja?
   Eu tenho sessenta mil dlares do meu plano de previdncia a, Harvey. Eu no ia retirar agora, mas Sandra e eu acabamos de comprar uma cobertura, e vou precisar 
do dinheiro para dar a entrada   disse David. 
   Uma cobertura! Meus parabns!
   Obrigado! Quando vou poder pegar o dinheiro?
 Decorreu um breve espao de tempo. 
   Eu posso ligar de volta para voc?
   Claro.   David passou para ele o nmero do seu telefone. 
   Eu ligo j. 
   Obrigado! 
 Harvey Udell desligou e logo pegou o aparelho de volta. 
   Avise ao Sr. Kincaid que eu gostaria de falar com ele agora. 
Trinta minutos depois, ele estava no escritrio de Joseph Kincaid. 
   O que foi, Harvey?
   Eu recebi um telefonema de David Singer, Sr. Kincaid. Ele comprou uma cobertura e precisa dos sessenta mil dlares que tem no plano de previdncia para dar a 
entrada. Na minha opinio, no somos obrigados a entregar lhe o dinheiro agora. Ele est de licena e no... 
   Eu me pergunto se ele sabe o quanto custa manter uma cobertura. 
   Provavelmente, no sabe. Eu vou dizer que ele no... 
   D lhe o dinheiro. 
 Harvey olhou para ele, surpreso. 
   Mas ns no temos de... 
 Kincaid se inclinou para a frente da cadeira. 
   Vamos ajud lo a cavar um buraco para si mesmo, Harvey. Assim que der a entrada pela cobertura... ele ser nosso. 

Harvey Udell telefonou para David. 
   Tenho boas notcias, David. Voc est retirando o dinheiro que tem no plano de previdncia antes do tempo, mas no tem problema. O Sr. Kincaid mandou dar o que 
voc quiser. 

  Sr. Crowther! David Singer. 
   Eu estava aguardando notcias suas, Sr. Singer. 
   A entrada para a cobertura est a caminho. Chegar s suas mos amanh. 
   Ora, que maravilha! Conforme eu lhe disse, temos mais gente querendo ficar com ela, mas estou com a impresso de que o senhor e sua esposa so os moradores certos. 
Vocs sero muito felizes l. 
 S que, pensou David, vai ser preciso uma boa meia dzia de milagres. 

 
O depoimento de Ashley Paterson foi prestado no Tribunal Superior de Santa Clara, na rua um  Norte, em San Jos. A disputa legal sobre a jurisdio estendeu se 
por semanas. Foi complicada porque os assassinatos haviam ocorrido em dois pases e dois estados diferentes. uma reunio estava se realizando em So Francisco, 
com a presena do delegado Guy Fontaine, do Departamento de Polcia de Quebeque, o comissrio Dowling, de Santa Clara, o detective Eagan, de Bedford, Pensilvania, 
o capito Rudford, do Departamento de Polcia de So Francisco, e Roger Toland, o comissrio de San Jos. 
   Ns gostaramos de julg la em Quebeque, pois temos provas irrefutveis de sua culpa. No h como ela possa ser considerada inocente l   falou o detective Fontaine. 

   Quanto a isso, ns tambm temos, detective Fontaine. O assassinato de Jim Cleary foi o primeiro que ela cometeu, e eu acho que deve ter prioridade sobre os demais 
  disse o detective Eagan. 
 O capito Rudford, da polcia de So Francisco, falou:
   Senhores, no h dvida de que todos somos capazes de provar a culpa da acusada. Mas trs desses assassinatos ocorreram na Califrnia, e ela deve ser julgada 
aqui por todos eles. Isto nos d uma argumentao muito mais forte. 
   Eu concordo   disse o comissrio Dowling.   E dois deles ocorreram em Santa Clara, ento  esta a jurisdio que deve prevalecer. 
 Eles passaram as duas horas seguintes debatendo os mritos de suas posies e, afinal, decidiram que o julgamento pelos assassinatos de Dennis Tibble, de Richard 
Melton e do delegado Sam Blake seriam conduzidos na sede do Ministrio Pblico de San Jos. Eles concordaram que os assassinatos de Bedford e Quebeque ficariam 
para mais tarde. 

No dia do depoimento, David ficou de p ao lado de Ashley
  A alegao  de culpa ou de inocncia?   perguntou o juiz da comarca. 
   De inocncia; e inocncia por insanidade. 
 O juiz assentiu. 
   Pois bem. 
   Meritssimo, vamos fazer neste instante um pedido de fiana. 
 O representante da promotoria pblica interrompeu. 
   Meritssimo, apresentamos objeco veemente. A r  acusada de trs assassinatos hediondos e est sujeita  pena de morte. Se tivesse nas mos a oportunidade, 
ela fugiria do pas.
   Isto no  verdade   falou David.   No h... 
 O juiz interrompeu o. 
   J analisei os arquivos e o parecer da promotoria negando fiana. Fiana negada. Este caso est nas mos da juza Williams para todos os efeitos. A r ser mantida 
em custdia na priso de Santa Clara at o julgamento. 
 David soltou um suspiro. 
   Perfeitamente, meritssimo!   Ele se virou para Ashley
  No se preocupe. Tudo vai acabar bem. Lembre se: voc no  culpada. 

Quando David voltou para o escritrio, Sandra falou:
   Viu as manchetes? Os tablides esto chamando Ashley de " Meretriz Sanguinria". A histria est em todos os canais de televiso. 
   Ns sabamos que seria uma batalha difcil   falou David.   E isto  s o comeo. Vamos ao trabalho. 
 O julgamento ocorreria em oito semanas. 

 
As oito semanas que se seguiram foram de uma actividade febril. David e Sandra trabalhavam o dia inteiro e costumavam entrar noite a dentro, desencavando transcries 
de julgamentos de rus com distrbio de personalidade mltipla. Havia dzias de casos. 
Rus julgados como assassinos, estupradores, ladres, traficantes de drogas, incendirios... Alguns haviam sido condenados; outros, absolvidos. 
   Vamos conseguir absolver Ashley   falou David para Sandra. 

Sandra cadastrou os nomes de testemunhas importantes e telefonou para todas. 
   Dr. Nakamoto, estou trabalhando com David Singer. Fui informada de que o senhor prestou depoimento no caso. O Estado de Oregon contra Bobannan. O Sr. Singer 
est representando Ashley Paterson... Ah, o senhor sabia? Pois no. Ns gostaramos que o senhor viesse a San Jos para prestar depoimento em favor dela... 
   Dr. Booth, estou ligando da parte do escritrio de David Singer. Ele est defendendo Ashley Paterson. O senhor prestou depoimento no caso Dickerson. Ns estaramos 
interessados no seu depoimento como especialista... Gostaramos que o senhor viesse a San Jos para depor em favor da Senhorita Paterson. Precisamos do seu parecer 
tcnico... 
   Dr. Jameson, quem est falando aqui  Sandra Singer. Ns precisamos que o senhor venha... 
 E assim foi, desde de manh cedo at  meia noite. Afinal, eles cadastraram doze testemunhas. David olhou para a lista e falou: 
   Impressionante! Mdicos, um decano... e alguns catedrticos de faculdades de direito.   Ele ergueu os olhos para Sandra e sorriu.   Acho que estamos indo bem. 


De tempos em tempos, Jesse Quiller entrava no escritrio que David estava usando. 
   Como esto indo as coisas?   perguntou ele.   Posso ajudar em algo?
   Por ora, tudo bem. Obrigado!
 Quiller olhou em torno da sala. 
   Voc tem a tudo de que precisa?
 David sorriu. 
   Tudo, inclusive o meu melhor amigo. 
Na manh de segunda feira, David recebeu um pacote da promotoria pblica listando os procedimentos probatrios do estado.  medida que comeou a ler, ele se sentiu 
desanimado. 
 Sandra o estava observando, apreensiva. 
   O que foi?
   Veja s isto. Esto trazendo um monte de peritos mdicos de peso para testemunhar contra o DPM. 
   Como voc pretende lidar com isso?  perguntou Sandra. 
   Vamos admitir que Ashley estava nas cenas dos crimes, mas que os assassinatos na verdade foram cometidos por um alter ego. Ser que eu consigo convencer um jri 
disso?

Cinco dias antes do julgamento comear, David recebeu um telefonema dizendo que a juza Williams queria v lo. 
 David entrou no escritrio de Jesse Quiller. 
   Jesse, o que voc pode me dizer sobre a juza Williams?
 Jesse se recostou em sua cadeira e entrelaou os dedos atrs da nuca. 
  Tessa Williams... Voc foi escoteiro, David?
  Fui... 
 
   Voc se lembra do lema do escoteiro... "sempre alerta"?
   Claro. 
   Toda vez que entrar na vara de justia da juza Tessa Williams, fique alerta. Ela  brilhante. Subiu da maneira mais difcil. Vem de uma famlia de meeiros da 
regio do Mississipi. Fez o curso tcnico com o auxlio de uma bolsa de estudos, e seus conterrneos tm tanto orgulho dela que se cotizaram para pagar lhe a faculdade 
de direito. Corre o boato de que ela rejeitou uma posio importante em Washington porque gosta de trabalhar onde est. A mulher  uma lenda viva. 
  Interessante   falou David. 
  O julgamento vai ser em Santa Clara?
   Vai, sim. 
   Ento voc vai ter como promotor o meu velho amigo Mickey Brennan. 
   Pode me dizer alguma coisa sobre ele?
    um irlands brigo, duro por dentro, duro por fora. Todos na famlia de Brennan so bem sucedidos. O pai dele tem uma grande editora; a me  mdica; e a irm 
 professora universitria. Brennan foi um famoso jogador de futebol americano na poca da faculdade e se formou como um dos melhores da turma.   Ele se inclinou 
para a frente.   O sujeito  bom, David. Cuidado! O truque dele  desarmar as testemunhas e depois dar o bote mortal. Ele gosta de pegar as pessoas desprevenidas... 
Por que a juza Williams quer conversar com voc?
   No fao idia. O recado que recebi s dizia que ela queria discutir o caso Paterson comigo. 
 Jesse Quiller franziu o cenho. 
   Isso no  comum. Para quando est marcado o encontro com ela?
   Quarta feira de manh. 
   Fique com um p atrs. 
   Obrigado, Jesse! Vou ficar. 

A sede do Ministrio Pblico de Santa Clara  um prdio branco de quatro andares na rua um norte. Na entrada do frum h uma mesa com um guarda uniformizado, um 
detector de metais, uma grade ao lado e um elevador. O edifcio aloja sete varas de justia, cada uma presidida por um juiz e sua equipe. As dez da manh de quarta 
feira, David Singer foi recebido no gabinete da juza Tessa Williams. No recinto, encontrava se tambm Mickey Brennan. O chefe da promotoria pblica era um homem 
dos seus cinquenta e poucos anos, baixo e parrudo, com um leve sotaque irlands. Tessa Williams ainda no havia chegado aos cinquenta e se mantinha esbelta, uma 
bela afro americana de comportamento rspido e autoritrio. 
   Bom dia, Sr. Singer! Eu sou a juza Williams. Este  o Sr. Brennan. 
 Os dois homens apertaram se as mos. 
   Sente se, Sr. Singer. Quero conversar sobre o caso Paterson. Segundo nos consta, o senhor apresentou alegao de inocncia, e inocncia por insanidade?
   Correcto, meritssima. 
 Ajuza Williams disse:
 
   Reuni vocs dois aqui porque acho que podemos economizar muito tempo e poupar ao estado muitas despesas. Normalmente no sou a favor de entrar num acordo de 
alegaes, mas, neste caso, acho que se justifica. 
 David estava escutando, intrigado. 
 A juza se dirigiu a Brennan. 
   Li as transcries da audincia preliminar e no vejo razo para que este caso v a julgamento. Eu gostaria que o estado abrisse mo da pena de morte e aceitasse 
uma alegao de culpa sem a chance de uma condicional. 
   Espere um minuto   falou David.   Isto est fora de cogitao! 
 Os dois se viraram para ele. 
   Sr. Singer... 
   Minha cliente no  culpada. Ashley Paterson passou por um exame no detector de mentiras que prova... 
   Isso no prova nada e, conforme o senhor bem sabe, no  permitido num tribunal. Devido a toda a publicidade, este julgamento ser demorado e confuso. 
   Eu tenho certeza de que... 
   Eu pratico o direito h muito tempo, Sr. Singer. J ouvi tudo o que h para ouvir acerca de alegaes judiciais. J ouvi alegaes de autodefesa...  uma alegao 
aceitvel; assassinato por razo de insanidade temporria...  uma alegao razovel; responsabilidade penal diminuda por doena mental... Mas vou lhe dizer no 
que eu no acredito, doutor "No sou culpada porque no cometi o crime, foi meu alter ego quem o cometeu. " Para usar um termo que no consta no Blackstone, isso 
 uma "baboseira". 
Ou sua cliente cometeu os crimes, ou no os cometeu. Se o senhor mudar para uma alegao de culpa, ns poderemos economizar muito... 
   No, meritssima, eu no vou mudar. 
 A juza Williams analisou David por um instante. 
   O senhor  muito teimoso. H quem ache isso uma qualidade admirvel.   Ela se inclinou para a frente em sua cadeira. 
  Eu, no. 
   Meritssima... 
   O senhor est nos forando a um julgamento que vai durar pelo menos trs meses... talvez mais. 
 Brennan assentiu. 
   Concordo. 
   Sinto muito que estejam achando... 
   Sr. Singer, estou aqui para lhe fazer um favor. Se levarmos sua cliente a julgamento, ela vai morrer. 
   Um momento! Sua Excelncia est pr-julgando este caso sem... 
   Pr-julgando o caso? O senhor viu as provas?
   Vi, sim... 
   Pelo amor de Deus, doutor! O DNA e as impresses digitais de Ashley Paterson esto em todas as cenas dos crimes. Nunca vi um caso to bem definido de culpa. 
Se o senhor insistir em levar isso adiante, poder acabar virando um circo. Ora, no vou deixar que isso acontea. No gosto de circos no meu tribunal. Vamos resolver 
este caso aqui e agora. Vou lhe perguntar mais uma vez... o senhor aceita mudar a alegao de sua cliente e ficar com uma priso perptua sem direito  condicional?
   No   respondeu David obstinadamente. 
 Ela o fitou com tenacidade. 
 
   Perfeitamente! Vejo o senhor na semana que vem. 
 Ele tinha acabado de fazer uma inimizade.
 
        Captulo Quinze

San Jos logo assumiu ares de uma cidade em festa. Aportaram representantes da mdia do mundo inteiro. Todos os hotis estavam com as reservas esgotadas, e alguns 
dos jornalistas se viram forados a se hospedar nas cidades vizinhas de Santa Clara, Sunnyvale e Palo Alto. David foi cercado por reprteres. 
   Sr. Singer, a respeito do seu caso, o senhor est alegando a inocncia de sua cliente...?
   O senhor vai levar Ashley Paterson ao banco...?
    verdade que o Ministrio Pblico andou lhe propondo um acordo de alegaes?
   O Dr. Paterson vai testemunhar em favor da filha...?
   Minha revista est disposta a pagar cinquenta mil dlares por uma entrevista com a sua cliente... 

Mickey Brennan tambm estava sendo pressionado pela mdia. 
   Sr. Brennan, o senhor faria alguns comentrios sobre o julgamento?
 Brennan se virou e sorriu para as cmaras de televiso. 
   Claro, eu posso resumir o julgamento em trs palavras. "Ns vamos ganhar". Sem mais comentrios!
   Espere. O senhor acha que ela  doente mental...?
   O estado vai pedir a pena de morte...?
   O senhor chamaria este caso de irrefutvel...?

David alugou um escritrio em San Jos, perto do tribunal, onde poderia entrevistar suas testemunhas e prepar las para o julgamento. Resolveu que Sandra ficaria 
baseada no escritrio de Quiller, em So Francisco, at o incio do julgamento. O Dr. Salem tinha chegado a San Jos. 
   Eu gostaria que o senhor tornasse a hipnotizar Ashley   falou David.   Vamos obter todas as informaes possveis dela e dos alteres antes que comece o julgamento. 


Eles se reuniram com Ashley numa sala da carceragem no centro de deteno da cidade. Ela estava fazendo um grande esforo para ocultar o nervosismo. Aos olhos de 
David, ela mais parecia um cervo aprisionado pelos faris de uma motoniveladora se deslocando em sua direco. 
   Bom dia, Ashley! Est lembrada do Dr. Salem?
 Ashley assentiu. 
   Ele vai hipnotiz la outra vez. Tudo bem?
   Ele vai conversar com as... as outras?   perguntou Ashley
   Vai, sim. Voc se importa?
   No. Mas eu... eu no quero falar com elas. 
   No tem problema. No precisa. 
   Ai, que dio!   Ashley teve um rompante de raiva. 
   Eu entendo   falou David, tentando confort la.   No se preocupe. Logo vai acabar.   Ele assentiu para o Dr. Salem. 
   Fique  vontade, Ashley. Voc se lembra de que foi fcil da outra vez. Basta fechar os olhos e relaxar. Tente esvaziar a mente. Sinta o seu corpo relaxando. 
Oua o som da minha voz. Deixe que tudo o mais se v. Voc est ficando com muito sono. Seus olhos esto ficando muito pesados. Voc quer dormir... Dormir. . 
 
 Em dez minutos, ela estava hipnotizada. O Dr. Salem gesticulou para David, que se dirigiu a Ashley
   Eu gostaria de falar com Alette. Voc est a, Alette?
 Eles viram o rosto de Ashley assumir uma expresso branda, passando pela mesma transformao que tinham presenciado anteriormente. Em seguida, ouviram o sotaque 
italiano, suave e melodioso. 
   Buon giorno! 
   Bom dia, Alette! Como vai?
   Male. Que momento difcil! 
   Est difcil para todos ns   reforou David  , mas tudo vai acabar bem. 
   Assim espero. 
   Alette, eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas. 
  As...
  Voc conheceu Jim Cleary?
  No. 
  Voc conheceu Richard Melton?
   Conheci.   Havia uma tristeza profunda em sua voz.   Foi... foi terrvel o que aconteceu com ele. 
 David voltou os olhos para o Dr. Salem. 
   Foi, sim. Terrvel! Quando voc o viu pela ltima vez? 
   Eu o visitei em So Francisco. Ns fomos a um museu e depois jantamos juntos. Antes de eu ir embora, ele me convidou para ir ao seu apartamento. 
   E voc foi?
   No. Eu gostaria de ter ido   falou Alette, arrependida.   Quem sabe eu no poderia ter salvado a vida dele?   Houve uma pausa breve.   Ns nos despedimos, e 
eu peguei meu carro e voltei para Cupertino. 
   E foi essa a ltima vez em que voc o viu?
   Foi. 
   Obrigado, Alette! 
 David se aproximou de Ashley e falou:
   Toni? Voc est a, Toni? Eu gostaria de conversar com voc. 
 Enquanto eles observavam, o rosto de Ashley sofreu outra transformao notvel. Sua personalidade se modificou diante de seus olhos. Houve uma nova postura, uma 
conscincia sexual. Ela comeou a cantarolar com aquela voz clara e gutural:

"Subindo e descendo a rua da cidade
Entra tosto, sai tosto. Ora, ora! 
 assim que o dinheiro se vai. 
Mas a lontra   pluft!   foi embora. "

 Ela olhou para David. 
   Voc sabe por que eu adoro cantar essa musiquinha, meu caro?
   No. 
   Porque a minha me a odiava. Ela me odiava. 
   Por que ela a odiava?
   Ora, no d mais para perguntar, no  mesmo?   Toni riu.   No onde ela est agora! Para a minha me, nada do que eu fizesse estava correcto. Que tipo de me 
voc teve, David?
   Minha me foi uma pessoa maravilhosa. 
   Voc  um rapaz de sorte, hein? Acho que essa  a sorte do acaso. Deus gosta de jogar com a gente, no gosta?
   Voc acredita em Deus?  uma pessoa religiosa, Toni?
 
   No sei. Talvez haja um Deus. Se houver, ele tem um senso de humor estranho, no  mesmo? Alette  religiosa. Ela  quem vai sempre  igreja, regularmente. 
   E voc?
Toni soltou uma gargalhada breve. 
  Ora, essa! Se ela est l, eu tambm estou. 
  Toni, voc acha que  correcto matar algum?
  No, claro que no!
  Ento... 
  A no ser que seja preciso. 
David e o Dr. Salem trocaram olhares. 
  O que voc quer dizer com isso?
O tom de voz mudou. Ela subitamente se colocou na defensiva. 
   Ora, voc sabe, quando a gente tem de se proteger! Se algum estiver machucando a gente.   Ela estava ficando agitada.   Se algum palerma estiver tentando fazer 
sujeira com a gente. 
  Ela estava ficando histrica. 
   Toni... 
 Ela comeou a soluar. 
   Por que eles no me deixam em paz? Por que tinham de...?   Estava berrando. 
   Toni... 
 Silncio. 
   Toni... 
 Nada. 
   Ela se foi. Eu gostaria de despertar Ashley   disse o Dr. Salem. 
 David soltou um suspiro. 
   Tudo bem. 
 Alguns minutos depois, Ashley estava abrindo os olhos. 
   Como est se sentindo?   perguntou David. 
   Cansada. Eu... foi tudo bem?
   Foi. Falamos com Alette e Toni. Elas... 
   Eu no quero saber. 
   Tudo bem. Por que no vai descansar agora, Ashley? Voltarei  tarde para v la. 
Eles esperaram at a carcereira lev la embora. 
   Voc precisa cham la ao banco, David. Isso h de convencer qualquer jri no mundo inteiro de que...   disse o dr. Salem. 
   J pensei muito nisso   falou David.   Acho que no posso. 
 O Dr. Salem olhou para ele um instante. 
   Por que no?
   Brennan, o advogado de acusao,  cruel. Ele a destroaria. Eu no posso correr esse risco. 

Dois dias antes do incio das preliminares do julgamento, David e Sandra estavam jantando com os Quiller. 
   Ns nos hospedamos no Wyndham Hotel   falou David.   O gerente me fez um favor especial. Sandra vai ficar comigo. A cidade est mais superlotada do que se poderia 
imaginar. 
   E se j est confuso agora   disse Emily  , imagine como vai ficar quando o julgamento comear!
 Quiller olhou para David. 
   H alguma coisa que eu possa fazer para ajudar?
 David balanou a cabea. 
   Eu preciso tomar uma grande deciso: se levo Ashley ao banco ou no. 
 
   Essa deciso  difcil!   falou Jesse Quiller   Vai ser ruim se voc a levar, e tambm se no a levar. O problema  que Brennan vai construir uma imagem de Ashley 
Paterson como um monstro sdico e assassino. Se voc no a levar ao banco, esta  a imagem que os jurados tero em mente quando se recolherem  sala do jri para 
chegar ao veredicto. Por outro lado, pelo que voc diz, se levar Ashley ao banco, Brennan poder destrui la. 
   Brennan vai levar todos os seus peritos mdicos para desmoralizar os distrbios de personalidade mltipla. 
   Voc vai precisar convenc los de que  verdade. 
    isso o que pretendo fazer   falou David.   Sabe o que me incomoda, Jesse? As piadas. A ltima que anda circulando  que eu quis mudar o lugar do julgamento, 
a fim de assegurar a justia, mas desisti porque no h um lugar sequer onde Ashley ainda no tenha matado algum. Voc se lembra de quando Johnny Carson tinha 
um programa na televiso? Ele era engraado, e sempre manteve uma postura cavalheiresca. Agora, os comediantes dos programas que vo ao ar  noite so todos maliciosos. 
O humor que fazem  custa dos outros  selvagem. 
   David?
   Diga. 
   Vai piorar ainda mais   disse Jesse Quiller, tranquilamente. 

Na noite anterior ao seu comparecimento ao tribunal, David Singer no conseguia dormir. No podia impedir que os pensamentos negativos lhe rondassem a cabea. Quando, 
finalmente, Caiu no sono, ouviu uma voz dizendo: Voc deixou a sua ltima cliente morrer e se tambm deixar esta agora morrer?
 Ele se sentou na cama, molhado de suor. 
 Sandra abriu os olhos. 
   Voc est bem?
   Estou. No. Que diabos estou fazendo aqui? Tudo que eu precisava fazer era dizer no para o Dr. Paterson. 
 Sandra apertou lhe o brao e disse baixinho:
   E por que voc no disse?
 Ele grunhiu:
   Voc est certa. Eu no podia. 
   Tudo bem, ento. Agora, que tal dormir um pouco para estar bem disposto amanh de manh?
    uma excelente idia. 
 Ele passou o resto da noite acordado. 

A juza Williams estava certa quanto  mdia. Os reprteres eram incansveis. Chegavam jornalistas de toda parte do mundo, vidos por cobrir a histria de uma bela 
jovem que estava sendo julgada como uma assassina manaca que mutilava sexualmente suas vitimas. O facto de Mickey Brennan estar proibido de citar os nomes de Jim 
Cleary e Jean Claude Parent no julgamento foi frustrante, mas a mdia resolveu o problema por ele. Os programas de entrevistas na televiso, as revistas e os jornais 
todos traziam histrias sensacionalistas dos cinco assassinatos acompanhados de castraes. Mickey Brennan estava satisfeito. 

Quando David chegou ao tribunal, os jornalistas correram para
 
entrevist lo. Ele foi cercado. 
   Sr. Singer, ainda trabalha para a Kincaid, Tumer, Rose & Ripley...?
   Olhe para c, Sr. Singer... 
    verdade que o senhor foi demitido por aceitar este caso...?
   Poderia nos dizer algumas palavras sobre Helen Woodman? O senhor foi o advogado no processo por assassinato...?
   Ashley Paterson disse por que ela fez isso...?
   O senhor vai levar sua cliente ao banco dos rus...?
   Nada a declarar   disse David, rispidamente. 

Quando Mickey Brennan chegou ao estacionamento do frum, seu carro foi instantaneamente cercado pelos jornalistas. 
   Sr. Brennan, como acha que vai ser o julgamento...?
   O senhor j processou algum alter ego antes...?
 Brennan abriu um sorriso simptico. 
   No. Mal posso esperar para falar com todas as rs.   Ele obteve a gargalhada que queria.   Se elas forem em nmero suficiente, podem at formar um clube.   
Mais uma gargalhada. 
  Eu preciso entrar. No quero que nenhuma das rs tenha de esperar por mim. 

O exame do jri teve incio com a juza Williams fazendo perguntas genricas aos jurados em potencial. Quando ela terminou, foi a vez da defesa; e depois, da promotoria. 

 Para os leigos, a escolha de um jri parece simples: Escolha o pretenso jurado que parea simptico e dispense os demais. A bem da verdade, o exame do jri era 
um ritual cuidadosamente planejado. 
Os advogados mais habilidosos no faziam perguntas directas, que pudessem gerar um simples sim ou no como resposta. Faziam perguntas genricas, que encorajassem 
os jurados a falar e revelar algo sobre si mesmos e seus verdadeiros sentimentos. 
 Mickey Brennan e David Singer tinham pautas diferentes. Neste caso, Brennan queria que a maioria dos jurados fosse constituda de homens, para que estes sentissem 
repugnncia e ficassem chocados diante da idia de uma mulher esfaqueando e castrando suas vitimas. 
As perguntas de Brennan visavam determinar aqueles que fossem tradicionais em seu modo de pensar, menos propensos a acreditar em espritos, duendes e pessoas que 
alegassem ter alteres habitando o mago de seu ser. David usou a abordagem oposta. 
  Sr. Harris, correcto? Eu sou David Singer. Estou representando a r. J tomou parte num jri antes, Sr. Harris?
   No. 
   Fico lhe grato por dedicar seu tempo e sua ateno a este servio. 
   Deve ser interessante, um grande julgamento de assassinato como este! 
  Perfeitamente. Acho que vai ser, mesmo. 
  Eu estou ansioso para ver
  Est ansioso, ento?
  Ora, sem dvida! 
   Onde trabalha, Sr. Harris?
   Na Siderrgica da Unio. 
 
   Eu suponho que o senhor e seus colegas tenham conversado sobre o caso Paterson. 
   Conversamos, sim. De facto, conversamos. 
   Isso  compreensvel   falou David.   Todos parecem estar comentando sobre o caso. Qual  a opinio geral? Seus colegas de trabalho acham que Ashley Paterson 
 culpada?
   Oh, sim. Devo dizer que acham que ela  realmente culpada. 
   E o senhor pensa da mesma forma?
   Bem,  o que parece. 
   Mas o senhor est disposto a prestar ateno s provas antes de decidir?
   Sim. Estou, sim. 
   O que gosta de ler, Sr. Harris?
   No sou muito de ler. Eu gosto de acampar, caar e pescar. 
   Gosta da vida ao ar livre. Quando est acampando durante a noite e olha para as estrelas, o senhor pergunta a si mesmo se no existem outras civilizaes l 
no espao?
   Est se referindo a essa maluquice de discos voadores? Eu no acredito nessa besteirada, no. 
 David se virou para a juza Williams. 
   Recusado, meritssima. 

Mais um interrogatrio de jurado:
   O que gosta de fazer durante o seu tempo livre, Sr. Allen?
   Gosto de ler e assistir  televiso. 
   Eu gosto de fazer as mesmas coisas. Ao que o senhor assiste na televiso?
   H programas muito bons nas noites de quinta feira.  difcil escolher. As emissoras colocam todos os programas de qualidade no mesmo horrio! 
   Tem razo. Isso  um absurdo! O senhor j assistiu ao Arquivo X?
   J. Os meus filhos adoram. 
   E Sabriruz, a bruxa adolescente?
   Ah, j. Ns gostamos desse tambm.  um bom programa. 
   O que gosta de ler?
   Anne Rice, Stephen King... 
 Sim. 

Mais um interrogatrio de jurado:
   Ao que gosta de assistir na televiso, Sr. Mayer?
   Sessenta Minutos, o noticirio com Jim Lehrer, documentrios... 
   O que gosta de ler?
   Em geral, livros de histria e poltica. 
   Obrigado! 
 No. 

A juza Tessa Williams permanecia sentada, escutando os interrogatrios, sem se deixar trair pela expresso do rosto. Mas David pde sentir sua desaprovao todas 
as vezes em que a juza olhou para ele. 
 Quando o ltimo jurado foi finalmente escolhido, o painel consistia em sete homens e cinco mulheres. Brennan lanou um olhar de triunfo para David. Isso vai ser 
um massacre total.
 
        Captulo Dezasseis

 Bem cedo, na manh em que o julgamento de Ashley Paterson estava previsto para comear, David foi ver Ashley no centro de deteno. Ela estava  beira de um ataque 
histrico. 
   Eu no posso continuar com isso. No posso! Quero que me deixem em paz. 
   Ashley, vai ficar tudo bem. Ns vamos enfrent los e vamos vencer. 
   Voc no sabe... no sabe o que  isso. Eu me sinto como se estivesse num inferno!
   Ns vamos tir la disso. Estamos dando o primeiro passo. 
 Ela tremia. 
   Estou com medo... com medo de que faam alguma coisa terrvel comigo. 
   Eu no vou deixar   falou David com firmeza.   Quero que voc acredite em mim. E no se esquea... voc no  responsvel pelo que aconteceu. No fez nada de 
errado. Eles esto  nossa espera. 
 Ela respirou fundo. 
   Tudo bem. Eu vou ficar bem. Vou ficar bem. Vou ficar bem. 

Sentado na ala reservada aos espectadores, estava o Dr. Steven Paterson. Ele respondera  barreira de reprteres do lado de fora do tribunal com uma nica declarao:
   Minha filha  inocente. 
 A vrias fileiras de distncia estavam Jesse e Emily Quiller, presentes para dar apoio moral. 
 mesa da promotoria, sentavam se Mickey Brennan e duas assistentes, Susan Freeman e Eleanor Tucker. 
 Sandra e Ashley estavam sentadas  mesa dos rus, com David entre elas. As duas haviam se encontrado pela primeira vez na semana anterior. 
   David, d para olhar para Ashley e ver que ela  inocente. 
   Sandra, d para olhar para as provas que Ashley deixou em suas vtimas e ver que ela as matou. Mas mat las e ser culpada so duas coisas diferentes. Agora, 
eu s tenho de convencer o jri. 
 A juza Williams entrou no tribunal e se dirigiu  sua mesa. O oficial de justia anunciou:
   Todos de p. Est iniciada a sesso. Preside a meritssima juza Tessa Williams. 
 A juza Williams falou:
   Podem se sentar. Este  o caso do Estado da Califrnia contra Ashley Paterson. Vamos comear   A juza Williams olhou para Brennan.   O promotor gostaria de 
fazer uma declarao de abertura?
 Mickey Brennan se levantou. 
 
   Sim, meritssima.   Ele se virou para o jri e se aproximou.   Bom dia! Como todos sabem, senhoras e senhores, a r est sob julgamento, acusada de cometer trs 
assassinatos hediondos. Os assassinos surgem sob vrios disfarces.   Ele fez um gesto com a cabea na direco de Ashley.   O dela  o de uma jovem moa inocente 
e vulnervel. Mas o estado h de provar lhes, sem sombra de dvida, que a r, por vontade prpria e em plena conscincia, assassinou e mutilou trs homens inocentes. 
Ela usou um nome fictcio para cometer um desses assassinatos, na esperana de no ser descoberta. Sabia exatamente o que estava fazendo. Estamos falando de assassinato 
calculado a sangue frio.  medida que for se desenrolando o julgamento, eu vou lhes mostrar todas as evidncias, uma a uma que amarram este caso  r que ali se 
encontra. Obrigado!
 Ele voltou ao seu lugar. 
 A juza Williams olhou para David. 
   A defesa tem alguma declarao de abertura?
   Sim, meritssima.   David se levantou de frente para o jri. Respirou profundamente.   Senhoras e senhores, no decurso deste julgamento, vou provar lhes que 
Ashley Paterson no  responsvel pelo que aconteceu. Ela no tinha motivo para praticar nenhum dos assassinatos, tampouco sabia deles. Minha cliente  uma vtima. 
uma vtima de DPM... distrbio de personalidade mltipla, que lhes ser explicado no decorrer deste julgamento   disse David. 
 Ele olhou de relance para a juza Williams e falou com firmeza:
   O DPM  facto comprovado em termos mdicos. Significa que h outras personalidades, ou alteres, que assumem o controle dos indivduos e controlam suas aces. 
O DPM tem um histrico longo. Benjamin Rush, mdico e signatrio da Declarao de Independncia, discutiu casos de DPM em suas palestras. Muitos incidentes de DPM 
foram registrados durante todo o sculo XIX e tambm durante este sculo, sendo os indivduos subjugados pelos alteres. 
 Brennan estava escutando David, com um sorriso cnico estampado no rosto. 
   Ns vamos provar lhes que foi um alter que assumiu o comando e cometeu os assassinatos que Ashley Paterson no tinha razo absolutamente alguma para cometer. 
Nenhum motivo. Ela no tinha o controle do que estava acontecendo e, portanto, no  responsvel pelo que aconteceu. Durante o curso deste julgamento, estarei trazendo 
eminentes mdicos que iro explicar o DPM em maiores detalhes. Felizmente, trata se de uma perturbao curvel. 
 Ele olhou bem nos rostos dos jurados. 
   Ashley Paterson no teve controle algum sobre o que fez, e em nome da justia pedimos que Ashley Paterson no seja condenada por crimes sobre os quais no teve 
responsabilidade. 
 David voltou ao seu lugar
 A juza Williams olhou para Brennan. 
   O estado est pronto para prosseguir?
 Brennan se levantou. 
   Sim, meritssima.   Ele lanou um sorriso para suas assistentes e foi para a frente da bancada do jri. Brennan ficou ali parado um instante e, deliberadamente, 
soltou um sonoro arroto. Os jurados ficaram olhando para ele, surpresos. Brennan os fitou por um breve instante, como que intrigado, e em seguida a conturbao 
se dissipou de seu rosto. 
  Ah, entendi. Vocs estavam esperando que eu pedisse desculpas. Ora, eu no pedi porque no fiz nada. Foi meu alter ego, Pete, quem fez. 
 David se levantou, furioso. 
   Objeco. Meritssima,  a coisa mais ultrajante... 
   Mantida. 
 Mas o prejuzo j havia sido feito. 
 
 Brennan lanou um sorriso condescendente para David e voltou se para o jri. 
   Ora, eu acho que no h defesa igual desde o julgamento das bruxas de Salem, h trezentos anos!   Ele se virou de frente para Ashley   Eu no fiz nada. No, 
senhor. O demnio me levou a fazer isso. 
 David se levantou novamente. 
   Objeco, o...
   Indeferida. 
 David tornou a se sentar, com violncia. 
 Brennan deu um passo mais para perto da bancada dos jurados. 
   Eu lhes prometi que iria provar que a r, por vontade prpria e em plena conscincia, assassinou e mutilou trs homens inocentes: Dennis Tibble, Richard Melton 
e o delegado Samuel Blake. Trs homens! Apesar do que diz a defesa   ele se virou e tornou a apontar para Ashley  , s h uma r ali sentada, e foi ela quem cometeu 
os assassinatos. Como foi que o Sr. Singer chamou? Distrbio de personalidade mltipla? Ora, eu vou trazer alguns renomeados mdicos que lhes diro, sob juramento, 
que isso no existe! Mas, primeiramente, vamos escutar alguns especialistas que vo associar a r aos crimes. 
 Brennan se virou para a juza Williams. 
   Eu gostaria de chamar a minha primeira testemunha, o agente especial Vincent Jordan. 
Um homem baixo e calvo se levantou e foi at o banco das testemunhas. 
 O oficial de justia disse:
   Queira dizer o seu nome completo e soletre o para que seja registrado. 
   Agente especial Vincent Jordan, J o r d a n. 
 Brennan aguardou at que ele prestasse o juramento e se sentasse. 
  O senhor trabalha para o FBI em Washington, D. C.?
   Sim, senhor. 
  E o que faz para o FBI, agente especial Jordan?
   Sou o encarregado do sector de impresses digitais. 
   H quanto tempo trabalha nesse sector?
   Quinze anos. 
   Quinze anos. Em todo esse tempo o senhor alguma vez deparou com um conjunto de impresses digitais repetidas em pessoas diferentes?
   No, senhor. 
   Quantos conjuntos de impresses digitais constam actualmente nos arquivos do FBI?
   Na ltima contagem, pouco mais de duzentos e cinquenta milhes, mas ns recebemos mais de trinta e quatro mil novos cartes de impresses digitais por dia. 
   E nenhum desses conjuntos  igual a qualquer dos demais?
   No, senhor. 
   Como  que se identifica uma impresso digital?
   Ns usamos sete padres diferentes para fazer a identificao. As impresses digitais so exclusivas. So formadas antes do nascimento e acompanham a pessoa 
durante toda a sua vida. 
Salvo mutilaes acidentais ou intencionais, no h dois padres absolutamente iguais. 
   Agente especial Jordan, o seu sector recebeu as impresses digitais encontradas junto s trs vtimas que a r est sendo acusada de ter matado?
 
   Sim, senhor. Foi isso mesmo. 
   E tambm recebeu as impresses digitais da acusada Ashley Paterson?
   Correcto. 
   O senhor examinou pessoalmente essas impresses?
   Examinei, sim. 
   E a que concluso o senhor chegou?
   Que as impresses deixadas nas cenas dos crimes e aquelas tiradas de Ashley Paterson eram idnticas. 
 Um vozerio irrompeu dentro do tribunal. 
   Ordem! Ordem! 
 Brennan aguardou at que o tribunal voltasse ao silncio. 
   Eram idnticas? H alguma dvida em sua mente, agente Jordan? Poderia ter havido algum engano?
   No, senhor. Todas as impresses estavam claras e facilmente identificveis. 
   S para esclarecer isto... estamos falando das impresses digitais deixadas nas cenas dos assassinatos de Dennis Tibble, Richard Melton e do delegado Samuel 
Blake?
   Sim, senhor. 
   E as impresses digitais da r, Ashley Paterson, foram encontradas em todas as cenas dos crimes?
   Correcto. 
   E qual seria, na sua opinio, a margem de erro?
   Nenhuma. 
   Obrigado, agente Jordan!   Brennan se virou para David Singer   A testemunha  sua. 
 David ficou sentado um instante, em seguida se levantou e caminhou at o banco das testemunhas. 
   Agente Jordan, ao examinar impresses digitais, o senhor s vezes percebe que algumas foram deliberadamente borradas ou por qualquer artifcio desfiguradas, 
de modo a que o assassino pudesse ocultar o crime?
   Percebo, sim. Mas normalmente ns conseguimos corrigi las usando tcnicas de laser de alta intensidade. 
   O senhor teve de fazer isso no caso de Ashley Paterson?
   No. 
   Por qu?
   Ora, conforme eu disse... as impresses digitais estavam bastante claras. 
 David lanou um breve olhar para o jri. 
   Ento, o que o senhor est dizendo  que a r no tentou disfarar suas impresses digitais?
   Correcto. 
   Obrigado! No tenho mais perguntas a fazer.   Ele se virou para o jri.   Ashley Paterson no tentou ocultar suas impresses porque era inocente e... 
 A juza Willias interveio:
   J basta, Sr. Singer. O senhor poder fazer o seu arrazoado do caso mais tarde. 
 David retomou o seu lugar. 
 Brennan se virou para o agente especial Jordan. 
   O senhor est dispensado. 
 O agente do FBI desceu do banco das testemunhas. 
 
   Eu gostaria de chamar, como minha prxima testemunha, Staneley Clarke   disse Brennan. um rapaz de cabelos compridos foi conduzido ao tribunal. Ele se aproximou 
do banco das testemunhas. O salo ficou em silncio, enquanto o jovem prestava juramento e tomava o seu assento. 
   Sr. Clarke, qual  a sua actividade profissional?   perguntou Brennan. 
   Eu trabalho no Laboratrio Nacional de Biotecnologia, com o cido desoxirnbonuclico. 
   Mais conhecido por ns, leigos, como DNA?
   Correcto. 
   H quanto tempo trabalha no Laboratrio Nacional de Biotecnologia?
   Sete anos. 
   E que cargo ocupa?
   Sou supervisor. 
   Ento, nestes sete anos, eu presumo que o senhor tenha bastante experincia nos testes de DNA?
   Sem dvida.  o que fao todos os dias. 
 Brennan olhou de relance para o jri. 
   Acho que todos estamos familiarizados com a importncia do DNA.   Ele apontou para os espectadores.   O senhor diria que pelo menos meia dzia das pessoas aqui 
presentes tm DNA idntico?
   De forma alguma! Se pegssemos um perfil das espirais do DNA e o designssemos a uma frequncia baseada em bancos de dados colectados, somente um em cada quinhentos 
bilhes de caucasianos sem qualquer grau de parentesco teria o mesmo perfil de DNA. 
 Brennan mostrou se impressionado. 
    um em quinhentos bilhes! Sr. Clarke, de que forma obtm DNA de uma cena de crime?
   Vrias. Encontramos DNA na saliva, no smen, nas secrees vaginais, no sangue, nos fios de cabelo, nos dentes, na medula ssea... 
   E de qualquer um desses itens o senhor pode relacionar o DNA a uma pessoa especfica?
   Correcto. 
   O senhor comparou pessoalmente as amostras de DNA nos assassinatos de Dennis Tibble, Richard Melton e Samuel David Blake?
   Comparei. 
   E foi ao senhor que mais tarde deram os fios de cabelo da r, Ashley Paterson?
   Sim. 
   Ao comparar as amostras de DNA das vrias cenas dos crimes com aquelas obtidas a partir dos fios de cabelo da r, a que concluso o senhor chegou?
   Eram idnticas. 
 Desta vez, a reaco dos espectadores foi ainda mais barulhenta. 
 A juza Williams bateu com o martelo sobre a mesa. 
   Ordem! Silncio, seno mandarei esvaziar o recinto!
 Brennan aguardou at que o ambiente ficasse em silncio. 
   Sr. Clarke, de acordo com sua declarao o DNA obtido em cada uma das trs cenas dos crimes e o DNA da acusada eram idnticos, certo?
   Sim, senhor. 
 Brennan olhou de relance para a mesa onde Ashley estava sentada e voltou se para a testemunha. 
 
   E quanto  contaminao? Todos conhecemos o famoso julgamento de um crime em que as amostras de DNA estavam supostamente contaminadas. As amostras neste caso 
poderiam ter sido inadequadamente manuseadas, de forma que no fossem mais vlidas ou...? 
  No, senhor. As amostras de DNA nestes casos de assassinato foram cuidadosamente manuseadas e lacradas. 
  Ento, no resta dvida quanto a isto. A r assassinou os trs...?
David se levantou. 
  Objeco, meritssima. O promotor est conduzindo a testemunha e... 
  Mantida. 
 David voltou a sentar se. 
   Obrigado, Sr. Clarke!   Brennan se virou para David.   Nada mais. 
   A testemunha  sua, Sr. Singer   disse a juza Williams. 
   No tenho perguntas. 
 Os jurados estavam de olhos pregados em David. 
 Brennan mostrou se surpreso. 
   No tem perguntas?   Ele se dirigiu  testemunha.   O senhor pode ir. 
 Brennan olhou para os jurados e falou:
   Fico impressionado de ver que a defesa no esteja questionando as evidncias, pois elas provam, acima de qualquer suspeita, que a r assassinou e castrou trs 
homens inocentes e... 
David se levantou. 
   Meritssima... 
   Objeco acatada. O senhor est ultrapassando os limites Sr. Brennan!
   Queira me desculpar, meritssima! No tenho mais perguntas a fazer. 
 Ashley estava olhando para David, assustada. 
   No se preocupe   sussurrou ele.   Logo vai chegar a nossa vez. 

 A tarde consistiu em mais testemunhas para a promotoria, e os depoimentos foram devastadores. 
   O sindico do prdio o chamou ao apartamento de Dennis Tibble, policia Lightman?
   Chamou. 
   O senhor poderia nos relatar o que encontrou l?
   uma coisa horrvel! Havia sangue por todo lado. 
   Em que condies estava a vtima?
   O homem tinha sido morto a facadas e castrado. 
 Brennan olhou para o jri de relance, uma expresso de horror estampada em seu rosto. 
   Morto a facadas e castrado. O senhor encontrou alguma evidncia na cena do crime?
   Ah, encontrei, sim. A vtima tinha praticado sexo antes de morrer. Encontramos secrees vaginais e impresses digitais. 
   Por que o senhor no prendeu ningum de imediato?
   As impresses digitais que encontramos no coincidiam com qualquer uma das outras que tnhamos em nossos arquivos. 
 Ficamos aguardando amostras que combinassem com as que tnhamos. 
   Mas quando finalmente obtiveram as impresses digitais e o DNA de Ashley Paterson, tudo se encaixou?
   Exacto. Tudo se encaixou. 
 

 O Dr. Steven Paterson foi ao julgamento todos os dias. Ficou sentado na seco reservada ao pblico espectador, logo atrs da mesa da r. Sempre que entrava ou 
saa do recinto, era cercado por reprteres. 
   Dr. Paterson, o que est achando do andamento do processo?
   Est indo muito bem. 
   O que acha que vai acontecer?
   Minha filha ser considerada inocente. 

 Num certo fim de tarde, quando voltaram para o hotel, David e Sandra encontraram um recado deixado para eles. 
   Favor telefonar para o Sr. Kwong no seu banco. 
 David e Sandra se entreolharam. 
   Ser que j chegou a hora de pagarmos a prxima prestao?   perguntou Sandra. 
    isso mesmo. O tempo voa quando a gente est se divertindo   disse ele, secamente. E ficou pensativo por um momento.   O julgamento vai acabar em breve, querida. 
Ainda temos o suficiente em nossa conta corrente para o pagamento deste ms. 
 Sandra olhou para ele, preocupada. 
   David, se no pudermos quitar todas as prestaes... perderemos tudo que j pagamos?
   Perderemos, sim. Mas no se preocupe. Sempre acontecem coisas boas para as pessoas boas. 
 E ele pensou em Helen Woodman. 

Brian Hill estava sentado no banco das testemunhas, logo depois de ter prestado o seu juramento. Mickey Brennan deu lhe um sorriso simptico. 
   Poderia nos dizer o que faz, Sr. Hill?
   Certamente. Sou o guarda do museu De Young, em So Francisco. 
   Deve ser um emprego interessante! 
   , sim, quando se gosta de arte. Eu sou um pintor frustrado. 
   H quanto tempo trabalha l?
   Quatro anos. 
   Muitos dos visitantes do museu costumam ser as mesmas pessoas? Ou seja, tem gente que volta diversas vezes?
   Ah, sim. Tem gente que volta sempre. 
   Ento, eu suponho que, decorrido um certo perodo de tempo, essas pessoas passem a ser conhecidas suas, ou pelo menos tornem se rostos conhecidos?
    verdade. 
   E eu fui informado de que muitos artistas tm permisso para ficar copiando alguns dos quadros do museu. 
   Exacto. Ns recebemos a visita de muitos artistas. 
   Chegou a conhecer algum deles, Sr. Hill?
   Cheguei. A gente se torna meio amigo depois de um certo tempo. 
   O senhor conheceu um homem chamado Richard Melton?
 Brian Hill soltou um suspiro. 
   Conheci. Ele era muito talentoso. 
   To talentoso, na verdade, que o senhor chegou a pedir que ele lhe ensinasse a pintar?
   Correcto. 
 David se levantou. 
 
   Meritssima, isto  fascinante, mas eu no percebo em que tenha a ver com o julgamento. Se o Sr. Brennan... 
    relevante, meritssima. Eu estou deixando claro que o Sr. Hill podia identificar a vtima pela fisionomia e pelo nome, bem como nos dizer na companhia de quem 
a vtima costumava andar. 
   Objeco rejeitada. Pode prosseguir. 
   E ele chegou a lhe dar aulas de pintura?
   Chegou, sim. Sempre que tinha tempo! 
   Quando Richard Melton estava no museu, o senhor alguma vez o viu na companhia de mulheres jovens?
   No comeo, no. Mas depois de um tempo, ele conheceu uma moa por quem se interessou, e eu cheguei a v los juntos algumas vezes. 
   Qual era o nome dela?
   Alette Peters. 
 Brennan mostrou se intrigado. 
   Alette Peters? Tem certeza de que o nome est correcto?
   Tenho. Foi assim que ele a apresentou. 
   Por acaso, o senhor no a est vendo dentro deste recinto agora, Sr. Hill?
   Estou.   Ele apontou para Ashley   aquela moa sentada ali. 
   Mas aquela no  Alette Peters. a r, Ashley Paterson.   disse Brennan. 
 David se levantou. 
   Meritssima, j dissemos que Alette Peters  parte deste julgamento. Ela  um dos alteres que controla Ashley Paterson e... 
   Est se adiantando, Sr. Singer. Sr. Brennan, queira prosseguir. 
   Agora, Sr. Hill, tem certeza de que a r, que aqui est sob o nome de Ashley Paterson, era conhecida de Richard Melton como Alette Peters?
   Tenho. 
   E no h dvida de que esta aqui  a mesma mulher?
 Brian Hill hesitou. 
   Bem... . a mesma mulher. 
   E o senhor a viu com Richard Melton no dia em que ele foi assassinado?
   Vi, sim. 
   Obrigado!   Brennan se virou para David.   A testemunha  sua. 
 David se levantou e andou devagar at o banco das testemunhas. 
   Sr. Hill, eu suponho que seja uma grande responsabilidade trabalhar como guarda de um lugar onde tantas centenas de milhes de dlares em obras de arte esto 
expostas. 
   Sem dvida, senhor , sim. 
   E para ser um bom guarda, o senhor precisa estar alerta o tempo todo. 
   Correcto. 
   Precisa estar ciente do que acontece o tempo todo. 
   Pode apostar. 
   O senhor se diria um observador treinado, Sr. Hill?
   Decerto. 
 
   Fao esta pergunta porque percebi que quando o Sr. Brennan lhe perguntou se restava alguma dvida se Ashley Paterson era a mulher que estava com Richard Melton, 
o senhor hesitou um pouco. Restava alguma dvida?
 Houve uma pausa momentnea. 
   Bem,  que ela realmente parece ser a mesma mulher, mas, ao mesmo tempo, parece diferente. 
   De que maneira, Sr. Hill?
   Alette Peters tinha um jeito mais italiano de ser, falava com sotaque italiano... e parecia mais jovem do que a r. 
   O senhor est perfeitamente correcto, Sr. Hill. A pessoa que viu em So Francisco era um alter de Ashley Paterson. Ela nasceu em Roma, era oito anos mais jovem... 

 Brennan se levantou, furioso. 
   Objeco. 
 David se virou para a juza Williams. 
   Meritssima, eu estava... 
   Queiram os advogados se aproximar da mesa deste juzo, por favor   David e Brennan caminharam para perto da juza Williams.   Eu no quero ter de lhe dizer isto 
outra vez, Sr. Singer. A defesa ter a sua chance, depois que a promotoria encerrar a sua parte. At ento, o senhor est impedido de fazer o arrazoado do seu caso. 


Bemice Jenkins estava no banco das testemunhas. 
   Poderia nos informar a sua profisso, Senhorita Jenkins?
  Eu sou garonete. 
  E onde trabalha?
  No caf do museu De Young. 
   Qual era o seu relacionamento com Richard Melton?
   ramos bons amigos. 
   A senhorita poderia dar mais detalhes disso?
   Ns chegamos a ter um breve romance, mas a coisa esfriou logo. Isso acontece. 
   Certamente que sim. E depois?
   Depois, ns ficamos como irmos. Quero dizer, eu... eu lhe falava dos meus problemas, e ele me falava dos dele. 
   Ele alguma vez comentou sobre a r com a senhorita?
   Bem, comentar, ele comentou. Mas ela se apresentava por um nome diferente. 
   E que nome era esse?
   Alette Peters. 
   Mas ele sabia que o nome dela era Ashley Paterson?
   No. Ele achava que o nome dela era Alette Peters. 
   A senhorita quer dizer que ela o enganava?
 David se levantou de um pulo. 
   Objeco. 
   Mantida. Pare de conduzir a testemunha, Sr. Brennan. 
   Desculpe me, meritssima!   Brennan voltou se para o banco das testemunhas.   Ele lhe falou sobre essa Alette Peters, mas a senhorita chegou a ver os dois juntos?
   Cheguei, sim. Ele a levou ao restaurante um dia e nos apresentou. 
   E a senhorita est falando da r, Ashley Paterson?
   Estou. S que ela se chamava Alette Peters. 

Gary King estava no banco das testemunhas. 
   O senhor compartilhava o apartamento com Richard Melton?   perguntou Brennan. 
   Correcto. 
   E eram amigos? O senhor saa socialmente na companhia dele?
 
  Claro. Costumvamos sair com nossas acompanhantes. 
  O Sr. Melton estava interessado em alguma jovem em particular?
   Estava. 
   O senhor sabe o nome dela?
   Ela se chamava Alette Peters. 
   O senhor a est vendo dentro deste recinto?
   Estou. Ela est sentada ali. 
   Para constar nos autos, o senhor est apontando para a r, Ashley Paterson?
   Correcto. 
   Quando chegou em casa na noite do assassinato, o senhor encontrou o corpo de Richard Melton dentro do apartamento?
   Encontrei, sim. 
   Em que condies estava o corpo?
   Ensanguentado. 
   O corpo fora castrado?
 Ele estremeceu. 
   Fora. Que coisa horrvel! 
 Brennan olhou para o jri a fim de ver a reaco. Foi exactamente a que estava esperando. 
   O que fez em seguida, Sr. King?
   Chamei a polcia. 
   Obrigado!   Brennan se virou para David.   A testemunha  sua. 
 David se levantou e se aproximou de Gary King. 
   Fale nos de Richard Melton. Que tipo de homem ele era?
   Era uma pessoa ptima. 
   Ele gostava de discutir? Gostava de se envolver em brigas?
   Richard? No. Pelo contrrio. Era muito tranquilo, na dele. 
   Mas gostava de estar prximo a mulheres duronas, do tipo atltico?
 Gary estava olhando para ele de uma forma estranha. 
   De forma alguma. Richard gostava de mulheres do mesmo temperamento dele. 
   Ele e Alette brigavam muito? Ela gritava muito com ele?
 Gary ficou intrigado. 
   O senhor est absolutamente errado. Eles jamais gritaram um com o outro. Era ptimo quando estavam juntos. 
   O senhor chegou a ver algo que pudesse lev lo a crer que Alette Peters faria alguma perversidade...?
   Objeco. Ele est conduzindo a testemunha. 
   Mantida. 
   No tenho mais perguntas a fazer   falou David. 
 Quando se sentou, David disse para Ashley:
   No se preocupe. Eles esto consubstanciando os nossos argumentos. 
 Ele soou mais confiante do que de facto se sentia. 

David e Sandra estavam jantando no San Fresco, o restaurante do Wyndham Hotel, quando o maitre veio falar com ele. 
   Telefonema urgente para o senhor. 
   Obrigado!   David disse para Sandra:   Volto j. 
 Ele acompanhou o maitre at o aparelho. 
   Aqui  David Singer. 
   David! Jesse. V para o seu quarto e ligue de volta para mim. O telhado est desabando!
 
        Captulo Dezassete

  Jesse...?
   David, sei que no posso interferir, mas acho que voc deveria pedir a anulao do julgamento. 
   O que aconteceu?
   Voc esteve na Internet nestes ltimos dias?
   No. Eu tenho andado ocupado. 
   Pois saiba que o julgamento est todo na Internet.  s do que se fala nas salas de chat. 
   Era de se supor   falou David.   Mas o que ...?
   As pessoas s falam coisas negativas, David. Andam dizendo que Ashley  culpada e que deveria ser executada. E esto dizendo isso claramente. No d para acreditar 
na maldade dessa gente! 
 David, dando se conta de repente, falou:
   Meu Deus! Se algum dos jurados estiver na Internet... 
   As probabilidades so muito grandes de que algum deles esteja, e isso vai exercer uma grande influncia sobre ele. Eu pediria uma anulao do julgamento ou, 
pelo menos, que os jurados fossem mantidos em recluso. 
   Obrigado, Jesse!  o que vou fazer   David desligou. 
 Quando ele voltou para o restaurante, onde Sandra o esperava, ela perguntou:
   M notcia?
   Pssima. 

Antes da abertura da sesso do tribunal na manh seguinte, David pediu para ver a juza Williams. Foi conduzido ao gabinete dela, juntamente com Mickey Brennan. 

   O senhor pediu para falar comigo?
   Pedi, sim, meritssima. Eu fiquei sabendo ontem  noite que este julgamento  o assunto preferido na Internet.  s o que se discute nas salas de chat, e todo 
mundo j condenou a r. Isso  bastante prejudicial. E como estou certo de que alguns dos jurados tm computadores com acesso  rede, ou conversam com amigos internautas, 
a defesa pode ficar seriamente comprometida. Portanto, vou entrar com uma moo de anulao do julgamento. 
 Ela ficou pensativa por um momento. 
   Moo indeferida. 
 David ficou imvel, tentando se controlar. 
   Ento, entro agora com uma moo para manter o jri em recluso a partir deste momento, de forma que... 
   Sr. Singer, todos os dias a imprensa est presente com todo seu aparato neste tribunal. Este julgamento  o assunto preferido na televiso, no rdio e nos jornais 
do mundo inteiro. Eu avisei que isto viraria um circo, mas o senhor no quis me escutar   Ela se inclinou para a frente.   Pois bem, o circo  seu. Se quisesse 
o jri em recluso, o senhor deveria ter entrado com a moo antes do incio do julgamento. E eu provavelmente no teria concedido. H mais algum assunto a tratar?
David ficou sentado, com o estmago revirando. 
   No, meritssima. 
   Ento, vamos entrar na sala de audincias. 

Mickey Brennan estava interrogando o comissrio Dowling. 
 
   O delegado Sam Blake telefonou para dizer ao senhor que ia passar a noite no apartamento da r, a fim de proteg la? Ela tinha dito a ele que algum a estava 
ameaando?
   Correcto. 
   Quando foi que o senhor tornou a falar com o delegado Blake?
   Eu... eu no tornei a falar com ele. Recebi um telefonema na manh seguinte dizendo que... que o corpo dele fora encontrado no beco atrs do prdio onde reside 
a Senhorita Paterson. 
   E o senhor foi para l imediatamente?
   Claro. 
   E o que encontrou?
 Ele engoliu em seco.
   O corpo de Sam estava enrolado num lenol todo ensanguentado. Ele fora esfaqueado e castrado, assim como as outras duas vitimas. 
   Assim como as outras duas vitimas. Ento, todos esses assassinatos foram executados de maneira semelhante?
   Foram, sim. 
   Como se as vtimas tivessem sido assassinadas pela mesma pessoa?
 David se levantou de imediato. 
   Objeco. 
   Mantida. 
   Eu retiro o que disse. O que fez em seguida, comissrio?
   Bem, at aquele instante, Ashley Paterson no era suspeita. Mas depois que isso aconteceu, ns a prendemos e tiramos suas impresses digitais. 
   E ento?
   Ns as enviamos para o FBI e obtivemos um quadro positivo para ela. 
   O senhor poderia explicar para o jri o que quer dizer com um quadro positivo?
 O comissrio Dowling se virou para o jri. 
   As impresses digitais dela eram iguais s outras do arquivo que eles estavam tentando identificar desde os assassinatos anteriores. 
   Obrigado, comissrio!   Brennan se virou para David. 
  A testemunha  sua. 
 David se levantou e se aproximou do banco das testemunhas. 
   Comissrio, ouvimos depoimentos dentro deste tribunal afirmando que uma faca ensanguentada foi encontrada na cozinha da Senhorita Paterson. 
   Correcto. 
   Como essa faca estava escondida? Embrulhada em alguma coisa? Enfiada num canto onde ningum a pudesse encontrar?
   No. Estava bem  vista. 
   Bem  vista. Deixada l por algum que no tinha nada a esconder. Algum que era inocente porque... 
   Objeco. 
   Mantida. 
   No tenho mais perguntas a fazer. 
   A testemunha est dispensada. 
 Brennan falou:
 
   Se o tribunal no se opuser...   Ele fez um sinal para algum no fundo do salo, e um homem vestido de macaco entrou, carregando o espelho do banheiro da Senhorita 
Paterson. Nele, escrito com batom vermelho, estavam os dizeres VOC VAI MORRER
 David se levantou. 
   O que  isso?
 A juza Williams se virou para Mickey Brennan. 
   Sr. Brennan?
    a isca que a r usou para atrair o delegado Blake at o seu apartamento, a fim de que pudesse assassin lo. Eu gostaria que isto ficasse marcado como prova 
circunstancial D. Foi tirado do armrio do banheiro da r. 
   Objeco, meritssima. No tem relevncia. 
   Vou provar que tem relevncia. 
   Vamos ver. Entretanto, pode prosseguir. 
 Brennan colocou o espelho bem  vista do jri. 
   Este espelho foi tirado do banheiro da r.   Ele olhou para os jurados.   Conforme todos podem ver, est escrito em sua face "VOC VAI MORRER". Este foi o pretexto 
da r para pedir que o delegado Blake fosse ao seu apartamento naquela noite para proteg la.   Ele se virou para a juza Williams.   Eu gostaria de chamar a minha 
prxima testemunha, a Senhorita Laura Niven. 
Uma mulher de meia idade, caminhando com uma bengala, se aproximou do banco das testemunhas e prestou juramento. 
   Em que trabalha, Senhorita Niven?
   Sou consultora para o municpio de San Jos. 
   E presta consultoria em que rea?
   Sou perita em caligrafia. 
   H quanto tempo trabalha para o municpio, Senhorita Niven?
   Vinte e dois anos. 
Brennan apontou para o espelho com um gesto de cabea. 
  J viu esse espelho antes?
  J. 
  E o examinou?
  Examinei. 
  E a senhorita j viu uma amostra da caligrafia da r?
  Vi, sim. 
  E teve a oportunidade de examin la?
  Tive. 
  E comparou as duas?
  Comparei. 
  E a que concluso chegou?
   Foram escritas pela mesma pessoa. 
 Todos na sala ficaram perplexos. 
   Ento, a senhorita est dizendo que Ashley Paterson escreveu esta ameaa para si mesma?
   Correcto. 
 Mickey Brennan olhou para David. 
   A testemunha  sua. 
 David hesitou. Olhou de relance para Ashley. Ela estava de olhos pregados na mesa, balanando a cabea. 
   No tenho perguntas a fazer. 
 A juza Williams estava estudando David. 
   No tem perguntas a fazer, Sr. Singer?
 David se levantou. 
   No. Todos esses depoimentos no tm importncia.   Ele se virou para o jri.   A promotoria ter de provar que Ashley Paterson conhecia as vtimas e tinha um 
motivo para... 
 
   Eu j o adverti antes   falou a juza Williams, irritada.   No lhe cabe instruir o jri sobre a lei. Se... 
   Algum tem de fazer isso   explodiu David.   Sua Excelncia o est deixando... 
   J chega, Sr. Singer. Aproxime se. 
 David caminhou at a mesa. 
   Vou cit lo por desacato ao juzo e sentenci lo a uma noite aqui em nossa agradvel cadeia no dia em que este julgamento terminar. 
   Espere, meritssima. Sua Excelncia no pode... 
 Ela falou, taciturna:
   J o sentenciei a uma noite. O senhor gostaria de tentar conseguir duas?
 David ficou parado, fitando a com firmeza, respirando fundo. 
   Pelo bem de minha cliente, eu... eu vou guardar os meus sentimentos para mim. 
   Sbia deciso   falou a juza Williams, sucintamente. 
   A sesso est suspensa.   Ela se dirigiu a um oficial de justia.   Quando este julgamento terminar, quero que o Sr. Singer seja detido sob custdia. 
   Pois no, meritssima. 
   Meu Deus! O que est acontecendo?   perguntou Ashler a Sandra. 
 Sandra apertou lhe o brao. 
   No se preocupe. Voc precisa confiar em David. 

Sandra telefonou para Jesse Quiller. 
   J soube   disse ele.   Est em todos os noticirios. No culpo David por ter perdido o controle. Ela o est cutucando desde o incio. O que ele fez para deix 
la to possessa?
   No sei, Jesse. Foi uma coisa horrvel! Voc deveria ver os rostos dos jurados. Eles odeiam Ashley. Mal podem esperar para conden la. Bem,  a vez da defesa 
agora. David vai ter de mudar o pensamento deles. 
Vamos esperar para ver

   A juza Williams me odeia, Sandra, e isto est sendo prejudicial para Ashley. Se eu no fizer alguma coisa para reverter este quadro, Ashley vai ser condenada 
 morte. Eu no posso deixar que isso acontea. 
   O que voc pode fazer?   perguntou Sandra. 
 David respirou fundo. 
   Abdicar do caso. 
 Os dois sabiam o que isso significava. A mdia iria se deleitar com o fracasso dele. 
   Eu nunca deveria ter concordado em enfrentar o julgamento   disse David, amargurado.   O Dr. Paterson confiou a salvao da filha dele s minhas mos, e eu... 
  Ele no conseguiu terminar. 
 Sandra o abraou e o apertou com ternura. 
   No se preocupe, querido. Tudo vai terminar bem. 
 Eu. decepcionei a todos, pensou David. Ashley, Sandra... Vou ser mandado embora da firma, ficar sem emprego, e o beb est perto de chegar! "Tudo vai terminar 
bem."
 Certo. 

Pela manh, David pediu para falar com a juza Williams em seu gabinete. Mickey Brennan estava presente. 
 
   Pediu para falar comigo, Sr. Singer?   disse a juza Williams. 
   Pedi, sim, meritssima. Quero abdicar do caso. 
   Baseado em qu?   perguntou a juza Williams. 
 David falou com cuidado:
   No creio que eu seja o advogado ideal para este caso. Acho que estou prejudicando a minha cliente. Eu gostaria de ser substitudo. 
 A juza Williams falou tranquilamente:
   Sr. Singer, se acha que vou deix lo se afastar deste julgamento e depois ter de comear tudo de novo e desperdiar ainda mais tempo e dinheiro, est muito enganado. 
A resposta  no. O senhor me entendeu direito?
 David fechou os olhos por um instante, forando se a ficar calmo. Ele ergueu a cabea e falou:
   Sim, meritssima. Eu entendi. 
 Ele no tinha sada.
 
        Captulo Dezoito

Mais de trs meses haviam se passado desde o incio do julgamento, e David no conseguia mais se lembrar de quando tivera sua ltima noite de sono tranquilo. 
Numa certa tarde, quando voltavam do frum, Sandra falou:
   David, acho que eu deveria voltar para So Francisco. 
 David olhou para ela, surpreso. 
   Por qu? Estamos bem no meio do... ah, meu Deus!   Ele a envolveu nos braos.   O beb. Est chegando?
 Sandra sorriu. 
   A qualquer momento. Eu me sentiria mais segura se estivesse l, perto do Dr. Bailey. Mame disse que ficaria comigo. 
   Claro. Voc tem de voltar   falou David.   Eu perdi a noo do tempo. O nascimento est previsto para as prximas trs semanas, no  mesmo?
   isso. 
 Ele fez um trejeito. 
   E eu no vou poder estar l com voc. 
 Sandra pegou lhe na mo. 
   No se preocupe com isso, meu amor. O julgamento vai terminar logo. 
   Esta porcaria de julgamento est arruinando nossa vida. 
   David, ns vamos ficar bem. O meu antigo emprego est esperando por mim. Depois que o beb nascer, eu posso... 
   Eu sinto muito, Sandra. Eu gostaria de... 
   David, nunca se arrependa de fazer uma coisa que voc acha certa. 
   Eu te amo. 
   Eu tambm te amo. 
 David acariciou a barriga dela. 
   Eu amo vocs dois.   Ele soltou um suspiro.   Tudo bem. Vou ajudar a fazer as suas malas e lev la de carro para So Francisco hoje  noite, e... 
   No   disse Sandra com firmeza.   Voc no pode se ausentar daqui. Vou pedir a Emily que venha me pegar. 
   Pergunte se ela no gostaria de jantar connosco hoje. 
   Est bem. 

Emily ficou felicssima. 
   Claro que eu vou a para peg la.   Ela chegou a San Jos duas horas depois. 
 Os trs jantaram juntos naquela noite no Chai Jane. 
  Os acontecimentos no se encaixaram no tempo certo   falou Emily    uma pena que vocs dois no possam ficar juntos justamente agora! 
   O julgamento est quase acabando   David falou, esperanoso.   Talvez termine antes do nascimento do beb! 
 Emily sorriu. 
   Vamos fazer uma comemorao dupla. 

Era hora de partir. David abraou Sandra carinhosamente. 
   Vou telefonar para voc todas as noites   disse ele. 
   Por favor, no se preocupe comigo. Vai ficar tudo bem. Eu te amo muito, David.   Sandra olhou para ele e falou:   Trate de se cuidar bem direitinho, hein?! Voc 
parece cansado. 
 S depois da partida de Sandra foi que David se deu conta do quo solitrio estava. 
 
Estava aberta a sesso no tribunal. 
 Mickey Brennan se levantou, dirigindo se ao juzo:
   Eu gostaria de chamar o Dr. Lawrence Larkin como minha prxima testemunha. 
Um distinto senhor grisalho prestou o juramento e foi se sentar no banco das testemunhas. 
   Eu gostaria de agradecer a sua presena aqui, Dr. Larkin. Sei que seu tempo  muito precioso. O senhor pode nos contar um pouco do seu passado?
   Eu tenho um conceituado consultrio em Chicago. J fui presidente da Associao Psiquitrica de Chicago. 
   H quantos anos pratica a sua especialidade, Dr. Larkin?
   Aproximadamente trinta anos. 
   E como psiquiatra, eu imagino que o senhor tenha visto muitos casos de distrbio de personalidade mltipla, certo?
  No. 
Brennan franziu o cenho. 
   Ao falar no, o senhor est querendo dizer que no viu muitos? Talvez uma dzia?
   Eu jamais vi um caso sequer de distrbio de personalidade mltipla. 
 Brennan olhou para o jri, fingindo espanto, e voltou se novamente para o doutor:
   Em trinta anos de trabalho com pacientes sofrendo de perturbaes mentais, o senhor no viu sequer um caso de distrbio de personalidade mltipla?
   Correcto. 
   Estou impressionado! Como o senhor explica isso?
    muito simples. Eu acho que o distrbio de personalidade mltipla no existe. 
   Ora, isso me deixa intrigado, doutor. Nunca houve registro de nenhum caso de distrbio de personalidade mltipla?
   O registro de um caso no quer dizer que ele seja verdico. Veja bem, o que alguns mdicos acham ser DPM, s vezes confundem com esquizofrenia, depresses e 
vrios outros transtornos de ansiedade   disse o Dr. Larkin num tom gutural. 
   Isso  muito interessante. Ento, na sua opinio, como psiquiatra especializado, o senhor no acredita que os distrbios de personalidade mltipla sequer existam?
   Correcto. 
   Obrigado, doutor!   Mickey Brennan se dirigiu a David. 
  A testemunha  sua. 
 David se levantou e se aproximou do banco das testemunhas. 
   O senhor j foi presidente da Associao Psiquitrica de Chicago, Dr. Larkin?
   Fui, sim. 
   Deve ter conhecido muitos colegas de profisso. 
   Conheci. E tenho orgulho disso. 
   O senhor conhece o Dr. Royce Salem?
   Conheo, sim. E muito bem. 
   Ele  um bom psiquiatra?
   Excelente.  um dos melhores. 
   O senhor esteve alguma vez com o Dr. Clyde Donovan?
   Estive. Muitas vezes. 
   Diria que ele  um bom psiquiatra?
   Se eu precisasse de um   risadinha  , seria ele. 
   E o que tem a dizer a respeito do Dr. Ingram? O senhor o conhece?
 
   Ray Ingram? Ora, se conheo! Grande homem. 
   Psiquiatra competente?
  Ah, sim. 
   Diga me, todos os psiquiatras concordam quanto a todas disfunes mentais?
   No. Claro que temos os nossos desentendimentos. A psiquiatria no  uma cincia exacta. 
   Isso  interessante, doutor, porque o dr. Salem, o dr. Donovan e o Dr. Ingram estaro vindo aqui para depor que j trataram de casos de distrbio de personalidade 
mltipla. Talvez nenhum deles seja to competente quanto o senhor! S isso. Dispensado. 
 A juza Williams se dirigiu a Brennan:
   Deseja reinquirir?
 Brennan levantou se prontamente e foi at o banco das testemunhas. 
   Dr. Larkin, acredita que o facto desses outros mdicos discordarem da sua opinio com relao ao DPM os coloca como certos e o senhor como errado?
   No. Eu poderia apresentar dzias de psiquiatras que no acreditam em DPM. 
   Obrigado, doutor! No tenho mais perguntas. 

Mickey Brennan falou:
   Dr. Upton, ouvimos depoimentos dizendo que aquilo que s vezes  considerado distrbio de personalidade mltipla est, na verdade, sendo confundido com outros 
tipos de transtornos. Quais so os testes para provar que o DPM no  uma dessas outras perturbaes?
   No existe teste algum. 
 O queixo de Brennan caiu de surpresa quando ele se voltou na direco do jri. 
  No existe teste algum? O senhor est dizendo que no h maneira alguma de dizer se algum alegando se portador de DPM est mentindo, fingindo ou usando o argumento 
como desculpa para um crime pelo qual no queira se responsabilizar?
   Conforme eu disse, no existe teste algum. 
   Ento,  s uma questo de opinio? Alguns psiquiatras acreditam, outros no?
   Correcto. 
   Deixe me fazer lhe a seguinte pergunta, doutor: se hipnotizar algum, o senhor pode dizer com certeza se essa pessoa tem DPM ou se est simplesmente fingindo?
 O Dr. Upton balanou a cabea. 
   Sinto dizer que no. Mesmo sob hipnose ou com sdio amial, no h como garantir se algum est mentindo ou no. 
   Isso  muito interessante. Obrigado, doutor! No tenho mais perguntas.   Brennan se dirigiu a David.   A testemunha  sua. 
 David se levantou e foi at o banco das testemunhas. 
   Dr. Upton, o senhor j recebeu pacientes que foram procur lo depois de terem sido diagnosticados por outros mdicos como portadores de DPM?
   J. Vrias vezes. 
   E o senhor tratou desses pacientes?
   No. 
   Por que no?
 
   Eu no tenho como tratar doenas que no existem. E um dos pacientes era um estelionatrio que queria que eu testemunhasse que ele no era responsvel por seus 
actos, pois quem cometia as fraudes era um alter. Outro paciente era uma dona de casa que estava presa por surrar os filhos. Dizia que algum dentro dela a forava 
a ser violenta com os filhos. Houve mais alguns assim, com diferentes desculpas, mas todos estavam tentando se esconder de alguma coisa. Em outras palavras, estavam 
fingindo. 
   O senhor parece ter uma opinio muito arraigada a este respeito, doutor. 
   E tenho, sim. Sei que estou certo. 
   O senhor sabe que est certo?   perguntou David. 
   Bem, eu quis dizer... 
  ... que todos os demais devem estar errados? Todos os mdicos que acreditam em DPM esto errados?
   Eu no quis dizer isso... 
   E o senhor  o nico que est certo. Obrigado, doutor! 
 s. 

O Dr. Simon Raleig estava no banco das testemunhas. Era um homem franzino, calvo, com pouco mais de sessenta anos. 
   Obrigado por ter vindo aqui, doutor!   disse Brennan.   O senhor tem uma carreira ilustre, um currculo extenso.  mdico, professor, frequentou a faculdade 
de... 
 David se levantou. 
   A defesa est de acordo com o distinto histrico profissional da testemunha. 
   Obrigado!   Brennan tornou a se dirigir  testemunha:   Dr. Raleig, o que quer dizer iatrognia?
   quando uma doena existente se agrava devido a um tratamento mdico ou psicoteraputico. 
   Poderia ser mais especfico, doutor?
   Bem, na psicoterapia,  muito comum o terapeuta influenciar o paciente com suas perguntas ou atitudes. Ele pode fazer o paciente achar que precisa atender s 
suas expectativas de terapeuta. 
   E como isso poderia se aplicar ao DPM?
   Se o psiquiatra estiver questionando o paciente sobre as diferentes personalidades que o habitam, o paciente pode criar alguma, a fim de atender ao terapeuta. 
 uma rea muito enganosa. O amial e a hipnose podem forjar um DPM em pacientes que, sem essas influncias, sejam normais. 
   Ento, o que o senhor est dizendo  que, usando a hipnose, o prprio psiquiatra pode alterar as condies do paciente, de forma que este acredite em algo que 
no  verdade?
   Isso j aconteceu, sim. 
   Obrigado, doutor!   Ele olhou para David.   A testemunha  sua. 
   Obrigado!   disse David. Ele se levantou e foi at o banco das testemunhas. Ento, disse com toda a simpatia:  As suas referncias so impressionantes. O senhor 
no s  psiquiatra, mas tambm d aulas numa universidade. 
   Correcto. 
   H quanto tempo vem leccionando, doutor?
   H mais de quinze anos. 
   Isso  ptimo. Como divide o seu tempo? Com isto eu quero dizer, o senhor passa metade do tempo leccionando e a outra metade trabalhando como mdico?
   No. Eu sou professor em tempo integral. 
 
   Ah? Quanto tempo faz que o senhor no pratica a medicina de facto?
   Mais ou menos oito anos. Mas eu me mantenho actualizado com toda a literatura mdica que sai. 
   No posso deixar de dizer que acho isso admirvel. Ento o senhor se actualiza lendo de tudo.  assim que tem tanta familiaridade com a iatrognia? E no passado, 
muitos pacientes o procuravam dizendo se portadores de DPM?
   Bem, no... 
   No muitos? Nos anos que trabalhou como mdico, o senhor diria que teve uma dzia de casos de pacientes que alegavam ter DPM?
   No. 
  Meia dzia?
O Dr. Raleig balanou a cabea. 
  Quatro?
No houve resposta. 
   Doutor, o senhor teve um paciente sequer que o tenha procurado com DPM?
   Bem,  difcil... 
   Sim ou no, doutor?
   No. 
   Ento, tudo o que o senhor realmente conhece sobre DPM  por meio de leituras? No tenho mais perguntas. 

A promotoria chamou mais seis testemunhas, e o depoimento de todas elas mantinha a mesma coerncia. Mickey Brennan tinha convocado nove dos melhores psiquiatras 
do pas, todos unidos pela crena comum de que o DPM no existia. 
A argumentao da promotoria estava chegando ao fim. 
Quando a ltima testemunha arrolada pela promotoria foi dispensada, a juza Williams se dirigiu a Brennan. 
   O senhor tem mais alguma testemunha para chamar, Sr. Brennan?
   No, meritssima. Mas eu gostaria de mostrar ao jri fotografias tiradas pela polcia das cenas dos assassinatos de... 
   Absolutamente no   disse David, enfurecido. 
 A juza Williams se virou para David. 
   O que disse, Sr. Singer?
   Eu disse   David se controlou   Objeco. A promotoria est tentando inflamar o jri por meio de... 
   Objeco rejeitada. A fundamentao foi feita numa moo anterior ao julgamento.   A juza Williams se dirigiu a Brennan:   Pode mostrar as fotografias. 
 David voltou para o seu lugar, furioso. 
 Brennan voltou para a sua mesa e pegou uma srie de fotografias e entregou as aos jurados. 
   No so agradveis de ver, senhoras e senhores, mas  disso que trata este julgamento. Ele no trata de palavras, teorias ou desculpas. No trata de alter egos 
misteriosos matando gente. Trata de trs pessoas de verdade, que foram brutal e violentamente assassinadas. A lei diz que algum tem de pagar por esses assassinatos. 
Cabe a cada um de vocs cuidar para que a justia seja feita. 
 Brennan viu o horror no rosto de cada jurado, enquanto eles olhavam as fotografias. 
 Ele se dirigiu  juza Williams:
 
   A promotoria d a sua parte por encerrada. 
 A juza Williams olhou para o relgio. 
   So quatro horas. O tribunal entra em recesso por hoje e retorna s dez horas da manh de segunda feira. A sesso est encerrada.
 
        Captulo Dezanove

Ashley Paterson estava no cadafalso para ser enforcada, quando um policia correu e disse:
   Esperem. Ela deve ser electrocutada. 
 A cena mudou, e ela estava na cadeira elctrica, um guarda esticou o brao para accionar o interruptor, e a juza Williams chegou correndo e gritando:
   No. Ns vamos execut la com uma injeo letal. 
 David acordou e sentou se na cama, o corao palpitando. Seu pijama estava molhado de suor. Ele comeou a se levantar e ficou subitamente tonto. Sentiu a cabea 
martelando de dor e percebeu que estava febril. Encostou a mo na testa. Estava quente. 
 Ao ficar de p, a tonteira aumentou. 
   Ah, no!   resmungou.   Hoje, no!
 Era o dia pelo qual ele tanto ansiara, o dia em que a defesa comearia a apresentar os seus argumentos. David cambaleou at ao banheiro e lavou o rosto com gua 
fria. Olhou se no espelho. 
   Voc est com um aspecto horrvel! 
 Quando David chegou ao tribunal, a juza Williams j se encontrava  mesa. Todos estavam esperando por ele. 
   Peo desculpas pelo atraso   falou David com a voz rouca.   Posso me dirigir ao juzo?
   Pode. 
 David foi at  mesa, tendo Mickey Brennan logo atrs de si. 
   Meritssima   disse David  , eu gostaria de pedir um dia de dispensa. 
   Baseado em qu?
   Eu... eu no estou me sentindo muito bem, meritssima. Tenho certeza de que um mdico poder me dar algum remdio, e amanh estarei bem. 
   Por que o senhor no coloca um assistente em seu lugar?   perguntou a juza Williams. 
 David olhou para ela, surpreso. 
   Eu no tenho assistentes. 
   E por que no, Sr. Singer?
   Porque... 
 A juza Williams se inclinou para a frente. 
   Eu nunca vi um julgamento de assassinato conduzido desta maneira. O senhor  um showman em busca da glria, no ? Ora, no vai encontr la neste tribunal. E 
vou lhe dizer mais: o senhor provavelmente acha que eu deveria ser afastada do caso porque no acredito nessa sua defesa baseada no "foi o diabo quem me forou 
a fazer o que fiz". Mas eu no vou permitir isso. Vamos deixar que os jurados decidam se consideram a sua cliente inocente ou culpada. Mais alguma coisa, Sr. Singer?
 David ficou ali parado, olhando para ela, e o recinto parecia flutuar. Quis xing la. Quis jogar se de joelhos e implorar lhe que fosse razovel. Quis voltar para 
a cama, em casa. Ele falou, com a voz rouca:
   No. Obrigado, meritssima! 
 A juza Williams fez um gesto rpido com a cabea. 
   Sr. Singer,  a sua vez. No desperdice mais o tempo deste tribunal. 
 David caminhou at a bancada do jri, tentando se esquecer da dor de cabea e da febre. Ele falou devagar:
 
   Senhoras e senhores, todos escutaram a promotoria ridicularizando os factos do distrbio de personalidade mltipla. Eu tenho certeza de que o Sr. Brennan no 
estava sendo deliberadamente malicioso. Suas declaraes foram feitas por uma questo de ignorncia. O facto  que ele no conhece nada acerca do distrbio de personalidade 
mltipla, e o mesmo se d com algumas das testemunhas que aqui ele trouxe. Mas eu vou trazer, para lhes falar, algumas pessoas que conhecem bem o assunto. H mdicos 
de ptima reputao que so especializados neste problema. Depois de ouvirem os depoimentos deles, estou certo de que uma nova luz ser lanada sobre o que o Sr. 
Brennan esteve lhes dizendo. O senhor Brennan falou sobre a culpa da minha cliente ao cometer estes crimes terrveis. Eis um ponto muito importante. Culpa. Para 
que se prove um assassinato em primeiro grau, no  necessrio que haja apenas um ato culpvel, mas tambm o dolo. Eu vou lhes mostrar que no houve dolo, porque 
Ashley Paterson no estava no comando de sua personalidade quando os crimes ocorreram. Alguns eminentes mdicos vo testemunhar que Ashley Paterson tem duas personalidades 
adicionais, ou alteres, uma das quais  a controladora. 
 David olhou bem nos rostos dos jurados. Eles pareciam estar oscilando igual a pndulos  sua frente. Ele fechou os olhos bem apertados durante um instante. 
   A Associao Psiquitrica Norte Americana reconhece o distrbio de personalidade mltipla. Tambm o reconhecem proeminentes mdicos pelo mundo afora, que j 
trataram de pacientes com este problema. uma das personalidades de Ashley Paterson cometeu assassinato, mas foi uma personalidade... um alter... sobre o qual ela 
no tem controle algum.   Sua voz foi ficando mais forte.   Para que os senhores e as senhoras vejam o problema com mais clareza, precisam entender que a lei no 
pune uma pessoa inocente. Ento, temos um paradoxo aqui. Imaginem um gmeo siams sendo julgado por assassinato. A lei diz que no se pode castigar o culpado, pois 
assim o inocente tambm estaria sendo castigado.   O jri escutava atentamente. 
 David fez um gesto com a cabea na direco de Ashley. 
   Neste caso, no temos duas, mas sim trs personalidades com que lidar. 
 Ele se dirigiu  juza Williams:
   Eu gostaria de chamar a minha primeira testemunha. Dr. Joel Ashanti. 

  Dr. Ashanti, onde o senhor pratica a medicina?
   No Madison Hospital, em Nova York. 
   E veio at aqui porque eu lhe pedi?
   No. Eu li sobre o julgamento e quis dar o meu depoimento. J trabalhei com pacientes que tm distrbio de personalidade mltipla e quis prestar alguma ajuda... 
se estiver ao meu alcance. O DPM  muito mais comum do que o povo imagina, e eu gostaria de tentar esclarecer quaisquer mal entendidos sobre esta perturbao. 
   Aprecio o seu gesto, doutor. Nos casos deste distrbio,  comum encontrar pacientes com duas personalidades ou alteres?
   A minha experincia mostra que pessoas portadoras do DPM costumam ter muito mais alteres, algumas vezes ou at mesmo uma centena. 
 
 Eleanor Tucker se virou a fim de sussurrar algo para Mickey Brennan, que sorriu. 
   H quanto tempo vem lidando com o distrbio de personalidade mltipla, Dr. Ashanti?
   H quinze anos. 
   Num paciente com DPM, costuma haver um alter que domina?
   Sim. 
 Alguns dos jurados estavam tomando notas. 
   E o indivduo... a pessoa que tem essas personalidades dentro de si... tem conscincia dos outros alteres?
   Isso varia. s vezes, alguns dos alteres conhecem todos os demais; s vezes, s conhecem alguns. Mas o indivduo normalmente no tem conscincia deles, no at 
que comece a se submeter a tratamento psiquitrico. 
   Isso  muito interessante. O DPM tem cura?
   Frequentemente, sim.  necessrio um tratamento psiquitrico prolongado. s vezes, chega a durar seis ou sete anos. 
   O senhor j conseguiu curar pacientes de DPM?
   Ah, sim. 
   Obrigado, doutor. 
 David virou se para estudar o jri durante alguns instantes.
Interessados, mas no convencidos, pensou. 
 Ele olhou para Brennan. 
   A testemunha  sua. 
 Brennan se levantou e foi at o banco das testemunhas. 
   Dr. Ashanti, o senhor declarou que tomou um avio de Nova York para c porque quis prestar uma ajuda?
   Correcto. 
   A sua vinda no teria algo a ver com o facto deste caso estar sendo amplamente divulgado e que a publicidade lhe seria benfica para... 
 David se levantou. 
   Objeco. Pergunta tendenciosa. 
   Indeferida. 
   Eu declarei por que vim   respondeu o Dr. Ashanti, tranquilamente. 
   Certo. Desde que o senhor est na prtica da medicina, doutor, quantos pacientes com perturbaes mentais diria que j tratou?
   Oh, talvez duzentos. 
   E destes casos, quantos diria que tinham o distrbio de personalidade mltipla?
   Uma dzia... 
 Brennan olhou para ele, fingindo espanto. 
   De um total de duzentos pacientes?
   Isso mesmo. Sabe,  que... 
   O que eu no sei, Dr. Ashanti,  como o senhor pode se considerar um especialista, tendo tratado um nmero to pequeno de casos. Eu agradeceria se o senhor pudesse 
nos dar evidncias que possam provar ou refutar a existncia do distrbio de personalidade mltipla. 
   Quando o senhor fala em provar... 
   Estamos num tribunal de justia, doutor. O jri no vai tomar decises baseado em teoria ou em tese. E se, por exemplo, a r detestasse os homens que assassinou 
e, depois de mat los, decidiu usar a desculpa de um alter dentro de si para poder... 
 David estava de p. 
 
   Objeco! A argumentao  tendenciosa e est conduzindo a testemunha. 
   Indeferida. 
   Meritssima... 
   Sente se, Sr. Singer. 
 David lanou um olhar furioso para a juza Williams e retomou o seu assento. 
   Ento, o que est nos dizendo, doutor,  que no existe evidncia capaz de provar ou refutar a existncia do DPM?
   Existir, no existe. Mas... 
Brennan assentiu. 
   s. 

O Dr. Royce Salem estava no banco das testemunhas. 
   Dr. Salem, o senhor examinou Ashley Paterson?   perguntou David. 
   Examinei. 
   E qual foi a sua concluso?
   A Senhorita Paterson est sofrendo de DPM. Ela tem dois alteres, que se chamam Toni Prescott e Alette Peters. 
   Ela tem algum controle sobre eles?
   Nenhum. Quando esses alteres assumem o controle, ela fica num estado de amnsia dissociativa. 
   O senhor poderia explicar o que  isso, Dr. Salem?
   Amnsia dissociativa  um estado em que a vtima perde a conscincia de onde est, ou do que est fazendo. Pode durar minutos, dias ou semanas. 
   E durante esse perodo, o senhor diria que a pessoa  responsvel por suas aes?
   No. 
   Obrigado, doutor!   Ele se dirigiu a Brennan.   A testemunha  sua. 
   Dr. Salem, o senhor presta consultoria para vrios hospitais e d palestras pelo mundo inteiro?   perguntou Brennan. 
   Correcto. 
   Presumo que os seus colegas sejam mdicos talentosos e habilidosos?
   Eu diria que sim. 
   Ento, todos concordam quanto ao distrbio de personalidade mltipla?
   No. 
   O que o senhor quer dizer com "no"?
   H os que discordam. 
   O senhor quer dizer que eles no acreditam que exista?
   Exacto. 
   Mas eles esto errados e o senhor est certo?
   Eu j tratei pacientes, portanto sei que esta perturbao existe. Quando... 
   Deixe me fazer lhe a seguinte pergunta. Caso existissem esses distrbios de personalidade mltipla, um dos alteres sempre estaria na posio de dizer ao indivduo 
o que fazer? O alter diz "Mate", e o indivduo mata?
   Depende. Os alteres tm vrios nveis de influncia. 
   Ento, o indivduo poderia estar no comando. 
   s vezes,  claro. 
   Na maioria das vezes?
   No. 
 
   Doutor, onde est a prova de que o DPM existe?
   Eu j presenciei mudanas fsicas completas em pacientes sob hipnose e sei que... 
   E isso  uma base para a verdade? 
   Dr. Salem, se eu o hipnotizasse dentro de um ambiente quente e lhe dissesse que o senhor estava no plo norte, despido e no meio de uma tempestade de neve, a 
temperatura do seu corpo iria cair?
   Ora, iria, mas... 
    s. 

David se aproximou do banco das testemunhas. 
   Dr. Salem, o senhor tem alguma dvida de que esses alteres existam no interior de Ashley Paterson?
   Nenhuma. E so absolutamente capazes de assumir o comando e domin la. 
   E ela no estaria consciente disso?
   Ela no estaria consciente. 
   Obrigado! 

  Eu gostaria de chamar Shane Miller ao banco.   David esperou que ele prestasse o juramento.   O que faz, profissionalmente, Sr. Miller?
   Eu sou supervisor na Corporao Global de Computao Grfica. 
   E h quanto tempo trabalha nessa empresa?
   Cerca de sete anos. 
   E Ashley Paterson estava empregada l?
   Estava. 
   E trabalhava sob a sua superviso?
   Trabalhava. 
   Ento o senhor chegou a conhec la bem?
   Correcto. 
   Sr. Miller, ouviu falar do depoimento de mdicos dizendo que alguns dos sintomas do distrbio de personalidade mltipla so parania, nervosismo, tenso. O senhor 
chegou a observar alguns desses sintomas na Senhorita Paterson?
   Bem, eu... 
   A Senhorita Paterson no disse que achava estar sendo seguida por algum?
   Disse, sim. 
   E que ela no fazia idia de quem poderia ser ou por que algum estaria fazendo isso?
   Correcto. 
   No disse uma vez que algum usara o computador dela para amea la com uma faca?
   Disse. 
   E as coisas acabaram ficando to ruins, que o senhor sugeriu que ela fosse se consultar com o psiclogo que trabalha na empresa, o Dr. Speakman?
   Exactamente. 
   Ento, Ashley Paterson apresentava os sintomas de que estamos falando?
   Correcto. 
   Obrigado, Sr. Miller!   David se dirigiu a Mickey Brennan.   A testemunha  sua. 
  Quantos empregados tem directamente sob a sua superviso, Sr. Miller?
 
   Trinta. 
   E de trinta funcionrios, Ashley Paterson  a nica que o senhor viu passar mal?
   Ora, no... 
   Ah, no mesmo?
   Todo mundo passa mal s vezes. 
   O senhor quer dizer que outros funcionrios j precisaram ir se consultar com o psiclogo da empresa?
   Oh, claro. Eles o mantm bastante ocupado. 
 Brennan mostrou se impressionado. 
    mesmo?
   . Tem muita gente com problemas. Ora, so seres humanos! 
   No tenho mais perguntas. 
 A juza Williams falou:
   Deseja reinquirir?
 David se aproximou do banco das testemunhas. 
   Sr. Miller, disse que alguns dos funcionrios sob a sua superviso tinham problemas. Que tipo de problemas?
   Ora, podia ser uma briga com o namorado ou o marido... 
   Muito bem. 
   Ou podia ser um problema financeiro... 
   Muito bem. 
   Ou os filhos enchendo a pacincia... 
   Em outras palavras, os problemas tpicos de mbito domstico que qualquer um de ns pode enfrentar?
   Exacto. 
   Mas ningum foi se consultar com o Dr. Speakman porque estava se achando perseguido ou porque achava que algum estivesse lhe fazendo ameaas de morte?
   No. 
   Obrigado! 
 A sesso entrou em recesso para o almoo. 

David entrou no carro e passeou pelo parque, deprimido. O julgamento ia mal. Os mdicos no se decidiam quanto  existncia do DPM. Se eles no conseguem chegar 
a um acordo, pensou, como  que eu vou conseguir que o jri concorde? No posso deixar que nada acontea a Ashley. No posso. Ele estava chegando perto do Fiarold's 
Caf, um restaurante perto do frum. Estacionou o carro e entrou. A recepcionista sorriu para ele. 
   Boa tarde, Sr. Singer!
 Ele estava afamado. Difamado?
   Por aqui, por favor   Ele a acompanhou at reservado e se sentou. A moa lhe entregou o cardpio, deu outro demorado sorriso e se foi, com as cadeiras balanando 
de maneira provocante. As mordomias da fama, pensou David com secura. No estava com fome, mas pde ouvir a voz de Sandra dizendo: "Voc precisa comer para se manter 
forte. "
 Havia dois homens e duas mulheres sentados no compartimento ao lado do dele. um dos homens dizia:
   Ela  muito pior do que Lizzie Borden. Borden s matou duas pessoas. 
 O outro acrescentou:
   E ela no castrou ningum. 
   O que ser que vo fazer com ela?
   Est brincando? Vai pegar sentena de morte. 
 
   Pena que a Meretriz Sanguinria no possa pegar trs sentenas de morte! 
 isso que o povo anda dizendo, pensou David. Teve a deprimente impresso de que se desse uma volta pelo restaurante, ouviria comentrios parecidos com esse. Brennan 
havia construdo uma imagem monstruosa dela. David chegou a ouvir a voz de Quiller. Se voc no a levar ao banco das testemunhas, esta  a imagem que os jurados 
tero em mente quando se recolherem  sala do jri para chegar ao veredicto. 
 Preciso correr o risco. Preciso deixar que os jurados vejam por si mesmos que Ashley est dizendo a verdade. 
 A garonete estava ao seu lado. 
   J quer fazer o seu pedido, Sr. Singer?
   Mudei de idia   respondeu ele.   No estou com fome.   Quando se levantou e saiu do restaurante, percebeu olhos malficos acompanhando o. Espero que ningum 
esteja armado, pensou.
 
        Captulo Vinte

Quando voltou ao frum, David visitou Ashley em sua cela. Ela estava sentada no pequeno catre, olhando para o cho. 
   Ashley. 
Ela ergueu o rosto, os olhos cheios de desespero. 
David sentou se ao seu lado. 
   Precisamos conversar. 
 Ela ficou olhando para ele, calada. 
   Essas coisas horrveis que andam dizendo sobre voc... nada disso  verdade. Mas os jurados no sabem. Eles no a conhecem. Precisamos deixar que vejam como 
voc  realmente. 
 Ashley olhou para ele e falou, desanimada:
   E como eu sou realmente?
   Voc  um ser humano decente, que tem uma doena. Eles vo se identificar com isso. 
   O que voc quer que eu faa?
   Eu quero que voc v para o banco das testemunhas e preste o seu depoimento. 
 Ela ficou olhando fixamente para ele, horrorizada. 
   Eu... eu no posso. No sei de nada. No posso lhes dizer nada. 
   Deixe isso comigo. Tudo o que voc precisa fazer  responder s minhas perguntas. 
Um guarda veio at  cela. 
   A sesso vai comear. 
 David se levantou e apertou a mo de Ashley. 
   Vai dar certo. Voc vai ver. 
  Todos de p. A sesso est comeando agora. A meritssima juza Williams preside o caso O Povo do Estado da Califrnia contra Ashley Paterson. 
 A juza Williams sentou se  sua mesa. 
   Posso me dirigir ao juzo?   perguntou David. 
   Pode. 
 Mickey Brennan foi at  mesa junto com David. 
   O que deseja, Sr. Singer?
   Eu gostaria de chamar uma testemunha que no est na lista dos procedimentos probatrios. 
   J estamos bastante avanados com o julgamento para a introduo de novas testemunhas   disse Brennan. 
   Eu gostaria de chamar Ashley Paterson como a minha prxima testemunha. 
 A juza Williams falou:
   Eu no... 
 Mickey Brennan disse rapidamente:
   O estado no se ope, meritssima. 
 A juza Williams olhou para os dois advogados. 
   Est bem. Pode chamar a sua testemunha, Sr. Singer. 
   Obrigado, meritssima!   Ele caminhou at onde Ashley estava e lhe estendeu a mo.   Ashley... 
 Ela ficou sentada, em pnico. 
    preciso. 
 Ela se levantou, o corao palpitando, e lentamente se encaminhou at o banco das testemunhas. 
Mickey Brennan sussurrou para Eleanor:
  Eu estava torcendo para que ele a chamasse. 
 Eleanor assentiu. 
   Acabou se. 
 
 Ashley Paterson estava prestando juramento junto ao oficial de justia. 
   Jura solenemente dizer a verdade, toda a verdade, nada mais Que a verdade, com a ajuda de Deus?
   Juro   disse ela, num sussurro de voz. E foi sentar se no banco das testemunhas. 
 David se aproximou dela e falou calmamente:
   Eu sei que isto  muito difcil para voc. Foi acusada de crimes hediondos que no cometeu. Tudo o que quero  que o jri saiba a verdade. Voc se recorda de 
ter cometido algum daqueles crimes?
 Ashley balanou a cabea. 
   No. 
 David olhou de relance para o jri e prosseguiu. 
   Voc conhecia Dennis Tibble?
   Conhecia. Ns trabalhvamos na mesma empresa, a Corporao Global de Computao Grfica. 
   Tinha alguma razo para matar Dennis Tibble?
   No.   Era difcil falar   Eu fui ao apartamento dele para dar lhe alguns conselhos que me havia pedido, e foi a ltima vez em que o vi. 
   Voc conhecia Richard Melton?
   No... 
   Ele era um artista. Foi assassinado em So Francisco. A polcia encontrou amostras do seu DNA e de suas impresses digitais no local. 
 Ashley estava balanando a cabea de um lado para o outro. 
   Eu... no sei o que dizer. Eu no o conhecia!
   E conhecia o delegado Sam Blake?
   Conhecia. Ele estava me ajudando. Eu no o matei!
   Voc sabe que tem duas outras personalidades, ou alteres, dentro de si, Ashley?
   Sei. 
   Quando ficou sabendo disso?
   Antes do julgamento. O Dr. Salem me contou. Eu no consegui acreditar. Eu... ainda no acredito. ...  uma coisa horrvel demais!
   Voc no tinha conhecimento prvio desses alteres. 
   No. 
   Nunca tinha ouvido falar de Toni Prescottan ou de Alette Peters?
   No!
   E agora acredita que elas existam dentro de voc?
   Acredito... Eu tenho de acreditar. Elas devem ter feito todas... todas essas coisas horrveis... 
   Ento, voc no se lembra de ter conhecido Richard Melton, no tinha motivo algum para matar Dennis Tibble ou o delegado Sam Blake, que estava no seu apartamento 
para proteg la?
   Correcto.   Seus olhos percorreram todo o recinto lotado, e ela sentiu um certo pnico. 
   Uma ltima pergunta   falou David.   J teve algum problema com a justia?
   Nunca. 
 David colocou a mo sobre a dela. 
    tudo, por ora.   Ele se dirigiu a Mickey Brennan.   A testemunha  sua. 
 Brennan se levantou, com um amplo sorriso estampado no
rosto. 
 
   Ora, Senhorita Paterson, finalmente temos a chance de falar com todas vocs. A senhorita alguma vez teve relao sexual com Dennis Tibble?
   No. 
   Teve alguma relao sexual com Richard Melton?
   No. 
   Alguma vez, teve relao sexual com o delegado Sam Blake?
   No. 
   Isso  muito interessante.   Brennan olhou de relance para o jri.   Porque resqucios de secreo vaginal foram encontrados nos corpos desses trs homens. Os 
testes de DNA coincidem com os do seu DNA. 
   Eu... eu no sei de nada disso. 
   Talvez tenha sido vtima de uma armao. Talvez algum demnio tenha posto as mos nessas secrees... 
   Objeco. So consideraes tendenciosas   falou David. 
   Indeferida. 
  ... e as tenha colocado sobre aqueles trs corpos mutilados. Acaso tem inimigos que estariam dispostos a fazer isso com a senhorita?
   Eu... eu no sei. 
   O laboratrio de impresses digitais do FBI verificou as digitais que a polcia encontrou nas cenas dos crimes. E eu estou certo de que isto a surpreender... 

   Objeco   disse David. 
   Mantida. Tenha cuidado, Sr. Brennan. 
   Pois no, meritssima! 
 Dando se por satisfeito, David tornou a sentar se, devagar. 
 Ashley estava  beira de um ataque de nervos. 
   Os alteres devem ter... 
   As impresses digitais nas cenas dos trs assassinatos eram suas, e somente suas. 
 Ashley ficou ali sentada, em silncio. 
 Brennan andou at uma mesa, pegou uma faca de cortar carne embrulhada em papel celofane e a exibiu. 
   Senhorita Paterson, reconhece isto aqui?
   Poderia... poderia ser uma das... uma das minhas... 
    uma das suas facas? E . J foi recolhida como prova documental. As manchas nela coincidem com o sangue do delegado Blake. Suas impresses digitais esto nesta 
arma do crime. 
 Ashley estava balanando a cabea de um lado para o outro, desnorteada. 
   Eu jamais vi um caso mais claro de assassinato a sangue frio ou uma defesa mais dbil. Ocultar se por trs de duas personagens inexistentes, imaginrias,  a 
mais... 
 David estava novamente de p. 
   Objeco. 
   Mantida. Eu j o adverti, Sr. Brennan. 
   Desculpe me, meritssima! 
 Brennan prosseguiu. 
   Tenho certeza de que o jri gostaria de conhecer as personagens de que est nos falando. A senhorita  Ashley Paterson, correcto?
   Correcto. 
   Pois bem. Eu gostaria de falar com Toni Prescott. 
   Eu... eu no consigo traz la. 
 Brennan olhou para ela, surpreso. 
   No consegue? mesmo? Ora, ento, que tal Alette Peters?
 
 Ashley balanou a cabea, prestes a entrar em desespero. 
   Eu... no tenho controle sobre elas. 
   Senhorita Paterson, eu estou tentando ajud la   disse Brennan.   Estou querendo mostrar ao jri os seus alteres que mataram e mutilaram aqueles trs homens 
inocentes. Traga as aqui. 
   Eu... no consigo.   Ela comeou a chorar. 
   No pode porque elas no existem! Est se escondendo atrs de fantasmas, Senhorita Paterson.  a nica sentada nesse banco, assim como  a nica culpada. Elas 
no existem, mas Ashley Paterson existe, e eu vou lhe dizer o que mais existe... provas irrefutveis, inegveis, de que a senhorita assassinou trs homens e os 
emasculou a sangue frio.   Ele se dirigiu  juza Williams.   Meritssima, o estado d a inquirio da testemunha por encerrada. 
 
 David se virou para ver o jri. Todos os jurados estavam de olhos pregados em Ashley, e seus rostos estavam marcados pela repulsa. 
 A juza Williams se dirigiu a David. 
   Sr. Singer?
 David se levantou. 
   Meritssima, eu peo permisso para que a r seja hipnotizada, a fim de... 
 A juza Williams falou com aspereza:
   Sr. Singer, eu avisei antes que no ia permitir que este julgamento fosse transformado num espectculo  parte. O senhor no pode hipnotiz la aqui no meu tribunal. 
A resposta  "no". 
 David falou incisivamente:
   Sua Excelncia tem de me deixar hipnotiz la. No sabe a importncia... 
   J chega, Sr. Singer   disse ela friamente.   Eu vou cit lo uma segunda vez por desacato. Deseja reinquirir a testemunha ou no?
 David ficou parado, frustrado. 
   Desejo, sim, meritssima.   Ele caminhou at o banco das testemunhas.   Ashley, voc sabe que est sob juramento?
   Sei, sim.   Ela estava com a respirao ofegante, lutando para se controlar. 
   E tudo o que disse  a verdade, em conformidade com o seu conhecimento?
   Correcto. 
   Sabe que h dois alteres em sua mente, em seu corpo e em sua alma, sobre os quais voc no tem controle?
   Sei. 
   Toni e Alette?
   Certo. 
   Voc no cometeu nenhum daqueles crimes hediondos?
   No. 
   Um dos seus alteres foi quem os cometeu, e voc no  responsvel. 
 Eleanor olhou para Brennan indagativamente, mas ele sorriu e balanou a cabea. 
   Ele que se enforque!   sussurrou. 
   Helen...   David parou, empalidecido pelo deslize.   Quero dizer, Ashley... Voc precisa trazer Toni aqui e agora. 
 
 Ashley olhou para David e balanou a cabea, sem saber o que fazer. 
   Eu... eu no consigo   disse ela, num sussurro de voz. 
   Consegue, sim   disse David.   Toni est nos escutando neste exacto momento. Est se divertindo, e por que no estaria? Ela cometeu trs assassinatos e saiu 
impune.   Ele elevou a voz.   Voc  muito esperta, Toni. Saia dai e venha receber uma salva de palmas. Ningum pode fazer nada contra voc. Eles no podem castigar 
Ashley porque ela  inocente, e teriam de punir a ela para atingir voc. 
 Todos no tribunal estavam de olhos cravados em David. 
Ashley continuava em seu lugar, petrificada. 
 David chegou mais para perto dela. 
   Toni! Toni, voc est me ouvindo? Eu quero que voc saia da agora!
 Ele aguardou um instante. Nada aconteceu. Ele elevou a voz. 
   Toni! Alette! Saiam dai. Apaream. Todos aqui sabem que vocs esto a. 
 A sala de audincias permaneceu em absoluto silncio. 
 David perdeu o controle. Estava gritando:
   Saiam. Mostrem as suas caras... Porra! Agora! J! 
 Ashley irrompeu em lgrimas. 
   Venha  mesa, Sr. Singer   disse a juza Williams, enfurecida. 
 Lentamente, David se encaminhou at ela. 
   J acabou de atormentar a sua cliente, Sr. Singer? Vou enviar um relatrio do seu comportamento para a ordem dos advogados. O senhor  uma desonra para a sua 
profisso, e eu vou recomendar que lhe cassem a licena. 
 David no teve resposta. 
  O senhor tem mais alguma testemunha para chamar?
David balanou a cabea, derrotado. 
  No, meritssima. 
Acabara se. Ele havia perdido. Ashley ia morrer. 
  A defesa d a sua parte por encerrada. 

Joseph Kincaid estava sentado na ltima fileira de espectadores, assistindo, com uma expresso taciturna no rosto. Ele se dirigiu a Harvey Udell. 
   Livre se dele.   Kincaid se levantou e foi embora. 
 Udell parou David quando este estava deixando a sala. 
   David... 
   Ol, Harvey!
   Eu sinto muito pela maneira como isto terminou. 
   No ... 
   O Sr. Kincaid est muito contrariado por ter de fazer isto, mas acha que seria melhor se voc no voltasse para a firma. Boa sorte! 

No momento em que pisou do lado de fora da sala de audincias, David foi cercado por cmaras de televiso e reprteres aos berros. 
   O que tem a declarar, Sr. Singer. .?
   Ouvimos dizer que a juza Williams vai mandar cassar seu registro... 
   A juza Williams diz que vai det lo por desacato. O senhor acha que...?
   Os especialistas acham que o senhor perdeu este caso. Est pensando em apelar...?
 
   Os especialistas em assuntos jurdicos de nossa rede acham que a sua cliente vai pegar a pena de morte... 
   O que est planeando fazer no futuro...?
 David entrou em seu carro sem dizer palavra alguma e se foi.
 
        Captulo Vinte e um 

Ele reviu as cenas na cabea diversas vezes, infinitas vezes. 

Eu li as notcias hoje de manh, Dr. Paterson. No sei como lhe dizer o quanto fiquei sentido! 
 Decerto. Foi um impacto muito grande! Eu preciso de sua ajuda, David. 
 Claro. O que eu puder fazer
 Quero que voc represente Ashley. 
 Eu no posso fazer isso. No sou advogado criminalista. Mas posso lhe recomendar um excelente advogado, Jesse Quiller
 Ento, est bem. Obrigado, David... 
Voc  um jovem ansioso, no  mesmo? A nossa reunio estava marcada somente para as cinco da tarde. Ora, eu tenho boas notcias. 
Ns vamos torn lo scio da empresa. 
O senhor pediu para falar comigo?
 Pedi, sim, meritssima. Esto falando sobre este julgamento na Internet, e j condenaram a r. Isto pode prejudicar muito a defesa. 
Portanto, estou entrando com uma moo de anulao do julgamento. 
 Acho que  uma excelente razo para anulao, Sr. Singer. Vou deferi la... 
O amargo jogo do "e se"... 

Na manh seguinte, foi aberta a sesso no tribunal. 
   A promotoria est pronta para concluir sua alegao?   Brennan se levantou. Caminhou at a bancada do jri e olhou
para os jurados, uma um . 
   Os senhores e as senhoras tm a condio de fazer histria, aqui e agora. Se acreditarem que a r  de facto muitas pessoas diferentes e no tem responsabilidade 
sobre o que fez, pelos crimes hediondos que cometeu, e a absolverem, ento estaro dizendo que qualquer um consegue cometer um crime impunemente, bastando, para 
isso, alegar que no o cometeu, que foi algum alter ego misterioso quem o cometeu. Eles podem roubar, estuprar e matar, e sero culpados? No. "Eu no fiz nada. 
Foi o meu alter ego quem fez." Ken, Joe, Suzy ou seja l como eles queiram se autodenominar. Ora, eu acho que os senhores e as senhoras so inteligentes o suficiente 
para no se deixar levar por essa fantasia. A verdade est naquelas fotografias que viram. Aquelas pessoas no foram assassinadas por alter egos. Foram todas deliberada, 
calculada e cruelmente assassinadas pela r sentada quela mesa, Ashley Paterson. Senhoras e senhores do jri, o que a defesa tentou fazer aqui neste tribunal j 
foi tentado antes. Em Mann contra Teller, a deciso foi que uma constatao de DPM no implica, por si s, uma questo de absolvio. Em Estados Unidos contra Whirley, 
uma enfermeira, que assassinou um beb, alegou ser portadora do DPM. O tribunal a considerou culpada. 
 "Saibam de uma coisa: eu quase sinto pena da r. Todas aquelas personalidades vivendo dentro da pobre moa! Tenho certeza de que nenhum de ns haveria de querer 
um punhado de gente estranha e maluca habitando o nosso ntimo, no  mesmo? Sair assassinando e castrando homens por a? Eu morreria de medo!
 
 Ele se virou de frente para Ashley. 
   A r no parece amedrontada, parece? No o suficiente para deixar de pentear os cabelos, usar um belo vestido e uma discreta maquilhagem! Ela no me parece nem 
um pouco amedrontada. Est achando que os senhores e as senhoras vo acreditar na histria que contou e deix la sair em liberdade. Ningum  capaz de provar se 
esse distrbio de personalidade mltipla real mente existe; portanto, vamos ter de julgar por ns mesmos. A defesa alega que essas personalidades afloram e assumem 
o controle. Vejamos: Toni nasceu na Inglaterra. E Alette, esta nasceu na Itlia. So todas a mesma pessoa. Apenas nasceram em pases diferentes, em pocas diferentes. 
Isto no os deixa confusos? Sei que, a mim, me deixa confuso. Eu ofereci  r uma chance de nos mostrar seus alteres, mas ela no aceitou. Eu me pergunto por qu? 
Seria porque no existem...? A lei da Califrnia reconhece o DPM como uma doena mental? No. A do Colorado? No. Do Mississipi? No. A lei federal? No. A bem 
da verdade, nenhum estado tem uma lei que confirme o DPM como defesa jurdica. E por qu? Porque no  uma defesa. Senhoras e senhores, trata se de um libi fictcio 
para escapar ao castigo... "O que a defesa est pedindo aos senhores e s senhoras  que acreditem na existncia de duas pessoas dentro da pessoa da r, de forma 
que ningum assuma a responsabilidade dos actos criminosos dela. Mas s h uma r sentada dentro deste recinto: Ashley Paterson. Ns provamos, sem sombra de dvida, 
que ela  uma assassina. Mas ela alega no ter cometido os crimes. Alega que eles foram cometidos por outra pessoa, algum que lhe tomou emprestado o corpo para 
matar gente inocente... seus alteres. No seria maravilhoso se todos tivssemos alteres, algum para fazer tudo aquilo que secretamente desejamos, mas que a sociedade 
no permite? Ou talvez no. Acaso gostariam de viver num mundo onde as pessoas pudessem sair por a assassinando os outros e dizendo: "Ningum pode encostar em 
mim, foi o meu alter quem fez isso" e "Vocs no podem castigar o meu alter porque o meu alter, na verdade, sou eu"? "Mas este julgamento no trata de personalidades 
mticas, que no existem. A r, Ashley Paterson, est sendo julgada por trs assassinatos hediondos a sangue frio, e o estado est pedindo a pena de morte. Obrigado!
 Mickey Brennan voltou ao seu lugar. 
   A defesa est pronta para fazer o seu fechamento?
 David se levantou. Caminhou at a bancada do jri, olhou bem dentro do rosto de cada jurado, e o que viu foi desanimador. 
   Eu sei que este caso est sendo muito difcil para todos ns. Ouvimos especialistas testemunhando que j trataram o distrbio de personalidade mltipla, assim 
como ouvimos outros especialistas depondo que isso no existe. Os distintos jurados no so mdicos, de modo que ningum espera que a sua deciso seja tomada com 
base em conhecimentos mdicos. Eu gostaria de me desculpar diante de todos se o meu comportamento de ontem lhes pareceu grosseiro. Gritei com Ashley Paterson somente 
porque quis forar os seus alteres a se manifestarem. Eu j conversei com esses alteres. Eu sei que existem. Existem, de facto, uma Alette e uma Toni, e elas so 
capazes de controlar Ashley a qualquer momento que desejem. Ela no tem conhecimento de haver cometido crime algum. 
 
 "Eu lhes disse no incio deste julgamento: para que algum seja condenado por assassinato em primeiro grau,  preciso que haja uma prova fsica e um motivo. No 
h motivo aqui, senhoras e senhores. Nenhum. E a lei diz que a promotoria deve provar a culpa do ru alm de qualquer dvida razovel. Estou certo de que as senhoras 
e os senhores concordaro que, neste caso, h uma dvida razovel. 
 "Quanto s provas, a defesa nada questiona. H impresses digitais e vestgios do DNA de Ashley Paterson em todas as cenas dos crimes. Mas o simples facto de se 
encontrarem l deveria nos fazer pensar. Ashley Paterson  uma mulher jovem e inteligente. Se cometesse um assassinato e no quisesse ser descoberta, teria deixado 
suas impresses digitais em todos esses lugares? A resposta  'no'. 
 David continuou durante mais trinta minutos. Ao terminar, olhou para os rostos dos jurados e no sentiu acolhimento. Ele se sentou. 
 A juza Williams se dirigiu aos jurados. 
   Eu agora vou instrui los acerca da lei que se aplica a este caso. Prestem bastante ateno. 
 Ela falou durante os vinte minutos seguintes, detalhando o que era admissvel e permissvel segundo a lei. 
   Caso tenham perguntas, ou desejem que alguma parte dos depoimentos lhes seja referida outra vez, o relator do tribunal os atender. O jri est dispensado para 
deliberar. A sesso est suspensa at que os jurados voltem com o veredicto. 
 David ficou olhando os jurados sarem em fila da bancada e entrarem na sala do jri. Quanto mais eles demorarem, maiores sero as nossas chances, pensou. 
 Os jurados retornaram quarenta e cinco minutos depois. 
David e Ashley ficaram vendo os jurados entrarem em fila e tomarem seus assentos na bancada do jri. Ashley estava com o rosto impassvel. David percebeu que estava 
transpirando muito devido  tenso em que se encontrava. 
 A juza Williams se dirigiu ao porta voz do jri. 
   Os jurados chegaram a um veredicto?
   Chegamos, sim, meritssima. 
   Queira entreg lo, por favor, ao oficial de justia. 
 O oficial de justia levou a folha de papel para a juza, que a desdobrou. No havia um rudo sequer na sala de audincias. 
 O oficial de justia devolveu a folha de papel ao porta voz do jri. 
   Queira ler o veredicto, por favor. 
 Em tom lento e comedido, ele leu:
   No caso O Povo do Estado da Califrnia contra Ashley Paterson, ns, do jri, nesta referida aco, consideramos a r, Ashley Paterson, culpada pelo assassinato 
de Dennis Tibble, em violao  Seco 187 do Cdigo Penal. 
 Houve um grito sufocado na sala do tribunal. Ashley fechou os olhos com fora. 
   No caso O Povo do Estado da Califrnia contra Ashley Paterson, ns, do jri, nesta referida aco, consideramos a r, Ashley Paterson, culpada pelo assassinato 
do delegado Sam Blake, em violao  Seco 187 do Cdigo Penal. 
 
   No caso O Povo do Estado da Califrnia contra Ashley Paterson, ns, do jri, nesta referida aco, consideramos a r, Ashley Paterson, culpada pelo assassinato 
de Richard Melton, em violao  Seco 187 do Cdigo Penal. Ns, do jri, em todos os veredictos, os classificamos como de primeiro grau. 
 David comeou a sentir dificuldade para respirar. Ele se virou para Ashley, mas no teve palavras. Inclinou se para perto dela e a envolveu com os braos. 
 A juza Williams falou:
   Eu gostaria que cada jurado asseverasse o seu veredicto. uma um , eles se levantaram.   O veredicto lido foi o seu veredicto?   E depois de cada um ter afirmado 
que sim, a juza Williams disse:   O veredicto ser registrado e includo nos autos.   Ela prosseguiu:   Devo agradecer ao jri o tempo dedicado e o servio prestado 
neste caso. Esto dispensados. Amanh, o tribunal acolher a questo da sanidade. 
 David ficou sentado, entorpecido, vendo Ashley ser levada embora. 
 A juza Williams se levantou e foi para o seu gabinete sem olhar para David. Sua atitude mostrou lhe mais claramente do que palavras qual seria a sua deciso pela 
manh. Ashley seria condenada  morte. 

Sandra telefonou de So Francisco. 
   Voc est bem, David?
 Ele tentou se mostrar animado. 
   Estou. Estou ptimo. Como voc est se sentindo?
   Estou bem. Estive vendo os noticirios da televiso. A juza no foi justa com voc. Ela no pode cassar a sua licena. Voc s estava tentando ajudar a sua 
cliente. 
 Ele no teve resposta. 
   Eu sinto muito, David. Gostaria de estar a com voc. Eu poderia pegar o carro e ir... 
   No   disse ele.   No podemos correr nenhum risco. Voc esteve no mdico hoje?
  Estive. 
  O que ele disse?
  Falta pouco.  para qualquer momento. Que o dia do seu nascimento seja muito feliz, Jeffrey. 

Jesse Quiller telefonou. 
   Eu estraguei tudo   falou David. 
   Porra nenhuma! Voc pegou foi o juiz errado. O que voc fez para que ela ficasse to intransigente?
   Ela quis que eu entrasse num acordo de alegaes. No queria que o caso fosse a julgamento. Talvez eu devesse t la escutado   disse David. 

 Todos os canais de televiso estavam repletos de notcias referentes  desgraa dele. David assistiu a um grupo de especialistas jurdicos de uma das redes discutindo 
o caso. 
   Eu nunca tinha ouvido falar de um advogado de defesa gritando com o cliente! Vou dizer uma coisa, todo mundo na sala de audincias ficou atnito. Foi uma coisa 
das mais estapafrdias... 
 David mudou de canal. Onde foi que tudo desandou? A vida deve ter sempre um final feliz. Foi porque eu estraguei tudo. Ashley vai morrer, eu vou perder a minha 
licena, o beb vai nascer a qualquer momento, e eis que estou desempregado! 
 
 Ele ficou no hotel, sentado em seu quarto no meio da noite, olhando para a escurido. Foi o pior momento de sua vida. Em sua mente, repetia se seguidamente a ltima 
cena na sala de audincias. "O senhor no pode hipnotiz la aqui no meu tribunal. A resposta  no. "
 Se ao menos ela tivesse me deixado hipnotizar Ashley no banco, eu sei que isso teria convencido o jri. Tarde demais. Est tudo acabado agora. 
 E uma vozinha inconveniente em sua mente disse: Quem disse que est tudo acabado? Ainda no ouvi soarem as trombetas. 
 No h mais o que eu possa fazer. 
 Sua cliente  inocente. Voc vai permitir que ela morra?
 Deixe me em paz. 
 As palavras da juza Williams continuavam ecoando em sua mente. "O senhor no pode hipnotiz la aqui no meu tribunal. "
E trs palavras continuaram se repetindo   no meu tribunal. 

s cinco da manh, David fez dois telefonemas agitados, urgentes. 
Ao terminar, o sol j comeava a surgir no horizonte.  um pressgio, pensou David. Ns vamos ganhar. 

Pouco depois, David correu para uma loja de antiguidades. 
 O vendedor o atendeu. 
   O senhor est procurando alguma coisa especfica?   Ele o reconheceu.   Sr. Singer?
   Estou procurando um biombo de tela. Vocs teriam alguma coisa assim?
   Temos, sim. No temos biombos muito antigos, mas... 
   Mostre me o que vocs tm. 
   Pois no.   Ele conduziu David para uma seco onde havia vrios biombos chineses. O vendedor apontou para o primeiro.   Este aqui... 
  Est ptimo   disse David. 
  Pois no, senhor. Onde  para entregar?
  Eu mesmo levo. 

A prxima paragem de David foi numa loja de ferragens, onde ele comprou um canivete suo. Quinze minutos depois, entrava no saguo do tribunal carregando o biombo. 

   Eu tomei providncias para entrevistar Ashley Paterson. Tenho permisso para usar o gabinete do juiz Goldberg. Ele no est aqui hoje   disse David para o guarda 
de segurana. 
   Pois no, senhor. Est tudo pronto. Vou mandar trazer a r. O Dr. Salem e outro homem j esto l, esperando   respondeu o guarda. 
   Obrigado! 
 O guarda ficou vendo David entrar no elevador com o biombo chins. Maluco de pedra, esse a, pensou. 
O gabinete do juiz Goldberg era uma sala agradvel, confortvel, com uma mesa de frente para a janela, uma cadeira giratria e um sof, alm de vrias poltronas 
perto de uma das paredes. Quando David entrou, o Dr. Salem e outro homem estavam esperando em p. 
   Desculpem o atraso   falou David. 
   Este  Hugh Iverson. o especialista que voc pediu me   disse o Dr. Salem. 
 Os dois trocaram um aperto de mos. 
   Vamos nos aprontar logo   disse David.   Ashley j est chegando. 
 
 Ele se virou para Hugh Iverson e apontou para um canto da sala. 
  Que tal ali?
  Est bem. 
 Ele viu Iverson comear a se preparar. Minutos depois, a porta se abriu, e Ashley entrou conduzida por um guarda. 
   Eu vou ter de ficar aqui dentro   disse o guarda. 
 David assentiu. Ele se dirigiu a Ashley. 
   Sente se, por favor.   Esperou at que ela se sentasse e ento acrescentou:   Antes de mais nada, quero lhe dizer o quanto sinto pela maneira como as coisas 
correram. 
 Ela assentiu, meio aturdida. 
   Mas ainda no acabou. Resta nos uma chance. 
 Ela olhou para ele com ar descrente. 
   Ashley, eu gostaria que o Dr. Salem a hipnotizasse outra vez. 
   No. Qual  o sentido de... 
   Por favor. Faa isso por mim. 
 Ela encolheu os ombros. 
 David fez um gesto afirmativo para o mdico. 
 O Dr. Salem falou para Ashley:
   J passamos por isso antes, portanto voc j sabe que basta fechar os olhos e relaxar. s relaxar. Sinta todos os msculos do seu corpo abandonando a tenso. 
Voc s precisa dormir. Est ficando sonolenta... 
 Dez minutos depois, ele olhou para David e disse:
   Est totalmente entregue. 
 David se aproximou de Ashley com o corao palpitando. 
   Eu quero falar com Toni. 
 No houve reaco alguma. 
 David elevou a voz. 
   Toni. Eu quero que voc aparea. Est me ouvindo? Alette... Eu quero falar com vocs duas. 
 Silncio. 
 David estava gritando agora. 
   O que h com vocs? Esto assustadas demais? Foi isso que aconteceu no tribunal, no foi? Ouviram o que o jri falou? Ashley  culpada. Tiveram medo de aparecer! 
Voc  uma covarde, Toni! 
 Eles olhavam para Ashley. No havia reaco alguma. David olhou desesperado para o Dr. Salem. No ia funcionar. 

  Est aberta a sesso. Preside a meritssima juza Williams. 
Ashley estava sentada  mesa dos rus, ao lado de David. A mo dele estava envolta por uma enorme atadura. 
 David se levantou. 
   Posso me dirigir ao juzo, meritssima?
   Pode. 
 David se aproximou da mesa. Brennan o seguiu. 
   Eu gostaria de apresentar uma nova prova para este caso   disse David. 
   Absolutamente no   objectou Brennan. 
 A juza Williams se virou para ele e falou:
   Esta deciso cabe a mim, Sr. Brennan.   Ela se dirigiu de volta a David.   O julgamento acabou. A sua cliente foi condenada e... 
   Tem a ver com a alegao de insanidade   disse David.   Eu s estou pedindo dez minutos do seu tempo. 
 
 A juza Williams falou, zangada:
   O tempo no significa muito para o senhor, no  mesmo, Sr. Singer? J desperdiou muito tempo de todo mundo!   Ela tomou a deciso.  Tudo bem. Espero que seja 
o seu ltimo pedido a um tribunal de justia! A sesso entrar em recesso por dez minutos. 
 David e Brennan acompanharam a juza at o seu gabinete. 
 Ela se dirigiu a David. 
   Estou lhe concedendo os dez minutos que pediu. Do que se trata, Sr. Singer?
   Quero lhe mostrar parte de um filme, meritssima. 
 Brennan falou:
   No vejo onde isso possa... 
 A juza Williams falou para Brennan:
   Nem eu.   Ela se dirigiu para David.   O senhor s tem mais nove minutos. 
 David correu para a porta que dava para o corredor e a abriu. 
   Entre. 
 Hugh Iverson entrou, carregando um projector de dezasseis milmetros e uma tela porttil. 
   Onde coloco?
 David apontou para um canto da sala. 
   Ali. 
 Eles viram o homem ajeitar o equipamento e conect lo  tomada. 
   Posso fechar as cortinas?   perguntou David. 
 Foi tudo o que a juza Williams conseguiu fazer para conter a raiva. 
   Pode prosseguir, Sr. Singer   Ela olhou para o relgio.   O senhor tem sete minutos. 
 O projector foi ligado. O gabinete do juiz Goldberg surgiu na tela. David e o Dr. Salem estavam observando Ashley, sentada numa poltrona. 
 Na tela, o Dr. Salem falou:
   Est completamente entregue. 
 David caminhou para perto dela. 
   Eu quero falar com Toni... Toni! Eu quero que voc aparea. Est me ouvindo? Alette... Eu quero falar com vocs duas. 
 Silncio. 
 A juza Williams estava parada, o rosto contrado, assistindo ao filme. 

 David estava gritando agora. 
   O que h com vocs? Esto assustadas demais? Foi isso que aconteceu no tribunal, no foi? Ouviram o que o jri falou? Ashley  culpada. Tiveram medo de aparecer! 
Voc  uma covarde Toni! 
 A juza Williams se levantou. 
   Para mim, basta! Eu j vi esta encenao de mau gosto antes. O seu tempo acabou, Sr. Singer. 
   Espere   falou David.   Sua Excelncia ainda no viu... 
   Acabou se   falou a juza Williams e partiu em direco  porta. 
 De repente, uma msica preencheu o ambiente. 

"Um centavo por um novelo de l
Um centavo por uma agulha, a toda hora! 
 assim que o dinheiro se vai. 
 
Mas a lontra   pluft!   foi embora. "

Intrigada, a juza Williams se virou e olhou para a imagem na tela. 
 O rosto de Ashley estava completamente transfigurado. Era Toni. 
   Assustada demais para aparecer no tribunal? Voc achou mesmo que eu ia aparecer simplesmente porque voc me ordenou? O que acha que eu sou, um bichinho amestrado? 
  falou Toni, enraivecida. 
 A juza Williams voltou lentamente para o interior da sala, os olhos cravados na tela. 
   Eu ouvi aquele bando de idiotas se fazendo de bobos.   Ela imitou a voz de uma das pessoas na sala de audincias.   "Eu acho que o distrbio de personalidade 
mltipla no existe. " Mas que bando de idiotas! Eu nunca vi... 
 Enquanto eles viam, o rosto de Ashley se modificou outra vez. 
Ela pareceu relaxar na poltrona e a fisionomia assumiu um ar tmido. Com seu sotaque italiano, Alette falou:
   Sei que deu o melhor de si, Sr. Singer. Eu quis aparecer no tribunal e ajud lo, mas Toni no deixou. 
 A juza Williams estava olhando, sua face inexpressiva. 
 O rosto e a voz tornaram a mudar. 
   Mas  claro que eu no deixei   disse Toni. 
   Toni, o que acha que vai acontecer com voc se a juza der a Ashley a pena de morte?   perguntou. 
   Ela no vai dar a pena de morte. Ashley nem sequer conhecia um dos homens. Lembra se?
   Mas Alette conhecia todos eles. Voc cometeu aqueles assassinatos, Alette. Voc teve relaes sexuais com aqueles homens e depois os matou e os castrou...   
disse David. 
   Seu grande idiota!   falou Toni.   Voc no sabe de nada, hein? Alette jamais teria coragem de fazer uma coisa dessas. Fui eu que fiz. Eles mereceram a morte. 
S queriam saber de sexo.   Ela estava ofegante.   Mas eu fiz com que eles pagassem, no fiz? E ningum vai conseguir provar que fui eu. A dona Maria Certinha que 
fique com a culpa! Ns vamos todas parar num manicmio tranquilo e aconchegante e... 
 Ao fundo, por trs da tela do biombo ao canto, ouviu se um estalido alto. 
 Toni se virou. 
   O que foi isso?
   Nada   apressou se David em dizer.   Foi s... 
 Toni se levantou e correu em direco  cmara at que seu rosto preencheu toda a tela. Ela empurrou alguma coisa, e a cena se inclinou; uma parte do biombo caiu 
para dentro do enquadramento da filmagem. um pequeno furo havia sido aberto no centro. 
  Voc colocou uma merda de uma cmara aqui atrs   gritou Toni. Ela se virou para David.   Seu filho da puta! O que est querendo fazer? Voc me enganou! 
 Sobre a mesa, havia uma faca de cortar papel. Toni a agarrou e partiu para cima de David, gritando:
   Eu vou mat lo. Eu vou mat lo. 
 David tentou cont la, mas no conseguiu. A faca atingiu lhe a mo. 
 
 Toni ergueu o brao para atacar novamente, e o guarda correu at ela e tentou segur la. Toni derrubou o no cho. A porta foi aberta e um oficial uniformizado 
entrou correndo. Quando viu o que estava acontecendo, ele se jogou em cima de Toni. Ela deu lhe um chute na virilha, e ele caiu. Outros dois oficiais entraram correndo 
em seguida. Foram necessrios trs ao todo para agarr la e lev la de volta  poltrona, e o tempo todo ela no parou de berrar e gritar com eles. 
 Jorrava sangue da mo de David, que falou para o Dr. Salem:
   Pelo amor de Deus! Acorde a. 
   Ashley... Ashley... me escute. Voc vai voltar agora. Toni foi embora. Pode vir, Ashley. Eu vou contar at trs   disse o mdico. 
 E enquanto o grupo assistia a tudo, o corpo de Ashley foi se acalmando e relaxando. 
   Est me ouvindo?
   Estou.   Foi a voz de Ashley, soando distante. 
   Voc vai acordar quando eu chegar ao trs. um ... dois... trs... Como est se sentindo?
 Seus olhos se abriram. 
   Estou muito cansada. Eu disse alguma coisa?
 A tela no gabinete da juza Williams ficou em branco. David foi at  parede e acendeu as luzes. 
   Ora, mas que performance!   exclamou Brennan.   Se eles estivessem dando um Oscar para a melhor... 
 A juza Williams se dirigiu a ele. 
   Cale a boca. 
 Brennan olhou para ela, chocado. 
 Houve um silncio momentneo. A juza Williams olhou para
David. 
  Sr. Singer. 
  Pois no?
Houve uma pausa. 
  Eu lhe devo desculpas. 

Sentada  sua mesa, a juza Tessa Williams falou:
   Ambos os advogados concordaram em acolher a opinio de um psiquiatra que j examinou a r, o Dr. Salem. A deciso deste Tribunal reza que a r no  culpada, 
por razo de insanidade. Ela ser mandada para um hospital psiquitrico, onde poder se sujeitar a um tratamento. A sesso est suspensa. 
 David se levantou, exausto. Acabou, pensou. Finalmente acabou... Ele e Sandra poderiam retomar suas vidas. 
 Ele olhou para a juza Williams e disse, alegre:
   Ns estamos tendo um beb. 

  Eu gostaria de fazer uma sugesto. No sei se  possvel, mas se voc conseguir dar um jeito, acho que seria de grande ajuda para Ashley   disse o Dr. Salem para 
David. 
   O que ?
   O Hospital Psiquitrico de Connecticut, na Costa Leste, j tratou de mais casos de DPM do que qualquer outro do pas. Um amigo meu, o Dr. Otto Lewison,  o director. 
Se voc conseguir que o tribunal envie Ashley para l, acho que seria benfico para ela. 
   Obrigado!   disse David.   Vou ver o que posso fazer. 

  Eu... eu no sei como lhe agradecer   disse o Dr. Steven Paterson para David. 
 
   No precisa. Foi uma troca, elas por elas. Lembra se?   respondeu David, sorrindo. 
  Voc fez um trabalho brilhante. Durante um tempo, cheguei a ficar com medo... 
  Eu tambm. 
   Mas a justia foi cumprida. Minha filha vai ficar curada. 
   Tenho certeza disso   falou David.   O Dr. Salem sugeriu um hospital psiquitrico em Connecticut. Os mdicos so treinados em DPM. 
 O Dr. Paterson ficou calado um instante. 
   Sabe, Ashley no merecia nada disso. Ela  uma pessoa to bonita! 
   Concordo. Vou falar com a juza Williams para tentar conseguir a transferncia. 

A juza Williams estava no seu gabinete. 
   Posso ajud lo em alguma coisa, Sr. Singer?
   Eu gostaria de pedir um favor. 
 Ela sorriu. 
   Espero que eu possa atender. O que ?
 David explicou para a juza o que o Dr. Salem lhe havia dito. 
   Ora,  uma solicitao bastante incomum. Temos hospitais psiquitricos muito bons aqui na Califrnia. 
   Tudo bem. Obrigado, meritssima   disse ele, virando se para ir embora, decepcionado. 
   Eu no disse que no ia atend lo, Sr. Singer   David parou.   A solicitao  incomum, mas o caso foi inteiramente incomum. 
 David aguardou. 
   Acho que posso providenciar a transferncia. 
   Obrigado, meritssima! Eu lhe agradeo. 

Em sua cela, Ashley pensou: Eles me sentenciaram  morte. Uma morte longa, num hospcio cheio de gente maluca. Teria sido melhor se me matassem agora. Ela pensou 
na desesperana, nos anos infindveis que teria pela frente, e comeou a chorar. 
 A porta da cela se abriu, e seu pai entrou. Ele ficou parado um momento, olhando para ela com o rosto angustiado. 
   Querida...   ele se sentou  sua frente.   Voc vai viver   disse. 
 Ela balanou a cabea. 
   No quero viver. 
   No diga isso. Voc tem um problema psiquitrico, mas que pode ser curada. E vai ser. Quando estiver melhor, voc vai sair de l e vir morar comigo, e eu vou 
cuidar de voc. No importa o que acontea, sempre teremos um ao outro. Isso eles no podem nos tirar. 
 Ashley continuou sentada, sem dizer nada. 
   Sei como voc est se sentindo agora, mas acredite, isso vai mudar. Minha menina vai voltar para casa, curada.   Ele foi se levantando devagar   Eu sinto muito, 
mas tenho de voltar para So Francisco.   Esperou que Ashley dissesse alguma coisa. 
 Ela permaneceu em silncio. 
   David me disse que acha que voc vai ser mandada para um dos melhores centros psiquitricos do mundo. Voc gostaria que eu fosse visit la?
 Ela assentiu, desanimada. 
   Sim. 
 
   Tudo bem, querida.   Ele a beijou no rosto e deu lhe um 
abrao.   Vou providenciar para que voc tenha o melhor atendimento do mundo. Eu quero a minha menininha de volta. 
 Ashley viu o pai ir embora, e pensou: Por que no posso morrer agora? Por que eles no me deixam morrer?
 Uma hora mais tarde, David veio v la. 
   Ora, ora! Conseguimos!   disse ele. Olhou para ela apreensivo.   Voc est bem?
   Eu no quero ir para um manicmio. Prefiro morrer. No consigo continuar vivendo assim. David, me ajude. Por favor, me ajude. 
   Ashley, voc vai receber ajuda. O passado acabou. Agora voc tem um futuro. O pesadelo vai acabar   Ele pegou lhe na mo.   Olhe aqui, voc confiou em mim at 
agora. Continue confiando em mim. Voc vai voltar a levar uma vida normal. 
 Ela continuou sentada, calada. 
   Diga: "Eu acredito em voc, David. "
 Ela respirou fundo. 
   Eu... eu acredito em voc, David. 
Ele sorriu. 
  Isso! um recomeo para voc. 

No momento em que a deciso judicial foi levada a pblico, a mdia ficou em polvorosa. Da noite para o dia, David se tornou heri. Tinha apanhado um caso impossvel 
e ganhara. 
 Ele telefonou para Sandra. 
   Querida, eu... 
   Eu sei, meu bem. Eu sei. Acabei de ver na televiso. Mas que maravilha! Estou to orgulhosa de voc! 
   Eu no tenho como lhe dizer o prazer que estou sentindo por isso tudo ter acabado. Volto para casa hoje  noite. Mal posso esperar para ver... 
   David... 
  Diga. 
  David... aaaaa... 
  O qu? O que foi, querida?
 ... aaaaa... O beb est nascendo... 
  Espere por mim   gritou David. 

Jeffrey Singer nasceu pesando trs quilos e novecentos gramas, e era o beb mais lindo que David tinha visto. 
   Ele parece com voc   falou Sandra. 
   Parece mesmo, no ?   David estava exultante. 
   Estou feliz por tudo ter terminado bem   disse Sandra. 
 David soltou um suspiro. 
   Houve momentos em que cheguei a perder a confiana. 
   Eu no duvidei de voc um instante sequer. 
 David abraou Sandra e falou:
   Eu volto logo, querida. Preciso tirar as minhas coisas l da firma. 

Quando chegou aos escritrios da Kincaid, Turner, Rose & Ripley, David foi recebido calorosamente. 
   Parabns, David... 
   Belo trabalho... 
   Voc provou sua competncia... 
 David entrou em sua sala. Holly no estava. Ele comeou a limpar sua mesa. 
 
   David... 
 Ele se virou. Era Joseph Kincaid. 
 Kincaid caminhou at ele e falou:
   O que est fazendo?
   Estou limpando a minha sala. Eu fui despedido. 
 Kincaid sorriu. 
   Despedido? Claro que no! No, no, no. Houve algum mal entendido.   Ele estava exultante.   Estamos lhe dando uma participao na sociedade, meu rapaz. A bem 
da verdade, eu providenciei uma colectiva  imprensa para voc aqui hoje  tarde, s trs. 
 David olhou para ele. 
   Verdade?
 Kincaid assentiu. 
   Absoluta. 
    melhor cancelar   disse David.   Eu decidi voltar para o direito penal. Recebi uma oferta de participao na sociedade de Jesse Quiller. Pelo menos quando 
se est lidando com essa rea legal, sabe se quem so de facto os criminosos. Portanto, Joey, meu caro, pode pegar a sua sociedade e enfi la onde o sol no bate. 

 David saiu do escritrio. 

Jesse Quiller visitou a cobertura e falou:
    ptima! Tem mesmo o jeito de vocs dois! 
   Obrigada!   disse Sandra. Ela ouviu um barulho vindo do quarto do beb.   Vou ver o que h com Jeffrey   Ela foi correndo para o quarto ao lado. 
 Jesse Quiller se aproximou mais para poder apreciar uma bela moldura em prata de lei com a primeira fotografia de Jeffrey j montada. 
   Que linda: Onde vocs arranjaram?
   A juza Williams mandou. 
   Estou feliz por t lo de volta, scio   disse Jesse. 
   Eu estou feliz por estar de volta, Jesse. 
   Voc provavelmente vai precisar de um tempinho para relaxar. Descanse um pouco... 
   Certo. Estvamos pensando em pegar o carro e levar Jeffrey at o Oregon para visitar os pais de Sandra, e... 
   A propsito, chegou um caso interessante ao escritrio hoje de manh, David. uma mulher est sendo acusada de ter matado os dois filhos. Estou com o pressentimento 
de que ela  inocente. Infelizmente, estou indo para Washington para resolver outro caso, mas achei que voc poderia conversar com ela e ver o que acha.
 
Livro Trs
 
        Captulo Vinte e Dois

O Hospital Psiquitrico de Connecticut, 23 quilmetros ao norte de Westport, foi originalmente propriedade de Wim Beker, um holands rico, que construiu sua residncia 
ali em 1910. O exuberante terreno de quatro mil metros quadrados continha a casa grande, uma oficina, um estbulo e uma piscina. O estado comprou o imvel em 1925 
e reformou a casa para acolher cem pacientes. uma cerca alta foi construda ao redor da propriedade, com uma guarita na entrada. Todas as janelas foram protegidas 
por barras de metal, e uma ala da casa foi reforada para funcionar como rea de segurana, onde ficariam os internos perigosos. 
 Na sala do Dr. Otto Lewison, chefe da clnica psiquitrica, uma reunio estava em andamento. O Dr. Gilbert Keller e o Dr. Craig Foster estavam discutindo um novo 
paciente que estava para chegar. 
 Gilbert Keller era um homem de seus quarenta e poucos anos, estatura mediana, cabelos louros e intensos olhos cinzentos. 
Tratava se de um renomeado especialista no campo do distrbio de personalidade mltipla. 
 Otto Lewison, o superintendente do Hospital Psiquitrico de Connecticut, estava com mais de setenta anos, era um homem cheio de vida, sempre bem vestido, de barba 
cheia e culos pincenez. 
 O Dr. Craig Foster trabalhara com o Dr. Keller durante vrios anos e estava escrevendo um livro sobre o distrbio de personalidade mltipla. Todos estavam estudando 
os laudos de Ashley Paterson. 
 Otto Lewison falou:
   Essa moa vai precisar de cuidados especiais. Vinte e nove anos apenas e j matou cinco homens!   Ele deu mais uma olhadela nos papis.   E tambm tentou matar 
o prprio advogado. 
   A fantasia de todos   falou Gilbert Keller, secamente. 
   Vamos coloc la na ala de segurana A at que possamos fazer uma avaliao completa   disse Otto Lewison. 
   Quando ela vai chegar?   perguntou o Dr. Keller. 
 A voz da secretria do Dr. Lewison se fez ouvir no interfone. 
   Dr. Lewison, esto trazendo Ashley Paterson agora. O senhor gostaria que a levassem directo para a sua sala?
   Por favor.   Lewison olhou de volta para Keller   Isso responde  sua pergunta?

A viagem foi um pesadelo. Ao final de seu julgamento, Ashley Paterson foi levada de volta  sua cela, onde aguardou trs dias, enquanto eram tomadas as providncias 
para o voo que a levaria para a Costa Leste. 
 Um autocarro da carceragem a conduziu at o aeroporto em Oakland, onde havia um avio  sua espera. Era um DC 6 convertido, integrante da frota do enorme Sistema 
Nacional de Transporte de Prisioneiros, administrado pelo Servio do Comissariado de Polcia dos Estados Unidos. Havia 24 detentos a bordo, todos de mos e ps 
presos. 
 Ashley estava usando algemas e, ao sentar se, seus ps tambm foram aferrolhados ao assento. 
 
Por que esto fazendo isso comigo? Eu no sou uma criminosa perigosa. Sou uma mulher normal. E uma voz dentro dela falou: Que assassinou cinco pessoas inocentes. 

 Os prisioneiros no avio eram criminosos insensveis, condenados por assassinato, estupro, assalto a mo armada e uma dzia de outras violaes. Estavam sendo 
levados para presdios de segurana mxima em vrios pontos do pas. Ashley era a nica mulher a bordo. 
 Um dos presos olhou para ela e sorriu. 
   Oi, doura. Voc no gostaria de vir at aqui para esquentar o meu colinho?
   Pare com isso   advertiu um guarda. 
   Ei! Voc no tem nem um pouco de romantismo na alma? Essa dona a vai ficar sem trepar durante... Qual  a sua sentena, doura?
Outro preso falou:
   Voc est no atraso, formosura? Que tal eu me mudar para esse lugar a ao seu lado e entrar numa de...?
 Um terceiro estava de olhos fixos em Ashley. 
   Espere a   disse ele.   Essa  a tal que matou e castrou cinco homens. 
Estavam todos olhando para Ashley agora. 
Foi o fim das provocaes. 

A caminho de Nova York, o avio fez duas escalas para deixar e apanhar passageiros. Foi um voo demorado, houve turbulncia, e na hora de pousar no Aeroporto de 
La Guardia, Ashley enjoou. 
 Quando o avio aterrissou, dois polcias uniformizados estavam esperando por ela na pista. As algemas foram liberadas do assento do avio e voltaram a ser aferrolhadas 
ao interior da viatura da polcia. Ashley nunca se sentiu to humilhada. O facto de sentir se to normal tornava as circunstncias ainda mais intolerveis. Ser 
que eles achavam que ela ia tentar fugir ou assassinar algum? Tudo aquilo era passado, tinha chegado ao fim. Ser que eles no sabiam disso? Ela estava certa de 
que no tornaria a acontecer. Queria estar longe dali. Em qualquer lugar possvel. 
 Em algum ponto do longo e desagradvel trajecto at Connecticut, ela pegou no sono. Foi despertada pela voz de um guarda. 
   Chegamos. 
 Haviam chegado aos portes do Hospital Psiquitrico de Connecticut. 
Quando Ashley Paterson foi conduzida  sala do Dr. Lewison, este falou:
   Seja bem vinda ao Hospital Psiquitrico de Connecticut, Senhorita Paterson. 
 Ashley ficou esttica, empalidecida e calada. 
 O Dr. Lewison fez as apresentaes e puxou uma cadeira. 
   Sente se, por favor   Ele olhou para o guarda.   Tire as algemas dos ps e das mos da jovem. 
 Os ferrolhos foram retirados, e Ashley se sentou. 
   Eu sei que deve estar sendo muito difcil para voc. Vamos fazer o que estiver ao nosso alcance para facilitar lhe tudo ao mximo. Nosso objetivo  poder um 
dia deix la sair daqui, curada   disse o Dr. Foster. 
 Ashley encontrou voz para perguntar:
   Quanto... quanto tempo isso pode levar?
 
   Ainda  cedo demais para responder a esta pergunta. Se voc puder ser curada, pode levar cinco ou seis anos   falou o dr. Lewison. 
 Cada uma daquelas palavras atingiu Ashley como um raio. Se voc puder ser curada, pode levar cinco ou seis anos... 
   A terapia no apresenta riscos. Consistir num combinado de sesses com o Dr. Keller... hipnose, terapia de grupo e arte terapia. O mais importante  lembrar 
sempre que ns no somos seus inimigos. 
Gilbert Keller estava estudando a expresso dela. 
   Estamos aqui para ajud la e precisamos que voc nos ajude a fazer isso. 
E no havia mais nada a dizer. 
 Otto Lewison inclinou a cabea para o enfermeiro, que foi para perto de Ashley e pegou lhe o brao. 
   Voc agora vai ser levada para o seu quarto. Ns voltaremos a conversar depois   disse Craig Foster
 Depois que Ashley saiu da sala, Otto Lewison se dirigiu a Gilbert Keller. 
   O que voc acha?
   Bem, h uma vantagem. S precisamos trabalhar com dois alteres. 
 Keller estava tentando se lembrar
   Qual foi o mximo que tivemos?
   A Sra. Beltrano... noventa alteres. 

Ashley no sabia o que esperar, mas de alguma forma previra um crcere escuro e amedrontador. O Hospital Psiquitrico de Connecticut era mais parecido com um clube 
agradvel... atrs das grades. 
 Enquanto o enfermeiro a conduzia pelos compridos e vistosos corredores at o seu quarto, Ashley via os internos andando livremente de um lado para outro. Havia 
gente de todas as idades, e todos pareciam pessoas normais. Por que esto aqui? Alguns sorriram para ela e disseram "Bom dia", mas Ashley estava atnita demais 
para responder. Tudo parecia surreal. Ela estava num hospital de tratamento para doentes mentais. 
 Eu sou doente mental?
 Eles chegaram a uma grande porta de ao que separava uma ala da edificao. Havia um enfermeiro do lado de l. Ele apertou um boto vermelho, e a enorme porta 
se abriu. 
   Esta  Ashley Paterson. 
   Bom dia, Senhorita Paterson!   falou o segundo enfermeiro. 
 Eles fazem tudo parecer to normal! Mas s que nada mais  normal, pensou Ashley. O mundo virou de cabea para baixo. 
   Por aqui, Senhorita Paterson.   Ele a conduziu at outra porta e a abriu. 
 Ashley entrou. Em vez de uma cela, encontrou um quarto agradvel, de tamanho mediano, com as paredes pintadas de azul claro, um sof pequeno e uma cama que parecia 
confortvel. 
    aqui que a senhorita vai ficar. Mais uns minutinhos e suas coisas sero trazidas para c. 
 Ashley esperou o enfermeiro ir embora e fechou a porta.  aqui que voc vai ficar. Ela comeou a sentir claustrofobia. E se eu no quiser ficar? E se eu quiser 
sair daqui?
 Ela foi at  porta. Estava trancada. Ashley sentou se no sof, tentando organizar os pensamentos. Procurou concentrar se nas palavras positivas. Vamos tentar 
cur la. 
 Vamos tentar cur la. 
 
 Vamos cur la.
 
        Capitulo Vinte e Trs

O Dr. Gilbert Keller era o encarregado da terapia de Ashley. Sua especialidade era o tratamento do distrbio de personalidade mltipla e, embora no tivesse conseguido 
bons resultados em alguns tratamentos, sua taxa de xito era alta. Em casos como este, no existiam respostas fceis. Sua primeira tarefa era conquistar a confiana 
do paciente, faz lo sentir se  vontade em sua presena, e ento fazer surgirem os alteres, uma um , para que eles acabassem se comunicando entre si e pudessem 
compreender por que existiam e, afinal, por que no havia mais necessidade de existirem. Esse era o momento da harmonia, onde os estados de personalidade se juntavam 
numa nica entidade. 
Estamos muito longe disso, pensou o Dr. Keller. 

Na manh seguinte, o Dr. Keller levou Ashley para a sua sala. 
   Bom dia, Ashley!
   Bom dia, Dr. Keller!
   Quero que voc me chame de Gilbert. Vamos ser amigos. Como voc est se sentindo?
 Ela olhou para ele e disse:
  Dizem que matei cinco pessoas. Como posso estar me sentindo?
   Voc se lembra de ter matado alguma delas?
   No. 
   Eu li as transcries do seu julgamento, Ashley. Voc no matou essas pessoas. Foi um dos seus alteres quem cometeu os crimes. Vamos nos familiarizar com os 
seus alteres e, com o passar do tempo e a sua ajuda, vamos faz los desaparecer. 
   Eu... eu espero que consiga... 
   Eu posso conseguir. Estou aqui para ajud la, e  o que vou fazer. Os alteres foram criados em sua mente para salv la de uma dor insuportvel. Precisamos descobrir 
o que causou essa dor. Preciso descobrir quando esses alteres foram criados e por qu. 
   Como... como se faz isso?
   Vamos conversar. As coisas viro para voc. De tempos em tempos, vamos usar a hipnose e o sdio amial. Voc j foi hipnotizada antes, no foi?
   Fui. 
   Ningum vai pression la. Vamos com calma.   Ele acrescentou, de maneira reconfortante:   E quando tivermos terminado, voc vai estar bem. 
 Eles conversaram durante quase uma hora. Ao final da conversa, Ashley estava se sentindo muito mais relaxada. De volta ao seu quarto, pensou: Acho que ele  mesmo 
capaz de conseguir. E fez uma pequena orao. 
 O Dr. Keller teve uma reunio com Otto Lewison. 
   Conversamos hoje de manh   disse o Dr. Keller   A boa notcia  que Ashley admite ter um problema e est disposta a receber ajuda. 
   J  um comeo. Eu quero ficar sempre informado. 
   Pode deixar, Otto. 
 O Dr. Keller estava ansioso para comear o desafio que tinha pela frente. Havia algo muito especial em Ashley Paterson. Ele estava determinado a ajud la. 

 
Eles conversaram todos os dias, e uma semana aps a chegada de Ashley, o Dr. Keller falou:
   Quero que voc fique  vontade e relaxada. Eu vou hipnotiz la.   Ele se aproximou. 
   No. Espere. 
 Ele olhou para ela, surpreso. 
   O que foi?
 Uma dzia de pensamentos terrveis cruzaram a mente de Ashley. Ele ia fazer surgirem seus alteres. Ela estava aterrorizada diante da idia. 
   Por favor   disse.   Eu... eu no quero conhec las. 
   Voc no vai conhec las   assegurou lhe o Dr. Keller.   Ainda No. 
 Ela engoliu em seco. 
   Tudo bem, ento. 
   Est pronta?
 Ela assentiu. 
   Estou. 
   Bom. Vamos l. 
 Foram necessrios quinze minutos para hipnotiz la. Quando ela estava entregue, Gilbert Keller deu uma olhada numa folha de papel em cima de sua mesa. Toni Prescott 
e Alette Peters. Era a hora da mudana, o processo de passar de um estado de personalidade dominante para outro. 
 Ele olhou para Ashley, adormecida na cadeira, e se inclinou para perto. 
   Bom dia, Toni! Voc est me ouvindo?
 Ele viu o rosto de Ashley se transfigurar, tomado por uma personalidade totalmente diferente. Surgiu em seu rosto uma vivacidade sbita, e ela comeou a cantarolar. 


"Duzentos gramas de arroz barato, 
Duzentos gramas de melado. Agora, 
Misture bem para ficar gostoso, 
Mas a lontra   pluft!   foi embora. "

   Muito bonito, Toni! Eu sou Gilbert Keller. 
   Eu sei quem voc    disse Toni. 
    um prazer conhec la. Algum j lhe disse que a sua voz  bonita e melodiosa?
   Sem essa! 
   Estou falando srio. Voc estudou canto? Sou capaz de apostar que sim. 
   No. Nunca estudei. A bem da verdade, eu quis estudar, mas minha... Pelo amor de Deus, pare com essa barulheira. Quem foi que lhe disse que voc sabe cantar?... 
esquea. 
   Toni, eu quero ajud la. 
   No quer, no, doutorzinho. Voc quer  me comer. 
   Por que voc acha isso, Toni?
    s no que pensam vocs, homens. Muito agradecida! 
   Toni...? Toni...?
 Silncio. 
 Gilbert Keller olhou para o rosto de Ashley novamente. Estava sereno. O mdico se inclinou para perto dela. 
   Alette?
E no houve mudana de expresso no rosto de Ashley. 
   Alette... 
 Nada. 
   Eu quero falar com voc, Alette. 
 
 Ashley comeou a se mexer, aparentando incmodo. 
   Venha, Alette. 
Ashley respirou fundo e houve uma exploso de palavras faladas com um sotaque italiano. 
   C' quakuno che parla italiarno?
  Alette... 
  Non so dove mi tra vo. 
  Alette, me escute. Voc est a salvo. Eu quero que voc relaxe. 
   Mi sento stanca... Estou cansada. 
   Voc atravessou um perodo muito difcil, mas tudo isso ficou para trs.   A voz dele era reconfortante.   O seu futuro ser tranquilo. Voc sabe onde est?
   Sim.  um desses lugares para as pessoas que esto malucas.
   por isso que voc est aqui. 
  E, doutor Voc  o maluco. 
   um lugar onde voc ser curada. Alette, quando voc fecha os olhos e visualiza este lugar, o que lhe vem  mente?
   Hogarth. Ele pintava hospcios e cenas aterrorizadoras. Voc  ignorante demais para ter ouvido falar dele. 
   Eu no quero que voc ache este lugar aterrorizador. Fale me de voc, Alette. O que gosta de fazer? O que deseja fazer enquanto permanecer aqui?
   Eu gosto de pintar. 
   Vamos lhe arranjar algumas tintas. 
   No! 
   Por qu?
   Eu no quero. Menina, o que voc est dizendo que  isto aqui? Para mim, parece um borro feio. 
 Deixe me em paz. 
   Alette?   Gilbert Keller viu o rosto de Ashley se transformar de novo. 
Alette se foi. Gilbert Keller despertou Ashley. 
Ela abriu os olhos e piscou. 
  J comeou?
  J acabamos. 
  E como eu me comportei?
  Toni e Alette falaram comigo. Tivemos um bom comeo.

A carta de David Singer dizia:

Querida Ashley, 
 Aqui vai s um bilhetinho para dizer lhe que estou pensando em voc e torcendo para que esteja progredindo. A bem da verdade, penso em voc com frequncia. Tenho 
a impresso de que atravessamos as guerras juntos. Foi uma luta dura, mas ns vencemos. E eu tenho boas notcias. Fui informado de que as acusaes contra voc 
em Bedford e Quebeque sero retiradas. Se houver alguma coisa que eu possa fazer por voc, me diga. 

Com todo o carinho, 

David

 Na manh seguinte, o Dr. Keller estava conversando com Toni, tendo Ashley sob efeito da hipnose. 
   O que foi agora, doutorzinho?
 
   Eu s quero bater um papinho com voc. Eu gostaria de ajud la. 
   Eu no preciso da sua ajuda porcaria nenhuma! Eu estou muito bem. 
   Bem, eu preciso da sua ajuda, Toni. Quero lhe fazer uma pergunta. Qual  a sua opinio sobre Ashley?
   A dona Babacona? No me faa rir. 
   Voc no gosta dela?
  At um certo ponto. 
  O que voc no gosta nela?
 Houve uma pausa. 
   Ela tenta evitar que todo mundo se divirta. Se eu no assumisse o comando de vez em quando, nossas vidas seriam uma chatice. uma chatice. Ela no gosta de ir 
a festas, nem de viajar, nem de fazer nada para se divertir. 
   Mas voc gosta?
   Pode apostar.  isso que  a vida, no acha, meu amor?
   Voc nasceu em Londres, certo, Toni? Voc gostaria de me falar disso?
   Vou lhe falar uma coisa s. Eu gostaria de estar l agora. 
 Silncio. 
   Toni...? Toni...?
 Ela se foi. 
 Gilbert Keller falou para Ashley:
   Eu gostaria de falar com Alette.   Ele viu a expresso no rosto de Ashley mudar. Inclinou se para perto dela e falou baixinho:   Alette?
   Sim.
   Voc ouviu a minha conversa com Toni?
   Ouvi. 
   Voc e Toni se conhecem?
   Ns nos conhecemos, sim. Claro que nos conhecemos, seu idiota. 
   Mas Ashley no conhece nenhuma de vocs duas?
   No. 
   Voc gosta de Ashley?
   Ela  legal. Por que voc est me fazendo essas perguntas idiotas?
  Por que voc no fala com ela?
  Toni no quer que eu fale. 
  Toni sempre lhe diz o que fazer?
  Toni  minha amiga. Isso no  da sua conta. 
  Eu quero ser seu amigo, Alette. Fale me de voc. Onde nasceu?
  Nasci em Roma. 
  E gostava de Roma?
Gilbert Keller viu a expresso no rosto de Alette mudar, e ela comeou a chorar. 
 Por qu? O Dr. Keller se inclinou para perto dela e falou de maneira acalentadora:
   Tudo bem. Voc vai acordar agora, Ashley... 
 Ela abriu os olhos. 
   Eu falei com Toni e Alette. Elas so amigas. Eu quero que vocs sejam todas amigas. 
 Enquanto Ashley estava almoando, um enfermeiro entrou no quarto dela e encontrou uma pintura de paisagem sobre o cho. 
Ele a estudou um instante, em seguida levou a para a sala do dr. Keller. 

 
Havia uma reunio na sala do Dr. Lewison. 
   Como vai indo o tratamento, Gilbert?
   Eu falei com os dois alteres. O dominante  Toni. Seu histrico vem da Inglaterra, mas ela no quer falar sobre isso. A outra, Alette, nasceu em Roma, e tambm 
no quer falar sobre o assunto. Ento,  onde vou me concentrar. Foi onde os traumas ocorreram. Toni  a mais agressiva. Alette  sensvel e recatada. Interessa 
se por pintura, mas tem medo de seguir em frente. Preciso descobrir por qu   disse o Dr. Keller, ponderadamente. 
   Ento, voc acha que Toni domina Ashley?
   Acho. Toni assume o comando. Ashley no tinha conscincia da existncia dela nem da de Alette. Mas Toni e Alette se conhecem.  interessante. Toni canta com 
uma voz bonita e melodiosa, e Alette tem talento para a pintura.   Ele mostrou o quadro que o enfermeiro havia lhe trazido.   Acho que os seus dons podem ser a 
chave para chegar at elas. 

Ashley recebia uma carta do pai toda semana. Depois de l las, ficava sentada quieta em seu quarto, sem querer falar com ningum. 
   Elas so seu nico elo com o lar   disse o Dr. Keller para Otto Lewison.   Acho que aumentam o seu desejo de sair daqui para comear a levar uma vida normal. 
Mesmo pequenas coisas podem ajudar. . 

 Ashley estava comeando a se habituar com o lugar. Os pacientes pareciam desfrutar de liberdade para se locomover, embora houvesse enfermeiros em todas as portas 
e em todos os corredores. Os portes para o jardim estavam sempre trancados. Havia uma sala de recreao onde eles podiam se reunir para ver televiso, um ginsio 
para fazer ginstica e uma sala de jantar colectiva. 
 Havia pacientes de todos os lugares: japoneses, chineses, franceses, americanos... Fora feito um esforo muito grande para dar ao hospital um aspecto de familiaridade, 
mas quando Ashley ia para o seu quarto, as portas eram sempre trancadas atrs dela. 
   Isto no  um hospital   Toni reclamou com Alette.   Que droga!  uma priso. 
   Mas o Dr. Keller acha que pode curar Ashley. Ento ns vamos poder sair daqui. 
   No seja idiota, Alette. Ser que voc no v? A nica maneira que ele tem de curar Ashley  se livrando de ns, fazendo nos desaparecer. Em outras palavras, 
para Ashley ficar curada, ns teremos de morrer. Quer saber de uma coisa? Eu no vou deixar que isso acontea. 
   O que vai fazer?
   Vou encontrar uma maneira de fugirmos.
 
        Captulo Vinte e Quatro

Na manh seguinte, um enfermeiro estava acompanhando Ashley de volta para o seu quarto. 
   Voc est diferente hoje   disse ele. 
   Estou mesmo, Bill?
   Est. Quase como se fosse outra pessoa. 
 Toni falou baixinho:
    por causa de voc. 
   O que quer dizer com isso?
   Voc me faz sentir diferente.   Ela encostou no brao dele e olhou o nos olhos.   Voc me faz sentir maravilhosa. 
   Ora, por favor. 
   Estou falando srio. Voc  muito sexy. Sabia disso?
   No. 
   Mas . Voc  casado, Bill?
   J fui. 
   Sua mulher s pode ser louca por ter deixado voc escapar! H quanto tempo voc trabalha aqui, Bill?
   Cinco anos. 
   Muito tempo! Voc nunca sente vontade de sair daqui?
   s vezes, sinto. 
 Toni baixou a voz. 
   Sabe que realmente no h nada de errado comigo? Admito que tinha um probleminha quando cheguei, mas j estou curada. Eu tambm gostaria de me mandar daqui. 
Aposto que voc pode me ajudar. Ns dois poderamos sair juntos. Iramos nos divertir muito. 
 Ele a estudou durante algum tempo. 
   Eu no sei o que dizer. 
   Ora, sabe, sim! Veja s como  simples. Tudo o que voc tem de fazer  me deixar sair daqui uma noite dessas quando todo mundo estiver dormindo, e vamos embora! 
  Ela olhou para ele e falou baixinho:   Eu vou fazer com que valha a pena para voc. 
 Ele assentiu. 
   Vou pensar nisso. 
   Pois pense   falou Toni, confiante. 
 Quando Toni voltou ao seu quarto, falou para Alette:
   Vamos sair deste lugar. 

Na manh seguinte, Ashley foi levada  sala do Dr. Keller
  Bom dia, Ashley!
  Bom dia, Gilbert!
  Vamos experimentar um pouco de sdio amial hoje de manh . Voc j tomou antes?
  No. 
   bastante relaxante, voc vai ver. 
Ashley assentiu. 
  Tudo bem. Estou pronta. 
Cinco minutos depois, o Dr. Keller estava falando com Toni:
  Bom dia, Toni! 
  Oi, doutorzinho! 
  Voc est feliz aqui, Toni?
   engraado voc me perguntar isso! Para dizer a verdade, eu realmente j estou comeando a gostar deste lugar; me sinto em casa aqui. 
   Ento, por que est querendo fugir?
 A voz de Toni ficou spera:
 
   O qu?
   Bill me contou que voc lhe pediu ajuda para fugir daqui. 
   Mas que filho da puta!   Sua voz saiu com um tom de fria. Ela deu um pulo da cadeira, voou para a mesa, pegou um peso de papel e o arremessou contra a cabea 
do Dr. Keller. 
 Ele se abaixou. 
   Eu vou matar voc e vou matar aquele safado tambm. 
 O Dr. Keller a agarrou. 
   Toni... 
 Ele viu a expresso no rosto de Ashley se modificar. Toni se fora. Ele percebeu que seu corao estava palpitando com fora. 
   Ashley!
 Quando despertou, Ashley abriu os olhos, olhou ao redor, intrigada, e falou:
   Est tudo bem?
   Toni me atacou. Ficou zangada porque eu descobri que ela estava tentando fugir. 
   Eu... eu sinto muito. Tive a sensao de que algo ruim estava acontecendo. 
  Tudo bem. Eu quero juntar voc, Toni e Alette. 
   No. 
   Por que No?
   Eu tenho medo. Eu... no quero conhec las. Voc No entende? Elas no so reais. So a minha imaginao. 
   Mais cedo ou mais tarde, voc ter de conhec las, Ashley. Vocs precisam se conhecer.  a nica maneira de se curar. 
 Ashley se levantou. 
   Quero voltar para o meu quarto. 

Quando foi levada de volta para o quarto, Ashley esperou o enfermeiro sair. Estava tomada por uma profunda sensao de desespero. Ela pensou: Eu nunca vou sair 
daqui. Eles esto mentindo para mim. no voo conseguir me curar. no conseguia enfrentar a realidade de que outras personalidades viviam dentro dela... Por causa 
dessas personalidades, algumas pessoas haviam sido assassinadas, famlias haviam sido destrudas. Por que eu, meu Deus? E comeou a chorar. O que foi que eu fiz 
contra voc? Ela se sentou sobre a cama e pensou: no posso continuar assim. S h uma maneira de pr um fim a isto. Tenho de fazer o que  preciso agora. 
 Ela se levantou e passeou pelo quarto, procurando algo pontiagudo. No encontrou nada. Os quartos tinham sido projectados de forma a no haver nada com que os 
pacientes pudessem se machucar. Enquanto seus olhos vasculhavam o ambiente, ela viu as tintas, as telas e os pincis e foi at onde eles estavam. As hastes dos 
pincis eram de madeira. Ashley quebrou uma ao meio, obtendo com isso lascas de pontas afiadas. Lentamente, ela pegou a ponta mais afiada e a encostou ao pulso. 
Com um movimento rpido e forte, enfiou a profundamente, atingindo as veias, e o sangue comeou a jorrar. Ashley colocou a ponta afiada contra o outro pulso e repetiu 
o movimento. Ficou ali parada, vendo o sangue pingar sobre o carpete. Comeou a sentir frio. Caiu no cho e se enroscou em posio fetal. 
 Em seguida, o quarto caiu na escurido. 

 
Quando recebeu a notcia, o Dr. Gilbert Keller ficou chocado. Foi visitar Ashley na enfermaria. Seus punhos estavam enfaixados. 
Ao v la ali deitada, o Dr. Keller pensou: no posso deixar que isso torne a acontecer. 
   Ns quase a perdemos   disse ele.   Teria sido ruim para mim. 
Ashley conseguiu esboar um sorriso sem graa. 
  Eu sinto muito. Mas  que nada... nada parece ter soluo. 
    a que voc se engana   reconfortou a o Dr. Keller   Voc quer ser ajudada, Ashley?
   Quero. 
   Ento, precisa acreditar em mim. Precisa trabalhar comigo. Eu no posso fazer nada sozinho. O que voc me diz?
 Houve um silncio prolongado. 
   O que o senhor quer que eu faa?
   Primeiro, que prometa que no vai mais atentar contra a sua vida. 
   Tudo bem, prometo. 
   Eu vou pedir que Toni e Alette me faam a mesma promessa. Vou coloc la para dormir agora. 
 Alguns minutos depois, o Dr. Keller estava falando com Toni. 
   Aquela cadela egosta tentou nos matar. S pensa nela mesma! Voc est entendendo o que eu digo?
   Toni... 
   Ora! Eu no vou aceitar uma coisa dessas. Vou... 
   Quer calar a boca e me escutar. 
   Estou escutando. 
   Eu quero que voc prometa que no vai fazer mal a Ashley. 
   E por que eu deveria prometer?
   Eu vou lhe dizer por qu. Porque voc  parte dela. Nasceu da dor dela. Eu ainda no sei o que voc teve de suportar, Toni, mas sei que deve ter sido terrvel. 
Mas voc precisa entender que ela teve de passar pelas mesmas coisas, e Alette nasceu pela mesma razo que voc. Vocs trs tm muita coisa em comum. Deveriam ajudar 
um as s outras, e no nutrir um dio mtuo. Posso contar com a sua palavra?
 Nada. 
   Toni?
   Acho que sim   disse ela, resmungando. 
   Obrigado! Voc quer conversar sobre a Inglaterra agora?
   No. 
  Alette, voc est a?
  Estou. Onde voc acha que eu estou, seu idiota?
  Quero que voc me faa a mesma promessa que Toni fez. Que jamais vai fazer mal a Ashley. 
   s nela que voc pensa, no ? Ashley, Ashley, Ashley. E ns?
  Alette?
  Eu prometo. 

 
Os meses foram se passando, e no havia sinal de progresso. O dr. Keller estava sentado  sua mesa, repassando apontamentos, recordando sesses, tentando encontrar 
alguma indicao do que deveria estar dando errado. Ele tinha meia dzia de outros pacientes sob os seus cuidados, mas percebeu que se preocupava mais com Ashley. 
Havia um abismo incrvel entre sua vulnerabilidade inocente e as foras sinistras capazes de assumir o comando de sua vida. Toda vez que falava com Ashley, ele 
tinha um impulso incontrolvel de tentar proteg la. Ela  como uma filha para mim, frisou. A quem estou tentando enganar? Eu estou me apaixonando por ela. 

O Dr. Keller foi falar com Otto Lewison. 
  Estou com um problema, Otto. 
  Eu achava que isso era exclusivo dos nossos pacientes. 
  Envolve um dos nossos pacientes. Ashley Paterson. 
  Oh?
  Percebi que me sinto muito... muito atrado por ela. 
  Contra transferncia?
  . 
  Isso pode ser muito perigoso para vocs dois, Gilbert. 
  Eu sei. 
  Bem, pelo menos, enquanto voc tiver conscincia disso. . Tome cuidado. 
   o que pretendo fazer. 

NOVEMBRO. 
 Dei uma agenda para Ashley hoje de manh .
  Eu quero que voc, Toni e Alette usem esta agenda, Ashley pode guard la no seu quarto. Quando tiver algum pensamento ou idia que voc prefira escrever em vez 
de falar comigo, basta usar a agenda.
   Tudo bem, Gilbert. 

Um ms depois, o Dr. Keller escreveu em sua agenda:

DEZEMBRO
 O tratamento est esttico. Toni e Alette se recusam a discutir o passado. Est ficando mais difcil convencer Ashley a se submeter  hipnose. 

MARO
 A agenda ainda est em branco. No tenho certeza se a maior resistncia vem de Ashley ou de Toni. Quando hipnotizo Ashley, Toni e Alette surgem durante um intervalo 
de tempo muito curto. 
Esto irredutveis quanto a discutir o passado. 

JUNHO
Tenho sesses com Ashley regularmente, mas no percebo progresso algum. A agenda permanece intocada. Dei a Alette um cavalete e um estojo de tintas. Se ela comear 
a pintar, espero que haja uma brecha. 

JULHO
 Algo aconteceu, mas no estou certo de que seja um sinal de progresso. Alette pintou um lindo quadro dos jardins do hospital. Quando a elogiei por isso, ela se 
mostrou satisfeita. Naquela noite, o quadro apareceu rasgado em pedaos. 

 O Dr. Keller e Otto Lewison estavam tomando caf. 
   Acho que vou experimentar terapia de grupo   falou o dr. Keller   Nada mais tem funcionado. 
   Est pensando em quantos pacientes?
 
   No mais do que meia dzia. Quero que ela comece a interagir com outras pessoas. Neste exacto momento, est vivendo num mundo prprio. Eu quero que ela saia 
disso. 
   Boa idia! Vale a pena tentar. 

O Dr. Keller levou Ashley para uma pequena sala de reunies. 
Havia seis pessoas l dentro. 
   Quero que voc conhea alguns amigos   falou o dr. Keller. 
 Ele levou Ashley a cada uma das pessoas e a apresentou, mas ela estava apreensiva demais para escutar seus nomes. Cada um se misturava com o seguinte. Ela registrou 
a Mulher Gorda, o Homem Ossudo, a Mulher Calva, o Homem Manco, a Chinesa e o Homem Afvel. Todos pareceram ser gente muito agradvel. 
   Sente se   disse a Mulher Calva.   Voc gostaria de tomar um pouco de caf?
 Ashley se sentou. 
   Obrigada! 
   Ns j tnhamos ouvido falar de voc   disse o Homem Afvel.   Passou por muita coisa! 
 Ashley assentiu. 
 O Homem Ossudo falou:
  Acho que todos ns passamos por muita coisa, mas estamos recebendo ajuda. Este lugar  maravilhoso. 
   Eles tm os melhores mdicos do mundo   disse a Chinesa. Eles parecem to normais, pensou Ashley. 
O Dr. Keller se sentou a um canto, monitorando as conversas. 
Quarenta e cinco minutos depois, ele levantou se. 
   Acho que  hora de voc ir, Ashley. 
 Ela se levantou. 
   Foi bom conhecer todos vocs. 
 O Homem Manco se aproximou dela e sussurrou:
   No beba a gua daqui. Est envenenada. Eles querem nos matar e continuar recebendo o dinheiro do estado. 
 Ashley engoliu em seco. 
   Obrigada! No... no vou me esquecer do seu conselho. 
 Enquanto Ashley e o Dr. Keller caminhavam pelo corredor, ela falou:
   Quais so os problemas deles?
   Parania, esquizofrenia, DPM, perturbaes compulsivas. Mas, Ashley, a melhoria desde que vieram para c tem sido notvel. Voc gostaria de conversar com eles 
regularmente?
   No. 

O Dr. Keller entrou no escritrio de Otto Lewison. 
   No estou conseguindo chegar a lugar algum   confessou.   A terapia de grupo no funcionou, e as sesses de hipnose no esto surtindo qualquer efeito. Quero 
tentar algo diferente. 
   O qu?
   Quero pedir sua permisso para levar Ashley para jantar fora da clnica. 
   No acho uma boa idia, Gilbert. Poderia ser perigoso. Ela j...
   Eu sei. Mas neste exacto momento, eu sou o inimigo. Quero me tornar um amigo. 
   O alter dela, Toni, tentou mat lo uma vez. E se ela tentar novamente?
   Vou saber resolver. 
 O Dr. Lewison pensou um instante. 
   Tudo bem. Voc gostaria que algum fosse junto?
 
  No. No vai ser preciso, Otto. 
  Quando quer comear?
  Hoje  noite. 

  Voc quer me levar para jantar fora?
  Quero. Acho que seria bom para voc, Ashley, sair deste ar por algum tempo. E ento?
  Est bem. 

Ashley ficou surpresa com o seu nvel de entusiasmo diante da perspectiva de sair para jantar com Gilbert Keller. Vai ser divertido sair daqui por uma noite, pensou. 
Mas ela sabia que seria mais do que isso. A idia de uma sada com Gilbert Keller era muito estimulante. 

Eles estavam jantando num restaurante japons chamado Otani Gardens, a oito quilmetros do hospital. O Dr. Keller sabia que estava correndo um risco. A qualquer 
instante, Toni ou Alette poderiam sobrevir. Ele fora advertido.  mais importante que Ashley aprenda a confiar em mim, para que eu possa ajud la. 
  Engraado, Gilbert!   disse Ashley, olhando para o restaurante lotado  sua volta. 
  O qu?
  Estas pessoas no parecem nada diferentes das pessoas do hospital. 
  Elas no so realmente diferentes, Ashley. Tenho certeza que todas tm problemas. A nica diferena  que as do hospital no conseguem lidar com os seus to bem 
assim, ento ns as ajudamos. 
  Eu no sabia que tinha problemas at... Bem, voc sabe. 
  Sabe por qu, Ashley? Porque voc enterrou os seus problemas. No conseguiu enfrentar o que lhe aconteceu, ento construiu muralhas em sua mente e trancou as 
coisas ruins do lado de fora. At um certo ponto, muita gente faz isso.   Ele mudou de assunto deliberadamente.   Que tal o seu fil?
  Delicioso. Obrigada! 

Da por diante, Ashley e o Dr. Keller, uma vez por semana, passaram a fazer uma refeio fora do hospital. Almoaram num excelente restaurante italiano chamado 
Banducci's e jantaram algumas vezes no The Palm, no Eveleene's e no The Gumbo Pot. Nem Toni nem Alette apareceram uma vez sequer. 
 Certa noite, o Dr. Keller levou Ashley para danar. Foram a uma boate pequena, com uns msicos maravilhosos. 
   Voc est se divertindo?   perguntou ele. 
   Bastante. Obrigada!   Ela olhou para ele e falou:   Voc no  igual aos outros mdicos. 
   Eles no danam?
   Voc sabe o que eu quero dizer. 
 Ele a estava segurando bem junto de si, e ambos sentiram o impulso do momento. 
 "Isso poderia ser muito perigoso para vocs dois, Gilbert..."
 
        Captulo Vinte e Cinco

   Sei que maldita porcaria est tentando fazer, doutorzinho. Est tentando fazer Ashley pensar que voc  amigo dela. 
  Eu sou amigo dela, Toni, e seu tambm. 
  No, no . Voc acha que ela  maravilhosa, e que eu no valho nada. 
  Pois est errada. Eu respeito voc e Alette tanto quanto respeito Ashley. Todas vocs tm a mesma importncia para mim. 
   verdade?
  . Toni, quando lhe falei que voc canta com uma voz linda, eu fui sincero. Voc toca algum instrumento?
  Piano. 
  Se eu puder providenciar para que voc use o piano na sala de recreao para tocar e cantar, isso lhe interessaria?
  Talvez.   Ela pareceu ficar bastante entusiasmada. 
O Dr. Keller sorriu. 
  Ento, ser um prazer para mim. Vou lhe arranjar um piano. 
  Obrigada! 
O Dr. Keller tomou as providncias para que Toni tivesse acesso liberado  sala de recreao durante uma hora todas as tardes. No incio, as portas ficaram fechadas, 
mas  medida que os outros internos foram ouvindo a msica do piano e a cantoria que saa da sala, eles passaram a abrir a porta para escutar. E logo Toni estava 
entretendo dzias de internos. 

O Dr. Keller estava estudando os seus apontamentos com o dr. Lewison. 
   E a outra... Alette?   perguntou o Dr. Lewison. 
   J tomei as providncias para que ela pinte no jardim todas as tardes. Ser vigiada,  claro. Acho que ser uma boa terapia. 
Mas Alette se recusou. Numa sesso com ela, o Dr. Keller falou:
   Voc no est usando as tintas que eu lhe dei, Alette.  uma pena desperdi las assim. Voc tem tanto talento! 
   E como  que voc sabe?
   Voc no gosta de pintar?
   Gosto. 
   E por que no pinta?
   Porque no sou boa. Pare de me encher a pacincia. 
   Quem lhe disse isso?
   Minha... minha me. 
   Nunca falamos de sua me. Voc gostaria de me falar um pouco sobre ela?
   No h o que falar. 
   Ela morreu num acidente, no foi isso?
 No dia seguinte, Alette comeou a pintar. Ela achou bom ficar no jardim com suas telas e pincis. Quando pintava, conseguia se esquecer de tudo mais. Alguns dos 
pacientes se agrupavam em torno dela observando a. Eles falavam em vozes multicoloridas. 
   Os seus quadros deveriam ir para uma galeria.   Preto. 
   Voc  muito boa!   Amarelo. 
   Onde voc aprendeu a pintar desse jeito?   Laranja. 
   Eu gostaria de saber pintar assim!   Preto. 
Ela sempre ficava ressentida quando o seu tempo acabava e era hora de voltar para dentro. 

 
  Quero que voc conhea algum, Ashley. Esta  Lisa Garrett. 
Era uma mulher de seus cinquenta e poucos anos, baixinha e esqueltica.   Lisa est indo para casa hoje. 
A mulher estava exultante. 
  No  uma maravilha? E eu devo tudo ao Dr. Keller. 
Gilbert Keller olhou para Ashley e falou:
  Lisa sofria de DPM e tinha trinta alteres. 
  Isso mesmo, querida. E todos se foram. 
  Ela  nossa terceira paciente que vai embora este ano   ressaltou o Dr. Keller. 
Ashley sentiu uma pontinha de esperana. 
  O Dr. Keller  bondoso. Ele realmente parece gostar de ns.   disse Alette. 
  E voc  mesmo uma idiota   debochou Toni.   No v o que est acontecendo? Eu j lhe disse uma vez. Ele est fingindo que gosta da gente para que faamos o que 
ele quer E voc sabe o que isso significa? Ele quer juntar as trs e, depois, convencer Ashley de que ela no precisa da gente, minha cara. E sabe o que vai acontecer 
depois? Voc e eu vamos morrer.  isso que voc quer? Eu, No. 
  Ora, no   falou Alette, indecisa. 
  Ento, me escute. Vamos entrar no jogo do mdico. Vamos faz lo acreditar que estamos querendo ajud lo. Vamos engan lo direitinho. no temos pressa. E eu lhe 
prometo que um dia tiro a gente daqui. 
  Voc  quem sabe, Toni. 
  ptimo! Ento vamos deixar que o doutorzinho ache que est indo muito bem. 

Chegou uma carta de David. Havia uma fotografia de um menininho dentro do envelope. A carta dizia:

Querida Ashley, 
 Espero que voc esteja bem e que a terapia esteja progredindo. Tudo est bem por aqui. Ando bastante ocupado e estou gostando muito do meu trabalho. Junto com 
esta carta vai uma fotografia do nosso Jeffrey, que j est com dois aninhos. 
A julgar pela velocidade com que ele est crescendo, em poucos minutos estar se casando. No h novidade alguma para lhe contar, a bem da verdade. S quis que 
voc soubesse que eu estava pensando em voc. 
 Sandra me pede para dizer que ela tambm lhe envia os seus melhores votos. 

David

 Ashley estudou a fotografia. Que menininho bonito!, pensou. 
Espero que tenha uma vida feliz. 
 Ashley foi almoar, e quando voltou, a fotografia estava no cho de seu quarto, rasgada em pedaos. 

 15 de junho, 13 e 30
Paciente: Ashley Paterson. Sesso de terapia usando sdio amial. Alter, Alette Peters. 
   Alette, me fale um pouco de Roma. 
    a cidade mais bela do mundo. Cheia de grandes museus. Eu sempre ia a todos eles. E voc entende de museu?
   Voc queria ser pintora?
 
   Queria. O que voc acha que eu queria fazer da vida, trabalhar no corpo de bombeiros?
   E estudou pintura?
   No, no estudei.   no d para ir encher a pacincia de outro, hein?
   Por que no? Por causa do que a sua me lhe disse?
   Ah, No. Eu simplesmente conclui que no era boa o suficiente. Toni, veja se consegue tirar esse sujeito daqui! 
   Voc sofreu algum trauma durante aquele perodo? Aconteceu alguma coisa terrvel de que voc se lembre?
   No. Eu fui muito feliz naquela poca. Toni! 

 15 de agosto, 9:00
 Paciente: Ashley Paterson. Sesso de hipnoterapia com alter, Toni Prescott. 
   Voc quer falar sobre Londres, Toni?
   Quero. Eu me diverti muito quando estava l. Londres  to civilizada! H muita coisa para se fazer naquela cidade. 
   Voc teve algum problema?
   Problema? No, eu fui muito feliz em Londres. 
   Voc no se lembra de nada de ruim que lhe tenha acontecido durante a sua estada l?
   Claro que no. Que concluso voc vai tirar disso, seu doutorzinho?

 Todas as sesses traziam as lembranas de volta para Ashley. Quando ia para a cama  noite, ela sonhava que estava de volta  Global. Shane Miller estava l, e 
ele a estava elogiando por algum trabalho bem feito. "No poderamos viver sem voc, Ashley. Vamos mant la na empresa para sempre." Ento, a cena mudava para uma 
cela de priso, e Shane Miller estava dizendo: "Ora, eu detesto ter de fazer isto agora, mas diante das circunstncias, a empresa a est despedindo. Sabe, naturalmente, 
no podemos arcar com um envolvimento em algo deste teor. Voc est entendendo, no est? No h nada pessoal nisto. "
 Pela manh , quando Ashley acordava, seu travesseiro estava molhado de lgrimas. 

Alette se entristecia com as sesses de terapia. Elas lhe traziam  lembrana a falta que Roma lhe fazia e a felicidade que experimentara com Richard Melton. Ns 
poderamos ter tido uma vida feliz juntos, mas agora  tarde demais. Tarde demais! 

Toni detestava as sesses de terapia, pois lhe traziam muitas recordaes ruins tambm. Tudo o que tinha feito fora pelo bem e proteco de Ashley e Alette. Mas 
algum a valorizou? No. Estava trancafiada como se fosse uma criminosa ou algo do gnero. Mas eu vou sair daqui, prometeu a si mesma. Eu vou sair daqui. 

As pginas do calendrio passavam com o tempo, e mais um ano veio e se foi. O Dr. Keller sentia se cada vez mais frustrado. 
  Eu li o seu ltimo relatrio   disse o Dr. Lewison para Gilbert Keller.   Voc acha que h uma lacuna genuna, ou elas estariam realizando algum jogo?
 
   Esto jogando, Otto.  como se soubessem o que estou tentando fazer e no quisessem permitir. A meu ver, Ashley est realmente disposta a ser ajudada, mas elas 
no deixam. Normalmente, sob hipnose,  fcil conseguir acesso a elas, mas Toni  muito forte. Ela assume o controle total e  perigosa. 
   Perigosa?
   . Imagine o dio que no tem dentro de si para assassinar e castrar cinco homens! 

O resto do ano passou se sem melhoria alguma. 
 O Dr. Keller estava obtendo sucesso com os demais pacientes, mas Ashley, aquela com a qual ele mais se preocupava, no apresentava nenhum progresso. O Dr. Keller 
tinha a sensao de que Toni gostava de jogar com ele. Estava determinada a no permitir que ele vencesse. E ento, inesperadamente, houve um avano. 
Com outra carta do Dr. Paterson. 

5 de junho
Querida Ashley, 
 Estou de partida para Nova York, a fim de cuidar de alguns assuntos por l, e gostaria muito de dar um pulo a para v la. Vou telefonar para o Dr. Lewison e, 
se no houver objeco, espere a minha chegada por volta do dia 25. 
 Todo o meu amor, 
 Papai

Trs semanas depois, o Dr. Paterson chegou acompanhado de uma mulher morena muito atraente, com seus quarenta e poucos anos de idade, e a filha dela, de trs anos, 
Katrina. 
Eles foram conduzidos  sala do Dr. Lewison. Ele se levantou quando as visitas entraram. 
  Dr. Paterson,  um grande prazer rev lo. 
  Obrigado! Esta  a Senhorita Victoria Aniston, e esta  sua filha, Katrina. 
  Muito prazer, Senhorita Aniston. Katrina. 
  Eu as trouxe para que conhecessem Ashley. 
  Que maravilha! Ela est com o Dr. Keller neste exacto momento, mas eles devem acabar logo. 
  Algum progresso com Ashley?   perguntou o Dr. Paterson. 
Otto Lewison hesitou. 
  Eu poderia falar a ss com o senhor um instante?
  Claro. 
O Dr. Paterson se dirigiu a Victoria e Katrina. 
  Parece que eles tm um belo jardim aqui. Por que vocs no me esperam l fora, e eu levarei Ashley comigo quando for possvel. 
Victoria Aniston sorriu. 
   Boa idia!   Ela olhou para Otto Lewison.   Foi um prazer conhec lo, doutor
   Obrigado, Senhorita Aniston!
 O Dr. Paterson esperou que as duas sassem e se dirigiu a Otto Lewison. 
   H algum problema?
   Vou ser franco com o senhor, Dr. Paterson. no estamos obtendo tanto progresso quanto espervamos. Ashley diz estar disposta a receber ajuda, mas no est cooperando 
connosco. A bem da verdade, est combatendo o tratamento. 
 O Dr. Paterson ficou olhando para ele, intrigado. 
   Por qu?
 
   No  to raro assim! Em algum estgio, os pacientes com DPM ficam com medo de conhecer seus alteres. Ficam aterrorizados. A simples idia de que outras personagens 
possam estar vivendo dentro de sua mente e corpo e que sejam capazes de assumir o comando quando bem entenderem... Ora, o senhor pode imaginar o grau de devastao 
que isso  capaz de gerar na pessoa. 
 O Dr. Paterson assentiu. 
   Claro. 
   H algo que nos intriga acerca do problema de Ashley. Quase sempre, estes problemas comeam com algum histrico de abuso quando o paciente  muito jovem. no 
temos registro de nada desse tipo no caso de Ashley; portanto, no temos a menor idia de como ou por que o trauma comeou. 
 O Dr. Paterson ficou sentado em silncio por um instante. Quando resolveu falar, disse em tom pesado:
   Eu posso ajud los.   Ele respirou profundamente.   A culpa  minha. 
 Otto Lewison estava olhando para ele com toda a ateno. 
   Aconteceu quando Ashley estava com seis anos de idade. Eu precisei ir para a Inglaterra. Minha mulher no pde ir. Eu levei Ashley comigo. Minha mulher tinha 
um primo mais velho que morava l, chamado John. Eu no sabia na poca, mas ele tinha... problemas emocionais. Eu precisei sair para dar uma palestra um dia, e 
John se ofereceu para cuidar de Ashley. Quando voltei  noite, ele havia desaparecido. Ashley estava em um estado de absoluta histeria. Eu levei muito tempo, mas 
muito tempo mesmo, para acalm la. Depois disso, ela passou a no deixar ningum chegar perto dela, ficou tmida e retrada, e uma semana depois John foi preso 
por uma sequncia de casos de abuso sexual com crianas.   O rosto do Dr. Paterson estava tomado de angstia.   Eu jamais me perdoei. Nunca mais deixei Ashley sozinha 
com ningum depois disso. 
 Houve um silncio prolongado. 
   Eu sinto muitssimo por isso. Mas acho que o senhor nos deu a resposta que estvamos necessitando, Dr. Paterson. Agora o Dr. Keller ter algo especfico com 
que trabalhar   disse Otto. 
  Foi doloroso demais para mim; eu nunca consegui discutir isso antes. 
  Eu compreendo.   Otto Lewison olhou para o relgio.   Ashley vai demorar um pouco ainda. Por que o senhor no se junta  Senhorita Aniston no jardim? Pedirei 
a Ashley que os encontre l quando estiver liberada. 
O Dr. Paterson se levantou. 
  Obrigado! Eu vou, sim. 
Otto Lewison esperou que ele sasse. Mal podia esperar para contar ao Dr. Keller o que acabara de saber. 

Victoria Aniston e Katrina estavam esperando por ele. 
  Voc viu Ashley?   perguntou Victoria. 
  Ela vir dentro de poucos minutos   disse o Dr. Paterson, olhou para o enorme jardim ao redor   Isto aqui  muito agradvel, no  mesmo?
Katrina correu para perto dele. 
   Eu quero ir para o cu de novo. 
 Ele sorriu. 
 
   Tudo bem.   Ele a pegou nos braos, jogou a para o alto e pegou a quando ela caiu. 
   Mais alto!
   Est pronta? Vamos l.   Ele a jogou para o alto novamente e a pegou, e ela gritou, feliz da vida. 
   De novo!
 O Dr. Paterson estava de costas para a edificao principal, de forma que no viu Ashley e o Dr. Keller saindo. 
   Mais alto!   gritou Katrina. 
 Ashley parou  porta, petrificada. Viu o pai brincando com a garotinha, e o tempo pareceu se fragmentar. Tudo depois disso aconteceu em cmara lenta. 
Houve lampejos de uma garotinha sendo jogada para cima... "Mais alto, papai . "
 "Est pronta? Vamos l. "
 E depois a menina sendo jogada sobre uma cama... 
 E uma voz dizendo: "Voc vai gostar. . "
 A imagem de um homem se deitando ao seu lado na cama. A garotinha estava gritando: "Pare. No, por favor, No. "
 O homem estava na sombra. Ele a estava segurando com firmeza e acariciando lhe o corpo. "No  gostoso?"
E, de repente, a sombra se esvaiu, e Ashley conseguiu ver o rosto do homem. Era o seu pai. 
 Ao v lo ali no jardim agora, brincando com a garotinha, Ashley abriu a boca, comeou a gritar e no conseguiu parar. 
 O Dr. Paterson, Victoria Aniston e Katrina se viraram, assustados. 
 O Dr. Keller falou rapidamente:
  Eu sinto muitssimo! O dia no est sendo nada bom. Vocs poderiam voltar outra hora?   Conduziu Ashley de volta para dentro. eles a levaram para uma das salas 
de emergncia. 
   A pulsao dela est alta   disse o Dr. Keller   Ela est muito ansiosa.   Ele se aproximou dela e falou:   Ashley, no tenha medo. Est segura aqui. Ningum 
vai machuc la. Escute a minha voz e relaxe. . relaxe... relaxe... 
 Foi preciso meia hora. 
   Ashley, me conte o que aconteceu. O que foi que a perturbou. 
  Meu pai e aquela garotinha... 
  O que tm eles?
Foi Toni quem respondeu. 
  Ela no consegue encarar isso. Est com medo de que ele faa com a garotinha o que fez com ela. 
O Dr. Keller ficou olhando fixamente para ela durante um instante. 
  O que... o que ele fez com ela?
  Em Londres. Ela estava na cama. Ele se sentou ao lado dela e falou: "Vou deixar voc muito feliz, menina", e comeou a fazer lhe ccegas, e ela estava rindo. 
E ento... ele tirou lhe o pijama e comeou a bolin la. "No  bom o carinho das minhas mos?" Ashley comeou a gritar: "Pare. no faa isso." Mas ele no parou, 
segurou a contra a cama e continuou... . 
  Essa foi a primeira vez em que aconteceu, Toni?   perguntou o Dr. Keller. 
  Foi. 
  Quantos anos Ashley tinha?
  Seis. 
   E foi a que voc nasceu?
 
   Foi. Ashley ficou aterrorizada demais para enfrentar a situao. 
   O que aconteceu depois disso?
   Papai ia para a cama todas as noites e se deitava junto dela.   As palavras fluam agora.   Ela no conseguia impedi lo. Quando eles voltaram para casa, Ashley 
contou a mame o que havia acontecido, e mame disse que ela era uma cadela mentirosa. "Ashley ficou com medo de adormecer  noite, pois sabia que papai iria para 
o seu quarto. Ele costumava fazer com que ela o tocasse e depois ele prprio se masturbava. E dizia para ela: 'No conte isso para ningum, seno eu vou deixar 
de amar voc." Ela no podia contar a ningum. Mame e papai viviam brigando, e Ashley achava que era culpa sua. Sabia que tinha feito algo de errado, mas no sabia 
o qu. Mame a odiava. 
   Quanto tempo isso durou?   perguntou o Dr. Keller. 
   Quando eu tinha oito anos...   Toni parou. 
   Continue, Toni. 
 O rosto de Ashley se modificou, e era Alette quem estava sentada na cadeira agora. Ela falou:
   Ns nos mudamos para Roma, onde ele fez pesquisas para a Policlnica Berto Primo. 
   E foi a que voc nasceu?
   Foi. Ashley no conseguiu suportar o que aconteceu uma noite, ento eu vim para proteg la. 
   O que aconteceu, Alette?
   Papai entrou no quarto enquanto ela estava dormindo; estava nu. Ele foi para a cama de Ashley e desta vez penetrou a  fora. Ela tentou impedi lo, mas no conseguiu. 
Ashley implorava para que ele no fizesse mais aquilo, mas papai voltava toda noite. Ele sempre dizia: " assim que um homem mostra para uma mulher que a ama, e 
voc  minha mulher, e eu a amo. Voc nunca deve contar isso a ningum. " E ela nunca pde contar isso a ningum. 
 Ashley estava soluando, as lgrimas escorrendo lhe pelo rosto. 
 Gilbert Keller fez o que pde para no acolh la em seus braos e dizer lhe que a amava e que tudo ia ficar bem. Mas, obviamente, isso era impossvel. Eu sou seu 
mdico. 

Quando o Dr. Keller voltou para a sala do Dr. Lewison, o Dr. Paterson, Victoria e Katrina haviam ido embora. 
   Bem, era isto o que estvamos esperando   disse o Dr. Keller para Otto Lewison.   Finalmente conseguimos uma brecha. J sei quando Toni e Alette nasceram e por 
qu. Vamos observar uma grande mudana de agora em diante. 
 O Dr. Keller estava certo. As coisas comearam a progredir.
 
        Captulo Vinte e Seis

A sesso de hipnoterapia havia comeado. uma vez Ashley estava entregue, o Dr. Keller falou:
   Ashley, fale  me sobre Jim Cleary. 
   Eu amava Jim. Ns amos fugir juntos e nos casar. 
   E ento...?
   Na festa de formatura, Jim perguntou se eu no gostaria de ir at a sua casa com ele, e eu... eu disse que no. Quando ele me deixou em casa, meu pai estava 
esperando acordado. Estava furioso. Mandou que Jim fosse embora e no voltasse mais. 
   O que aconteceu depois?
   Eu resolvi ir at a casa dele. Fiz a mala e sai para ir at l.   Ela hesitou.   A meio caminho, mudei de idia e voltei para casa. Eu... 
 A expresso de Ashley comeou a mudar. Ela comeou a relaxar na poltrona, e era Toni quem estava ali sentada. 
   Voltou porra nenhuma! Ela foi at a casa dele, doutorzinho. Quando ela chegou  casa de Jim Cleary, estava escuro. Meus pais iam passar o fim de semana fora. 
Ashley tocou a campainha, minutos depois, Jim Cleary abriu a porta. Estava de pijama. 
  Ashley!   Seu rosto se iluminou com um sorriso.   Voc resolveu vir   Ele a puxou para dentro. 
  Vim porque eu... 
  Eu no quero saber por que voc veio. Voc est aqui.   Ele a abraou e a beijou.   Que tal uma bebidinha?
  No. Talvez um pouco de gua.   Ela ficou subitamente nervosa. 
  Claro! Venha.   Ele a pegou pela mo e a levou at a cozinha. Serviu lhe um copo de gua e esperou que ela terminasse de beber.   Voc parece nervosa. 
  Eu... eu estou. 
  No h razo para ficar nervosa. No h possibilidade de os meus pais voltarem. Vamos subir. 
  Jim, acho que no devemos. 
Ele foi para trs dela e a abraou, acariciando lhe os seios. Ela se encolheu. 
  Jim... 
Os lbios dele foram de encontro aos dela, e ele a estava forando contra a bancada da cozinha. 
  Eu vou deixar voc muito feliz, querida.   Era o pai dela dizendo: "Eu vou deixar voc muito feliz, querida. "
Ela ficou petrificada. Sentiu que ele estava tirando suas roupas e beijando a, enquanto ela ficava ali, parada e nua, gritando em silncio. Uma ira animal tomou 
conta dela. 
Ela viu uma faca de carne, enorme, fincada numa tbua de cozinha. Ento pegou a e comeou a esfaque lo no peito, gritando:
  Pare, papai... Pare com isso... Pare... Pare... Pare... 
Ela olhou para baixo, e Jim estava cado no cho, o sangue jorrando do seu corpo para todo lado. 
   Seu animal   gritou ela.   Voc no vai mais fazer isto com ningum.   Ela se abaixou e enfiou a faca nos testculos dele.
 
 s seis horas da manh , Ashley foi at a estao ferroviria para esperar por Jim. no havia sinal dele. Ela estava comeando a entrar em pnico. O que poderia 
ter acontecido? Ashley ouviu o apito do comboio  distncia. Olhou para o relgio: 7 horas. O comboio estava entrando na estao. Ashley se levantou e olhou ao 
redor freneticamente. Alguma coisa terrvel aconteceu a ele. Alguns minutos depois, estava plantada na plataforma, vendo o comboio partir para Chicago, levando 
com ele seus sonhos. 
 Ela esperou mais meia hora e depois voltou para casa vagarosamente. Ao meio dia, Ashley e seu pai pegaram um avio para Londres... 

A sesso estava terminando. 
 O Dr. Keller falou:
  ... quatro... cinco. Voc est acordada. 
 Ashley abriu os olhos. 
   O que aconteceu?
   Toni me contou como ela matou Jim Cleary. Ele estava atacando voc. 
 O rosto de Ashley ficou branco. 
   Quero ir para o meu quarto. 

  Estamos comeando a fazer progresso, Otto. At agora, estvamos entravados. Cada uma delas tinha medo de dar o primeiro passo. Agora, esto comeando a ficar 
mais relaxadas. Estamos indo na direco certa, mas Ashley ainda tem medo de enfrentar a realidade   disse o Dr. Keller para Otto Lewison. 
   Ela no faz idia de como os assassinatos ocorreram?  perguntou o Dr. Lewison. 
  Absolutamente nenhuma. Ela os apagou da mente, apagou tudo. Foi Toni quem assumiu o comando. 

Dois dias depois. 
  Voc est se sentindo relaxada, Ashley?
  Estou.   Sua voz soou distante. 
  Vamos conversar sobre Dennis Tibble. Ele era seu amigo?
  Dennis e eu trabalhvamos para a mesma empresa. No ramos propriamente amigos. 
  Segundo a polcia, as suas impresses digitais foram encontradas no apartamento dele. 
  Foram, sim. Eu fui at l porque ele tinha me pedido uns conselhos. 
  E o que aconteceu?
  Ns conversamos durante alguns minutos, e ele me deu um copo de vinho com uma droga dentro. 
  Qual  a ltima coisa de que voc se lembra?
  Eu... eu acordei em Chicago. 
A expresso de Ashley comeou a se alterar. Num instante, era Toni falando com ele. 
  Voc quer mesmo saber o que aconteceu...?
  Conte me, Toni. 

Dennis Tibble pegou a garrafa de vinho e falou:
  Vamos ficar descontrados. 
Ele comeou a lev la para o quarto. 
  Dennis... eu no quero... 
E eles estavam dentro do quarto, e ele estava tirando as roupas. 
  Eu sei o que voc quer menina. Quer que eu trepe com voc.  por isso que veio at aqui. 
 
Ela estava fazendo fora para se soltar. 
  Pare com isso, Dennis. 
   S vou parar depois que lhe der o que voc veio buscar. Vai ser uma delcia, menina!
 Ele a empurrou para a cama, segurando a com fora, descendo a mo para a virilha dela. Era a voz do pai dela. "Voc vai adorar, menina. " Ele a penetrou com fora, 
vrias vezes, e ela estava gritando em silncio: "No, papai. Pare. " E ento a fria indizvel assumiu o comando. Ela viu a garrafa de vinho. Esticou se para peg 
la, bateu a contra a borda da mesa e enfiou a ponta quebrada nas costas dele. Ele gritou e tentou se levantar, mas ela o segurou com fora, enquanto continuava 
enfiando a garrafa quebrada no corpo dele. Ela esperou at que ele casse no cho. 
   Pare...   implorou ele. 
   Voc promete no fazer mais isso? Sabe de uma coisa, eu vou tomar uma providncia, s para garantir   Ela pegou um caco de vidro e foi em direco  virilha 
dele. 

O Dr. Keller deixou que um momento de silncio se passasse. 
   O que voc fez depois disso, Toni?
   Eu resolvi sair dali antes que a polcia chegasse. Tenho de admitir que estava bastante excitada. Queria deixar de lado a vida montona de Ashley durante algum 
tempo e, como eu tinha um amigo em Chicago, decidi ir at l. Acontece que ele no estava em casa, de modo que fiz um as comprinhas, fui a alguns bares e me diverti 
um pouco. 
   E o que aconteceu depois?
   Arranjei um quarto num hotel e dormi.   Ela encolheu osombros.   Da em diante, a festa foi de Ashley. 
Ela acordou devagar, sabendo que havia alguma coisa muito errada. Teve a sensao de ter sido drogada. Ashley olhou ao redor do quarto e comeou a entrar em pnico. 
Estava deitada numa cama, nua, num quarto de hotel barato. no fazia idia de onde estava nem de como tinha chegado ali. Conseguiu se sentar e comeou a sentir 
a cabea latejar. Ela saiu da cama, entrou no minsculo banheiro e tomou um banho. Deixou que a gua quente batesse contra o seu corpo, tentando lavar as coisas 
horrveis, sujas, que lhe pudessem ter acontecido. E se ela tivesse engravidado? A simples idia de ter um filho dele a deixou enojada. Ashley saiu do chuveiro, 
secou se e foi at o armrio. Suas roupas haviam sumido. Encontrou ali somente uma minissaia de couro preto, um top barato e um par de sapatos de saltos bem altos, 
pontudos. Sentiu repugnncia ao se ver forada a vestir aquelas roupas, mas no teve escolha. vestiu se rapidamente e olhou se no espelho. 
Parecia uma prostituta. 
  Papai, eu... 
  O que houve?
  Estou em Chicago e... 
  O que voc est fazendo em Chicago?
  No d para falar agora. Preciso de uma passagem de avio para San Jos. no tenho nenhum dinheiro aqui comigo. Voc pode me ajudar?
  Claro. Espere... H um voo da American Airlines saindo do fiare s dez e quarenta; o nmero do voo  407. Vou mandar deixar uma passagem para voc no balco de 
embarque. 

 
  Alette, voc est me ouvindo? Alette. 
  Estou aqui, Dr. Keller. 
  Vamos conversar sobre Richard Melton. Ele era seu amigo, no era?
  Era. Ele era muito simptico... Eu estava apaixonada por ele. 
  Ele estava apaixonado por voc?
  Acho que sim, estava. Ele era um artista. Ns amos juntos aos museus e vamos quadros maravilhosos. Quando estava com Richard, eu me sentia... viva. Acho que 
se algum no o tivesse matado, talvez algum dia vissemos a nos casar. 
  Conte me a ltima vez em que vocs estiveram juntos. 
   Quando estvamos saindo de um museu, Richard falou: "Meu companheiro de quarto foi a uma festa hoje  noite. Porque no damos um pulinho no meu apartamento? 
Eu gostaria de lhe mostrar alguns dos meus quadros. "
  "Ainda No, Richard. "
  Como voc quiser. Vamos nos ver no fim de semana que vem? "Vamos. "
   Eu peguei meu carro e fui embora   disse Alette.   E essa foi a ltima vez em que eu... 
 O Dr. Keller viu seu rosto tornar a assumir a fisionomia de Toni. 
    assim que ela quer pensar   disse Toni.   Mas no foi isso que aconteceu. 
   E o que foi que aconteceu?   perguntou o Dr. Keller. 
Ela foi at o apartamento dele, na Fell Street. Era pequeno, mas os quadros de Richard davam lhe um aspecto aconchegante. 
   D muita vida ao ambiente, Richard. 
   Obrigado, Alette!   Ele a abraou.   Eu quero fazer amor com voc. Voc  linda!
   Voc  linda   falou o pai dela. E ela congelou. Porque sabia a coisa terrvel que ia acontecer. Estava deitada na cama, nua, sentindo a conhecida dor da penetrao 
rasgando a por dentro. 
 E ela estava gritando:
   No. Pare com isso, papai. Pare com isso. 
 E ento o frenesi manaco depressivo assumiu o controle. Ela no se lembra de onde conseguiu a faca, mas a estava enfiando por todo o corpo dele, gritando com 
ele:
   Eu mandei parar. Pare com isso. 

Ashley se contorcia em sua cadeira, aos berros. 
   Tudo bem, Ashley   disse o Dr. Keller   Voc est em segurana. Vai acordar agora, aps eu contar at cinco. 
Ashley acordou, trmula. 
  Est tudo bem?
  Toni me falou sobre Richard Melton. Vocs fizeram amor e voc pensou que fosse o seu pai, e ento... 
Ela tapou os ouvidos com as mos.
  Eu no quero ouvir mais nada. 

O Dr. Keller foi falar com Otto Lewison. 
  Acho que finalmente estamos obtendo algum progresso. Est sendo muito traumtico para Ashley, mas estamos chegando ao fim. Ainda temos dois assassinatos para 
repassar
  E depois?
  Vou juntar Ashley, Toni e Alette.
 

        Captulo Vinte e Sete

  Toni? Toni, voc est me ouvindo?   O Dr. Keller viu a expresso de Ashley se modificar. 
   Eu estou ouvindo tudo, doutorzinho. 
   Vamos conversar sobre Jean Claude Parent. 
   Eu deveria saber que ele era bom demais para ser verdade. 
   O que voc quer dizer com isso?
   No comeo, parecia um verdadeiro cavalheiro. Ele me levou para sair todas as noites, e nos divertimos muito. Eu o achei diferente, mas era igual a todos os outros. 
S queria saber de sexo. 
   Entendo. 
   Ele me deu um belssimo anel, e suponho que pensou que fosse meu dono. Fui at a casa dele. 
Era uma belssima casa de tijolo aparente, com dois andares e cheia de antiguidades. 
   Que linda! 
   H uma coisa especial que eu quero lhe mostrar l em cima, no quarto.   E ele a estava levando para o quarto, e ela foi incapaz.
Os dois estavam no quarto, e ele a abraou e sussurrou: 
  Tire a roupa. 
  Eu no quero... 
  Quer sim. Ns dois queremos.   Ele a despiu rapidamente, em seguida deitou a sobre a cama e a montou. Ela estava gemendo:
  No, por favor Papai, No. 
Mas ele no ligou. Continuou penetrando a at que, de repente, 
  Ah!   e parou.   Voc  linda!   disse ele. 
E a exploso malfica a sacudiu. Ela pegou a esptula de cortar papel de cima da mesa e a enfiou no peito dele, em cima e embaixo, em cima e embaixo. 
  Voc no vai mais fazer isso com ningum.   Ela enfiou a na virilha dele. 
Depois, ela tomou um banho tranquilo, vestiu a roupa e voltou para o hotel. 

  Ashley...   O rosto de Ashley comeou a mudar   Acorde.
Ashley despertou lentamente. Ela olhou para o Dr. Keller e perguntou:
  Toni outra vez?
  Foi. Ela conheceu Jean Claude na Internet. Ashley, quando voc estava em Quebeque, no houve perodos em que pareceu perder a noo do tempo? Quando de repente 
haviam se passado horas, ou mesmo um dia inteiro, e voc no sabia onde tinha ido parar o tempo?
Ela assentiu lentamente. 
  Houve, sim. Isso aconteceu com muita frequncia. 
  Era quando Toni assumia o controle. 
  E foi a que ela... que ela...?
  Foi. 
 
Nos meses seguintes, no aconteceu nada. Durante as tardes, o Dr. Keller escutava Toni tocando piano e cantando e observava Alette pintando no jardim. Havia mais 
um assassinato a ser analisado, mas ele queria Ashley bem relaxada para comear a conversar sobre este ltimo. 
 
 J se haviam passado cinco anos desde que ela chegara ao hospital. Est quase curada, pensou o Dr. Keller. 
 Numa manh de segunda feira, ele mandou buscar Ashley em seu quarto e esperou que ela entrasse em sua sala. Ela estava plida como se soubesse o que ia enfrentar. 

   Bom dia, Ashley!
   Bom dia, Gilbert!
   Como est se sentindo?
   Nervosa.  o ltimo, no ?
   . Vamos falar sobre o delegado Sam Blake. O que ele estava fazendo no seu apartamento?
   Eu pedi que ele fosse at l. Algum tinha escrito no espelho do meu banheiro: "Voc Vai Morrer." Eu no sabia o que fazer. Achei que algum estava tentando 
me matar. Chamei a polcia, e o delegado Blake atendeu. Ele foi muito amvel. 
   Voc pediu que ele ficasse com voc?
   Pedi. Eu estava com medo de ficar sozinha. Ele disse que ia passar a noite comigo e, pela manh , providenciaria proteco vinte e quatro horas para mim. Eu 
me ofereci para dormir no sof, para que ele pudesse dormir no quarto, mas ele disse que dormiria no sof. Eu me lembro que ele verificou se as janelas estavam 
bem fechadas e deu duas voltas na tranca. A arma dele estava em cima da mesinha ao lado do sof. Eu disse boa noite, fui para o meu quarto e fechei a porta. 
   E depois, o que aconteceu?
   Eu... a ltima coisa de que me lembro foi de ter sido acordada por algum gritando no beco. Ento o comissrio veio me dizer que o delegado Blake tinha sido 
encontrado morto. 
Ela parou, o rosto plido. 
   Tudo bem. Vou hipnotiz la agora. Relaxe... Feche os olhos relaxe...   Levou dez minutos. O Dr. Keller falou:   Toni... 
   Estou aqui. Voc quer saber o que aconteceu de verdade, no ? Ashley foi uma boba ao pedir ao Sam que dormisse no apartamento. Eu poderia ter dito a ela o que 
ele iria fazer. 
Ele ouviu um grito no quarto, levantou se ligeiro do sof e pegou a arma. Correu at  porta do quarto e prestou ateno um instante. Silncio. 
Havia sido imaginao. Quando comeou a dar meia volta, ouviu o grito outra vez. Abriu a porta, de arma na mo. Ashley estava na cama, nua, no havia ningum mais 
no quarto. Ela estava soltando uns gemidinhos. Ele se aproximou da cama. Ela estava linda, ali deitada, enrolada, na posio fetal. Gemeu mais uma vez, s voltas 
com um pesadelo horrvel. Ele s queria reconfort la, abra la e dar lhe um pouco de carinho. Deitou se ao seu lado, puxou a delicadamente para perto, sentiu 
o calor do corpo dela e comeou a ficar excitado. 
Ela foi despertada pela voz dele dizendo:
  Tudo bem. Voc est em segurana. 
E os lbios dele foram de encontro aos dela, e ele afastou as pernas dela e a penetrou. 
E ela estava gritando:
  No, papai. 
E ele se mexia cada vez mais rpido, na urgncia primordial, e ento a vingana selvagem aconteceu. Ela tirou a faca de dentro da gaveta ao lado da cama e comeou 
a enfi la no corpo dele. 
  O que aconteceu depois que voc o matou?
 
  Ela enrolou o corpo dele nos lenis, arrastou o at o elevador e passou pela garagem para chegar ao beco nos fundos. 

 Ashley ficou ali sentada, com o rosto lvido. 
   Ela  um mon... eu sou um monstro. 
   No. Ashley, voc precisa se lembrar de que Toni nasceu da sua dor, para proteg la. O mesmo acontece com Alette.  hora de dar um fim a isso tudo. Eu quero 
que voc as conhea.  o prximo passo para voc ficar boa   disse Gilbert Keller
 Os olhos de Ashley estavam bem fechados. 
   Tudo bem. E quando... quando vamos fazer isso?
   Amanh de manh. 

Ashley estava em hipnose profunda. O Dr. Keller comeou com Toni. 
   Toni, eu quero que voc e Alette conversem com Ashley. 
   O que o faz pensar que ela vai dar conta de ns duas?
   Eu acho que vai. 
   Pois bem, doutorzinho. Voc  quem manda. 
   Alette, voc est pronta para se encontrar com Ashley?
   Se Toni achar que est tudo bem. 
   Est, sim, Alette. J no  hora?
 O Dr. Keller respirou fundo e disse:
   Ashley, eu quero que voc diga ol para Toni. 
 Houve um silncio prolongado. Em seguida, um tmido:
   Oi, Toni... 
   Oi!
   Ashley, diga ol para Alette. 
   Oi, Alette! 
   Oi, Ashley!
 O Dr. Keller soltou um suspiro profundo de alvio. 
   Eu quero que vocs se conheam. Vocs sofreram os mesmos traumas terrveis. Eles as separaram. Mas no h mais razo para esta separao. Vocs vo se tornar 
uma pessoa ntegra e saudvel. A estrada  longa, mas vocs j comearam a jornada. 
Eu lhes asseguro uma coisa... a parte mais difcil j passou. 

 Desse ponto em diante, o tratamento de Ashley progrediu rpido. Ashley e seus dois alteres conversavam entre si todos os dias. 
  Eu tinha de proteg la   explicou Toni.   Suponho que cada vez que matava um daqueles homens, eu estava matando o papai pelo que ele fez a voc. 
  Eu tambm tentei proteger voc   disse Alette. 
  Eu... eu fico agradecida. S tenho o que agradecer a vocs. 
Ashley se dirigiu ao Dr. Keller e disse, secamente:
  Sou eu mesma? Eu estou falando comigo mesma, no ?
  Voc est falando com duas outras partes de voc   corrigiu o mdico com delicadeza.    hora de todas vocs se conhecerem e se tornarem uma s novamente. 
Ashley olhou para ele e sorriu. 
  Estou pronta. 

 tarde, o Dr. Keller foi falar com Otto Lewison. 
  Estou ciente dos relatrios positivos, Gilbert   falou o Dr. Lewison.
O Dr. Keller assentiu. 
 
  Ashley fez um progresso notvel. Mais uns poucos meses, acho que poder receber alta para continuar com um tratamento ambulatorial. 
  Que notcia maravilhosa! Parabns! 
Vou sentir falta dela, pensou o Dr. Keller. Vou sentir muita falta dela. 

- O Dr. Salem est na linha dois para falar com o senhor, Sr. Singer. 
  Est bem.   David pegou o telefone, intrigado. Por que Salem estaria ligando? J fazia alguns anos que os dois haviam falado pela ltima vez.   Royce?
  Bom dia, David! Tenho uma informao interessante para voc sobre Ashley Paterson. 
 David teve uma sbita sensao de alarme. 
   O que aconteceu com ela?
   Voc se lembra do quanto tentamos encontrar o trauma que havia causado o distrbio dela e no conseguimos?
 David se lembrava muito bem. Tinha sido a principal fraqueza na defesa do caso. 
   Eu me lembro. 
   Pois eu acabei de ficar sabendo a resposta. O meu amigo, Dr. Lewison, chefe do Hospital Psiquitrico de Connecticut, acabou de telefonar. A pea que estava faltando 
no quebra cabea  o Dr. Steven Paterson. Foi ele quem abusou de Ashley quando ela era criana. 
   O qu?   falou David, incrdulo. 
   O Dr. Lewison acabou de ficar sabendo disso. 
 David ficou sentado, ouvindo o que o Dr. Salem estava dizendo, mas sua mente estava em outro lugar. Ele estava se lembrando das palavras do Dr. Paterson. "Voc 
 o nico em quem eu confio, David. Minha filha significa tudo para mim neste mundo. Voc vai salvar a vida dela... Eu quero que voc defenda Ashley e no vou aceitar 
o envolvimento de mais ningum neste caso... "
 E subitamente David percebeu por que o Dr. Paterson insistira tanto para que ele representasse Ashley sozinho. O mdico estava certo de que David o protegeria 
se descobrisse o que ele havia feito. Precisara escolher entre a filha e a reputao e preferira a reputao. Mas que filho da puta!
   Obrigado, Royce! 

Naquela tarde, enquanto passava pela sala de recreao, Ashley viu um exemplar do Westport News que algum tinha deixado por l. Na primeira pgina do jornal, havia 
uma fotografia de seu pai com Victoria Aniston e Katrina. O incio do artigo dizia: "O Dr. Steven Paterson vai se casar com a socialyte Victoria Aniston, que tem 
uma filha de trs anos do casamento anterior. O Dr. Paterson integrando a equipe do St. John's Hospital, de Manhattan, acaba de comprar, junto com a futura esposa, 
uma casa em Long Island".
Ashley parou e seu rosto se contorceu, ficando igual a uma mscara de ira. 
  Eu vou matar esse filho da puta   gritou Toni.   Eu vou mat lo. 
 
Ela ficou totalmente fora de controle. Tiveram de coloc la numa sala com paredes acolchoadas onde no poderia se machucar, presa por algemas nas mos e nos ps. 
Quando os enfermeiros vieram dar lhe a comida, ela tentou agarr los, e eles precisaram se cuidar para no chegar perto demais. Toni assumira o comando absoluto 
sobre Ashley. 
Quando viu o Dr. Keller, ela gritou:
  Deixe me sair daqui, seu calhorda. Agora. 
  Ns vamos solt la   falou o Dr. Keller em tom reconfortante  , mas primeiro voc precisa se acalmar. 
  Eu estou calma   gritou Toni.   Vamos, me solte. 
O Dr. Keller sentou se no cho ao seu lado e falou:
  Toni, quando viu aquela fotografia de seu pai, voc disse que ia machuc lo e... 
  Mentira! Eu disse que ia mat lo. 
   J chega de matanas. Voc no vai esfaquear mais ningum. 
  Eu no vou esfaque lo. Voc j ouviu falar em cido sulfrico? Corri qualquer coisa, inclusive a pele. Espere at eu... 
 Eu no quero que voc pense desse jeito. 
 Voc est certo. Fogo! O fogo  melhor. Ele no precisa passar pelo inferno para morrer queimado. Posso atear fogo nele, ningum vai me pegar se... 
 Toni, esquea isso. 
 Tudo bem. Eu vou pensar em outras maneiras que sejam mais fcil.
 Ele a estudou um instante, frustrado. 
   Por que voc est to zangada?
   Voc no sabe? E eu que o achava um grande mdico! Ele est se casando com uma mulher que tem uma filha de trs anos. O que vai acontecer com essa menininha, 
Sr. Mdico Famoso? Pois eu vou lhe dizer. O mesmo que aconteceu connosco. Quer saber de uma coisa, eu vou impedir que isso acontea. 
   Eu tinha a esperana de que ns houvssemos dado um fim a todo esse dio. 
   dio? Quer saber o que  dio?
 Uma chuva forte e constante batia sobre o teto do carro em alta velocidade. Ela olhou para a me sentada ao volante, forando a vista para enxergar a estrada adiante, 
e sorriu, bem humorada. 

"O macaco perseguiu a lontra
Em volta do p de amora... "

 A me se virou e gritou:
   Cale a boca. Eu j lhe disse que detesto essa msica. Voc me d nojo, sua miservel, sua... 
 Depois disso, tudo pareceu acontecer em cmara lenta. A curva  frente, o carro derrapando para fora da estrada, a rvore. A coliso atirou a para fora do carro. 
Ela ficou abalada, mas no se machucou. 
Levantou se. Ouviu a me presa dentro do carro, gritando:
   Socorro, me tirem daqui! Socorro! 
 E ela ficou s olhando, at que o carro finalmente explodiu. 
  dio? Voc quer saber mais?
Walter Manning falou:
   Precisa ser uma deciso unnime. Minha filha  uma profissional, no uma diletante. Ela fez isso como um favor. No podemos recusar o seu quadro...  preciso 
que haja unanimidade. Vamos dar ao pastor o quadro da minha filha; caso contrrio, no vamos dar quadro algum. 
 
Ela estava com o carro estacionado ao lado do meio fio, o motor ligado. Esperou Walter Manning cruzar a rua em direco  garagem, para pegar o seu carro. Ela engatou 
a marcha e afundou o p no acelerador. No ltimo momento, ele ouviu o barulho do carro vindo em sua direco e se virou. Ela viu a expresso no rosto dele quando 
o carro o pegou em cheio e jogou o corpo mutilado para o lado. Ela seguiu em frente. No houve testemunhas. Deus estava do lado dela. 
  Isso  dio, doutorzinho! Isso  dio de verdade! 
Gilbert Keller ouviu a narrativa atnito, abalado pela perversidade e frieza. Ele cancelou os demais compromissos do dia. Precisava ficar s. 
Na manh seguinte, quando o Dr. Keller entrou na cela acolchoada, Toni assumira o controle. 
  Por que est fazendo isso comigo, Dr. Keller?   perguntou
  Deixe  me sair daqui. 
  Eu vou deixar   assegurou lhe o Dr. Keller   Fale me. O que ela lhe disse?
  Que ns temos de sair daqui e matar o papai. 
Toni assumiu. 
  Bom dia, doutorzinho! Ns estamos bem agora. Por que no nos solta?
O Dr. Keller fitou a bem nos olhos. Ele viu um assassinato a sangue frio dentro deles. 

O Dr. Lewison soltou um suspiro. 
  Estou profundamente sentido com o que aconteceu. Tudo estava indo to bem. 
   Agora, no consigo nem falar com Ashley. 
   Suponho que isto signifique ter de recomear todo o tratamento. 
 O Dr. Keller ficou pensativo. 
   De facto, No, Otto. J chegamos a um ponto em que os trs alteres chegaram a se conhecer. Isso  um grande avano. O prximo passo  conseguir que se integrem. 
Eu preciso encontrar uma forma de chegar a esse ponto. 
   Que artigo maldito... 
   Foi sorte nossa Toni ter visto o artigo. 
 Otto Lewison olhou para ele, surpreso. 
   Sorte?
   Foi. Porque existe um dio residual em Toni. Agora que sabemos de sua existncia, podemos trabalh lo. Eu quero tentar uma experincia. Se funcionar, vai ser 
bom. Se no funcionar...   ele fez uma pausa e acrescentou tranquilamente:   ento eu acho que Ashley ter de ficar confinada a este hospital at o fim de sua vida. 

   O que voc pretende fazer?
   Acho que no  uma boa idia o pai de Ashley tornar a v la, mas estou pensando em contratar um servio de pesquisas em jornais para que eles me mandem recortes 
de todos os artigos que sarem sobre o Dr. Paterson. 
 Otto Lewison pestanejou. 
   Qual  o propsito?
   Vou mostr los todos a Toni. Sua raiva h de acabar se consumindo toda. Assim, poderei monitor la e tentar control la. 
   Isso pode levar muito tempo, Gilbert. 
   Pelo menos um ano, talvez mais. Mas  a nica chance que Ashley tem. 

 
Cinco dias depois, Ashley voltou ao comando. 
Quando o Dr. Keller entrou na cela acolchoada, ela falou:
  Bom dia, Gilbert! Sinto muito que isso tudo tenha acontecido... 
  Eu estou feliz que tenha acontecido, Ashley. Vamos colocar todos os nossos sentimentos a descoberto.   Ele fez um gesto com a cabea para que o guarda retirasse 
as algemas das mos e dos ps dela. 
 Ashley se levantou e esfregou os pulsos. 
   Isso no foi nada confortvel   disse ela. Os dois tomaram o corredor.   Toni est furiosa. 
  Est, mas vai superar. O meu plano  o seguinte... 

Todos os mses saam sempre trs ou quatro artigos sobre o Dr. Steven Paterson. um deles dizia: "O Dr. Steven Paterson vai se casar com Victoria Aniston numa sofisticada 
cerimnia em Long Island nesta Sexta feira. A celebrao contar com a presena de colegas do mdico... "
Toni ficou histrica quando o Dr. Keller mostrou lhe o artigo. 
  Esse casamento no vai durar muito. 
  Por que est dizendo isso, Toni?
  Porque ele vai ser morto!
"Steven Paterson deixa a equipe do St. John's Hospital e a chefia do centro de tratamento cardaco do Manhattan Hospital... "
  Para poder estuprar todas as menininhas de l   gritou Toni. 
"Steven Paterson recebeu o prmio Lasker pelo seu trabalho na medicina e est sendo homenageado na Casa Branca... "
  Eles deveriam enforcar esse calhorda!   berrou Toni. 
Keller cuidou para que Toni recebesse todos os artigos sobre o pai. E  medida que o tempo passava, a cada artigo que chegava, a raiva de Toni parecia diminuir. 
Foi como se as suas emoes estivessem se desgastando. Ela passou do dio  raiva e, finalmente, a uma aceitao resignada. 
Houve uma referncia na seco de imveis. O Dr. Steven Paterson e sua noiva se mudaram para uma casa em Manhattan, mas esto planeando comprar uma segunda propriedade 
na rea de Hamptons para passar as frias de vero com a filha, Katrina."
   Como ele foi capaz de fazer uma coisa dessas connosco?
   Voc acha que aquela menininha est tomando o seu lugar, Toni?
   Eu no sei. Eu... eu estou confusa. 

Mais um ano se passou. Ashley tinha sesses de terapia trs vezes por semana. Alette pintava quase todos os dias, mas Toni se recusava a cantar ou tocar piano. 

 No Natal, o Dr. Keller mostrou a Toni mais um artigo recortado dos jornais. Havia uma fotografia de seu pai com Victoria e Katrina. A legenda dizia: OS PATERSON 
COMEMORAM O NATAL EM HAMPTONS. 
   Ns passvamos o Natal juntos   falou Toni, chorosa.   Ele sempre me dava presentes maravilhosos.   Olhou para o dr. Keller   Ele no era de todo mau. Afora 
o... voc sabe, era um bom pai. Acho que ele me amava de verdade. 
 Foi o primeiro sinal de um novo avano. 

 
Um dia, quando passou pela sala de recreao, o Dr. Keller ouviu Toni cantando e tocando piano. Surpreso, entrou na sala e parou, para observ la. Ela estava totalmente 
absorta na msica. 
 No dia seguinte, ele teve uma sesso com Toni. 
   Seu pai est envelhecendo, Toni. Como voc acha que vai se sentir quando ele morrer?
  Eu... no quero que ele morra. Eu sei que falei um monte de besteiras, mas disse aquilo tudo porque estava com raiva dele. 
  Voc no est mais com raiva?
 Ela pensou um instante. 
  No estou com raiva, estou magoada. Acho que voc tinha razo. Senti que a menininha estava tomando o meu lugar. 
 Ela olhou para o Dr. Keller e falou: 
  Eu estava confusa. Mas meu pai tem o direito de continuar com a vida dele, e Ashley. - Toni comeou a chorar, - o direito de continuar com a dela. 
 O Dr. Keller sorriu. Retomamos o curso. 

As trs conversavam entre si com toda a liberdade agora. 
  Ashley, voc precisava de Toni e Alette porque no conseguia aguentar a dor. O que sente com relao ao seu pai agora?   perguntou o Dr. Keller
Houve um breve silncio. 
  Nunca vou me esquecer do que ele fez comigo, mas sou capaz de perdo lo. Quero deixar o passado para trs e comear o futuro   disse ela, lentamente. 
  Para fazer isso,  preciso torn la uma s outra vez. O que acha disso, Alette?
   Se eu for Ashley, poderei continuar pintando?   perguntou. 
 Claro que poder. 
 Ora, ento, tudo bem. 
 Toni?
 Vou poder continuar cantando e tocando piano?
 Vai, sim   disse ele. 
  Ento, por que no? Estou pronta para que ns trs nos tornemos uma s. Eu... gostaria de agradecer a elas a ajuda que me prestaram quando eu precisei. 
   Foi um prazer, doura. 
   Minira anche   disse Alette. 
 Era hora do passo final: integrao. 
   Tudo bem. Eu vou hipnotiz la agora, Ashley. Quero que voc se despea de Toni e Alette. 
 Ashley respirou fundo. 
   Adeus, Toni! Adeus, Alette!
   Adeus, Ashley!
   Cuide se direitinho, Ashley
 Dez minutos depois, Ashley estava sob hipnose profunda. 
   Ashley, no h mais o que temer. Todos os seus problemas ficaram para trs. Voc no precisa de mais ningum para proteg la.  capaz de tomar as rdeas da sua 
prpria vida sem ajuda, sem bloquear as experincias ruins.  capaz de enfrentar o que vier pela sua frente. Voc concorda comigo?
   Concordo, sim. Estou pronta para enfrentar o futuro. 
   Que bom! Toni?
No houve resposta. 
   Toni?
 No houve resposta. 
   Alette?
 Silncio. 
 
   Alette?
 Silncio. 
   Elas se foram, Ashley. Voc est inteira novamente e est curada. 
 Ele esperou at que o rosto de Ashley se iluminasse. 
   Voc vai acordar quando eu contar at trs, um ... dois... trs... 
 Ashley abriu os olhos, e um sorriso beatfico iluminou o rosto. 
   Aconteceu... no aconteceu?
 Ele assentiu. 
  Aconteceu, sim. 
Ela ficou em xtase. 
  Estou livre. Oh, obrigada, Gilbert! Estou... sentindo... como se uma horrvel cortina escura tivesse sido tirada de cima de mim. 
O Dr. Keller pegou lhe na mo. 
  Eu no tenho palavras para lhe contar a satisfao que estou sentindo. Vamos fazer mais alguns testes durante estes prximos meses, mas se os resultados forem 
o que estou esperando, ns a estaremos mandando para casa. Vou tomar as providncias para que voc receba um tratamento ambulatorial onde quer que esteja. 
Ashley assentiu, sobrepujada pelas emoes, sem conseguir dizer nada.
 
        Captulo Vinte e Oito

 Durante os poucos meses que se seguiram, Otto Lewison pediu que trs psiquiatras diferentes examinassem Ashley. Eles usaram a hipnose e o sdio amial. 
   Al, Ashley. Eu sou o Dr. Montfort e preciso lhe fazer algumas perguntas. Como voc est se sentindo consigo mesma?
   Maravilhosa, doutor.  como se eu tivesse acabado de me recuperar de uma longa doena. 
   Voc se acha uma pessoa ruim?
   No. Eu sei que aconteceram algumas coisas terrveis, mas no me acho responsvel por elas. 
   Voc sente dio de algum?
   No. 
   E o seu pai? Sente dio dele?
  Senti. no sinto mais. Acho que ele no teve como evitar o que fez. S espero que esteja bem agora!
   Voc gostaria de tornar a v lo?
   Acho que seria melhor se eu no o visse. Ele tem a vida dele. E eu quero comear uma vida nova, s minha. 

  Ashley?
   Pois No?
   Sou o Dr. Vaughn. Gostaria de ter uma breve conversa com voc. 
   Tudo bem. 
   Voc se lembra de Toni e Alette?
   Claro. Mas elas no existem mais. 
   O que sente com relao a elas?
   No incio, fiquei assustadssima, mas agora sei que precisei delas. E tenho um sentimento de gratido por elas. 
   Voc costuma dormir bem  noite?
   Agora, sim. 
   Conte me seus sonhos. 
   Eu tinha sonhos horrveis, algo me perseguindo. Eu achava que seria assassinada. 
   Voc ainda tem esses sonhos?
   No. Meus sonhos so tranquilos. Vejo cores vivas, gente sorrindo. Ontem  noite, sonhei que estava numa estao de esqui, voando pelas encostas abaixo. Foi 
maravilhoso! O frio no me incomoda mais. 
  O que sente com relao ao seu pai?
  Quero que ele seja feliz, e eu quero ser feliz. 

  Ashley?
   Pois No?
   Eu sou o Dr. Hoelterhoff. 
   Muito prazer, doutor?
   Ningum me disse que voc era to bonita assim. Voc se acha bonita?
   Acho que sou atraente... 
   Eu soube que voc tem uma voz linda. Concorda?
   No  uma voz treinada, mas, concordo.   Ela riu.   Pelo menos, consigo cantar com voz afinada. 
  E me disseram tambm que voc pinta.  boa nisso tambm?
  Para uma amadora, acho que sou bastante boa. 
Ele a estudava, atenciosamente. 
  Voc tem algum problema que gostaria de discutir comigo?
 
  No consigo pensar em nada. Recebo um ptimo tratamento aqui. 
   O que voc acha de sair daqui e ganhar o mundo?
   J pensei muito nisso. D medo, mas ao mesmo tempo  estimulante. 
   Acha que poderia sentir medo l fora?
   No. Quero construir uma nova vida. Minha rea  a informtica. No d para voltar para a empresa onde eu trabalhava, mas decerto vou conseguir emprego em outra 
firma qualquer. 
 O Dr. Hoelterhoff assentiu. 
   Obrigado, Ashley! Foi um prazer conversar com voc. 

O Dr. Montfort, o Dr. Vaughn, o Dr. Hoelterhoff e o Dr. Keller se reuniram na sala de Otto Lewison. Ele estava estudando os relatrios de todos. Ao terminar, olhou 
para o Dr. Keller e sorriu. 
   Parabns   disse ele.   Estes laudos so todos positivos. Fez um trabalho excelente. 
   Ela  uma mulher maravilhosa. Muito especial, Otto. Estou satisfeito de ver que ela vai poder seguir com a prpria vida novamente. 
   Ela concordou com um tratamento ambulatorial depois que sair daqui?
   Concordou. 
 Otto Lewison assentiu. 
   Muito bem. Vou mandar preparar a papelada para ela receber alta.   Ele se dirigiu aos outros mdicos.   Obrigado, senhores! Fico lhes grato pela ajuda.
 
        Captulo Vinte e Nove

Dois dias depois, Ashley foi chamada  sala do Dr. Lewison. O Dr. Keller estava presente. Ela receberia alta e poderia voltar para sua casa em Cupertino, onde sesses 
de terapia regular e de avaliao haviam sido providenciadas junto a um psiquiatra aprovado pelo tribunal. 
  Ora, hoje  o dia! Est feliz?   perguntou o Dr. Lewison. 
  Feliz, assustada, eu... eu nem sei   disse Ashley   Estou me sentindo como um passarinho que acaba de ser libertado da gaiola. Como se eu pudesse voar!   seu 
rosto estava resplandecente. 
  Estou feliz de v la ir embora, mas eu... vou sentir sua falta.   disse o Dr. Keller. 
Ashley pegou a mo dele e falou carinhosamente:
  Eu tambm vou sentir sua falta. Eu no sei como... No sei como vou poder lhe agradecer   Seus olhos encheram se de lgrimas.   Voc me devolveu a minha vida. 

Sorriu ao Dr. Lewison. 
  Quando eu estiver na Califrnia, vou conseguir um emprego numa daquelas firmas de informtica de l. Vou mandar notcias sobre o andamento de tudo, inclusive 
da terapia ambulatorial. Quero me assegurar de que o que me aconteceu jamais volte a acontecer. 
   Acho que voc no tem com que se preocupar   assegurou lhe o Dr. Lewison. 
 Quando ela se foi, ele se dirigiu a Gilbert Keller. 
   Este caso  uma compensao pelos diversos outros pacientes que no conseguiram, no  mesmo, Gilbert?

Era um dia ensolarado de junho, e  medida que ela caminhava pela Madison Avenue, de Nova York, seu sorriso radiante fazia as pessoas se voltarem para olh la. 
Ela nunca tinha se sentido to feliz. Pensou na vida maravilhosa que tinha pela frente e em tudo que ia fazer. Poderia ter sido um final terrvel para ela, pensou, 
mas este era o final feliz pelo qual tanto tinha pedido. 
 Ela entrou na estao da Pensilvania. Era a estao ferroviria mais movimentada dos Estados Unidos, um labirinto aptico de sagues e corredores sem cor. A estao 
estava abarrotada de gente. E cada uma dessas pessoas tem uma histria interessante para contar, pensou ela. Esto todas indo para lugares diferentes, vivendo suas 
prprias vidas, e agora, eu vou viver a minha prpria vida. 
 Ela comprou uma passagem num dos guinches automticos. Seu comboio estava entrando na plataforma. Acaso fortuito, pensou. 
 Ela entrou no comboio e sentou se. Reluzia de excitao por conta do que estava prestes a acontecer. O comboio deu um leve solavanco e comeou a ganhar velocidade. 
Estou no meu prprio caminho, afinal. E enquanto o comboio seguia em direco a Hamptons, ela cantava baixinho. 

"O macaco perseguiu a lontra
Em volta do p de amora. 
O macaco achou divertido. 
Mas a lontra   pluft!   foi embora. "

Fim
